TRANSCENDENDO > Mente
  Entendendo a Agressividade

Identificar nossas necessidades interiores é fundamental para não nos tornarmos presas da agressividade, força nata do ser humano que permeia tanto impulsos destrutivos como construtivos.

VERA LÚCIA FRANCO
Salvador Dalí, Pescando Tuna/Fundação Paul Ricard, França

Conflitos, revoluções, golpes, rebeliões, cor- rupção, assassinatos, estupros, explosões de violência pelo mundo todo. É esse o amargo panorama mostrado diariamente pelos meios de comunicação. Gestos de raiva, semblantes irados são vistos em situações corriqueiras do dia-a-dia. Buzinas impacientes e os murros na direção do automóvel de monstram a profunda irritação do motorista, que aguarda o farol abrir, parado no trânsito.

Programas de TV e filmes mostram claramente do que o “povo gosta”: terror e violência. Até programas de rádio, com a boa intenção de combatê-la, descrevem suas profundas mazelas “passo a passo”, alimentando os ouvintes com todos os requintes do sadismo. Quantos dólares não renderam as lutas de boxe de Tyson, que subia ao ringue para acabar com o adversário já no primeiro round? O ódio congelado em sua densa massa muscular parecia blindá-lo, tornando-o inacessível aos golpes adversários.

Chagal, O Passeio/Museu Estadual da Rússia, Leningrado

O homem contemporâneo é diferente dos romanos com seus gladiadores e cristãos ensangüentados nas arenas? A resposta é não! Violência, raiva, ódio, mau humor, crítica mordaz são todos manifestações da força agressiva que habita em nós através dos tempos. É necessário entender que, em sua totalidade, o ser humano traz dentro de si instintos construtivos e destrutivos. A agressividade é uma força inata que permeia tanto impulsos construtivos (como criatividade, bondade e sexualidade) quanto impulsos destrutivos (raiva, cobiça, inveja, etc.). Ocorre que os impulsos chamados destrutivos vêm sendo reprimidos, seja por sanções sociais e religiosas, seja por nosso esforço devido à dificuldade em admitirmos a realidade de sua existência. Tentamos evitá-los porque os tememos profundamente. Nossa vida, na verdade, é direcionada a uma dupla finalidade: assegurar nossa sobrevivência e tentar retirar dela o máximo de prazer. Fazemos isso procurando não despertar em nós as forças destrutivas, capazes de causar danos a nós próprios e aos outros.

A agressividade é importantíssima, na verdade, para a autopreservação porque, à medida que tentamos satisfazer nossas necessidades, a vida se mantém em sua integridade. No amor, sua importância reside na nossa capacidade de estabelecer relações com o outro. O prazer também tem uma ligação com a agressividade; decorre daí o fato de ficarmos felizes com nossas conquistas, ou excitados diante do horror e do perigo.




 
© Copyright 1996/2000 Editora Três