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Referendado
como o poeta da morte, dos cemitérios, dos
ossos e da carne em putrefação, Augusto dos Anjos,
ao contrário do que muitos imaginam, segreda em sua obra
poética uma filosofia libertária, capaz de nos guiar
pela senda
da mais pura transcendência.
PAULO
URBAN
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Christiane S. Messias |
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Esses
são Versos Íntimos, escritos em 1906
pelo poeta Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, a compor um
dos mais declamados trabalhos deste enigmático discípulo
de Baudelaire, cuja breve vida esteve marcada por um intenso questionamento
filosófico, disseminado
por toda a sua obra.
Versos Íntimos expõem, de modo formal
e cruel, a nossa efêmera condição, fadados
que estamos a nos prostrar na lama sepulcral, não sem antes
experimentarmos toda a sorte de sofrimentos advindos do relacionamento
humano. Só
mesmo a perfeição faria toda a filosofia de Hobbes,
a considerar o homem lobo do próprio homem, caber assim
metrificada nos 14 versos (geralmente dois quartetos e dois tercetos)
decassílabos heróicos (a 6ª e a 10ª sílabas
são tônicas), de um único soneto. O poeta
observa laconicamente o definhar de nossos sonhos, lembra-nos
a todos de que a ingratidão é o presente natural
que nossas mãos estão acostumadas a receber por
toda a vida. Ele nos adverte acerca das traições
a que estamos sempre sujeitos e, por isso, considera inútil
qualquer espécie de remorso que possamos sentir esboçar-se
em nosso peito. São versos realistas, eivados de um pessimismo
desconcertante, a reproduzir o comportamento da sociedade hipócrita
à qual estamos condenados desde o nascimento.
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Vês!
Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão, esta pantera,
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te
à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma
um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se
alguém causa ainda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
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Por
dizer verdades como essas, Augusto dos Anjos pagou seu preço.
Sua poesia, considerada por muitos impressionista, não
agrada à maioria, posto que seus versos rasgam as principais
feridas da natureza humana, não acostumada a falar da morte
sem estremecer, pouco disposta a observar os erros de sua maneira
absurdamente competitiva de viver.
Entretanto, se nos detivermos mais serenamente sobre sua obra,
encontraremos não obstante os termos difíceis
por onde esbanja o cientificismo toda uma mística
que lhe serve de arcabouço, inequívoca função
compensatória para o pessimismo declarado do poeta, sempre
a questionar severamente o sentido de nossas vidas. Em alguns
de seus sonetos e outras partes não tão popularizadas
de seus versos, deparamo-nos com um caráter filosófico
ocultista absolutamente singular em toda a literatura brasileira.
O poeta apresenta genuínas reflexões à moda
esotérica, em versos sublimados por uma religiosidade espiritualista,
voltados para a libertação e transcendência
da nossa alma, que, no mais das vezes, vive atormentada.
Augusto dos Anjos nasceu em 20 de abril de 1884 no Engenho do
Pau-dArco, na Paraíba do Norte. Criado no seio de
um austero regime patriarcal, o poeta veio ao mundo em época
tumultuada, quando a sociedade assistia ao crescimento dos movimentos
abolicionista e republicano, que se contrapunham à decadente
monarquia de fim de século. Filho do advogado Alexandre
Rodrigues dos Anjos e de dona Córdula Carvalho Rodrigues
dos Anjos, Sinhá Mocinha para os íntimos, foi alimentado
na primeira infância pelo leite da escrava Guilhermina,
a quem dedicaria anos mais tarde o soneto Ricordanza della
mia Giuventú.
Augusto, terceiro filho de uma prole de seis, não cursou
escola alguma até seus 16 anos, quando iniciou sua produção
literária. Recebeu do próprio pai, junto de seus
irmãos, todas as lições de humanidades. Somente
o caçula não pôde ser educado pelo dr.
Alexandre, vitimado que fora o genitor pela paralisia geral
em 1905, ano em que faleceu; e foi o próprio Augusto quem
se encarregou de ensinar o irmão menor. Ao pai, dedicou
três sonetos na ocasião: A Meu Pai Doente,
A Meu Pai Morto e Ao Sétimo Dia de seu
Falecimento. A família reunida tomava lições
à sombra do tamarindo, árvore que marcou a vida
de Augusto e era considerada membro da família; sob ela,
o jovem se sentava para ler, estudar e compor seus versos. A árvore
de amplos agasalhos acha-se homenageada nos sonetos Debaixo
do Tamarindo e Vozes da Morte, entre outros,
peças de elevada sensibilidade.
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