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Há alguns anos a idéia dos anjos
cabalísticos se popularizou
no Brasil, virando uma verdadeira
febre. Na verdade, esses seres
correspondem a entidades conhecidas
como "gênios da Cabala". Cabala
é um método usado pela tradição
judaica para descobrir o significado
oculto ou sutil de certas coisas,
como as palavras contidas nos
textos bíblicos. Através de
estudos numerológicos, tendo
como base o alfabeto hebraico,
a ciência cabalística descobriu
que a soma do valor numérico
das letras que compõem o nome
de Deus (YHWH) perfaz o total
de 72. A partir deste número
um autor, cujo pseudônimo é
Haziel, interpretou que deste
total provém o número de 72
atributos de Deus e dos 72 anjos
que cercam o seu trono, cada
um correspondendo a 5 graus
do zodíaco. Esta concepção desenvolvida
em quatro livros foi traduzida
para um livro por um ocultista
francês chamado Lazaré Lenain
que, segundo o angelólogo Eduardo
Cunha Farias, "copiou algumas
tabelas" de Haziel e publicou
com o nome de La Science Cabalistique.
Acredita-se que os nomes dos
anjos cabalísticos serviriam
para os cabalistas como mantras
destinados apenas àqueles que
conhecessem o segredo. Para
Farias, entretanto, eles não
têm nada a ver com anjos da
guarda. "Como eles iluminam
todos os nascidos a cada 5 graus
do zodíaco, eles não podem ser
anjos da guarda de todas estas
pessoas". Ou seja, apesar de
estarem ligados à humanidade
e poderem ser invocados para
resolver um tipo de questão
para o qual ele está especializado,
eles estão distantes de nós.
Farias considera que as exortações
específicas de cada anjo correspondem
ao Meio Céu descrito no mapa
astral de cada um, ou seja,
a missão, a diretriz principal
da vida de cada um. Mas há vários
problemas para quem quer identificar
em alguma tabela disponível
no Brasil o seu próprio anjo
cabalístico, para então invocá-lo.
Um deles é a língua hebraica.
A princípio é simples. Os nomes
dos gênios foram formados a
partir da combinação das letras
dos versículos 19, 20 e 21 do
capítulo XIV do Livro do Êxodo
da Bíblia judaica, com 72 letras
cada um. Pegou-se a primeira
letra do primeiro versículo,
a última do segundo e a primeira
do terceiro. Depois, combinou-se
a segunda letra do primeiro
versículo com a penúltima do
segundo e a segunda letra do
terceiro versículo; e assim
por diante. No entanto, o alfabeto
hebraico é composto por 22 letras,
todas consoantes e alguns sinais
que indicam vogais, mas que
usualmente não são escritos.
Portanto há várias palavras
em hebraico que são escritas
de maneira igual, mas pronunciadas
de maneira completamente diferente
e querem significar coisas ainda
mais distintas. Os tais nomes
dos anjos da Cabala e suas corretas
utilizações eram segredos guardados
a sete chaves pela tradição
judaica. Eles eram transmitidos
de mestre para discípulo através
da tradição oral, sem registros
por escrito. Há até o perigo
de, ao se pronunciar os nomes
dos anjos cabalísticos de forma
equivocada, se esteja atraindo
algum gênio das trevas, ou coisa
parecida, algo bem diferente
da intenção original. Mas as
complicações das listas dos
gênios da Cabala não param por
aí. Há também a questão dos
salmos, horários e datas, muitas
vezes desencontrados de autor
para autor. Enquanto alguns
fundamentaram seus estudos no
calendário judaico, outros se
basearam no gregoriano, adotado
pelo Ocidente. Isso, por si,
já constitui uma significativa
diferença, pois o dia judaico
começa ao pôr-do-sol, diferentemente
do dia do nosso calendário,
que começa sempre à meia-noite.
Além disso, as datas são completamente
incompatíveis, pois o ano novo
judaico se inicia a partir da
comemoração de Rosh Hashanah,
que tem data variável. Para
Eduardo Cunha Farias, o problema
desta mania é que ela caiu na
mão de "espertos". "Aquilo foi
tão plagiado e copiado errado
que talvez um dia alguém publique
a tabela correta por acaso",
ironiza ele.
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