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A
dessacralização criada pelo estilo moderno de vida esconde do
ser humano um dos seus mais preciosos meios de transcendência.
Em Corpo, Território do Sagrado, Evaristo E. de Miranda nos leva
a uma viagem de autodescoberta que bem pode representar um caminho
de retorno à nossa integridade.
Por
Romeo Graciano
| Mario
Diniz |
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Da
janela do carro, minha filha,
que tem seis anos, viu o outdoor exibindo uma loira nua
e perguntou: Por que ela está pelada, pai?
Sem alongar a história, respondi que ela gosta de mostrar
a beleza do seu corpo, e que muita gente faz isso para ser elogiada,
para chamar a atenção. Ao mesmo tempo, comecei a
pensar no lado cruel da nossa cultura, que domestica as pessoas
já na tenra idade. Minha filha dava risadinhas enquanto
se divertia repetindo a palavra pelada.
Continuei meu caminho tentando refletir sobre as influências
desses momentos em uma criança que mais tarde será
mulher. Como educá-la para ter uma relação
sadia e sem preconceitos com seu corpo quando estamos mergulhados
em exemplos nada edificantes?
A onipresença do corpo em nossas vidas dá o que
falar em todos os campos de atividade. Porque ele é tratado
principalmente como uma extensão do ego, e assim sofre
com as distorções dos desejos e ilusões da
personalidade, submetendo-se às regras da moda e sendo
modelado ao gosto da conveniência pessoal, pois a cirurgia
plástica não mais é um privilégio
de poucos.
Coisificado e perfurado por metais (os piercings), desajustado
por posturas incorretas no seu convívio mecânico
com máquinas e tecnologias, o corpo humano foi quase totalmente
esvaziado do seu sentido de transcendência. Tudo muito normal
em uma realidade que exalta a aparência e suas impressões
de curta duração. Assim é se lhe parece,
confirmaria Piran- dello.
| Alex
Soletto |
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| Mais
do que simples suportes, os pés representam a força da alma. |
As
tradições religiosas apresentam o corpo como um
templo de Deus e, portanto, uma ponte para a divindade. Na visão
judaico-cristã, ele foi criado à imagem e semelhança
de Deus, sendo que os sentidos servem justamente para nos despertar
para outras realidades, fora dos limites do corpo material.
Com o objetivo de fornecer conhecimentos a todos que desejam viver
o corpo na sua merecida profundidade, Evaristo Eduardo de Miranda
lançou, recentemente, o livro Corpo Território
do Sagrado (Edições Loyola). O autor é
mestre e doutor em ecologia pela Universidade de Montpellier,
além de destacável conhecedor da teologia espiritual.
Nessa obra, ele parte dos fundamentos que unem judeus e cristãos
e da sabedoria da cabala um caminho e um instrumento
do conhecimento judaico das realidades infinitas
para desvendar o vasto simbolismo das regiões do corpo
que compõem uma geografia do sagrado, uma via de acesso
à reintegração do humano no divino.
O percurso desse caminho iniciático é realizado
em analogia com a Árvore das Sefirot (as dez emanações
do Criador) ou das vidas, e segue o sentido ascendente próprio
da energia de expansão que responde pela verticalização
humana.
Esta
jornada exploratória começa pelos pés, o
nosso primeiro estágio no domínio do ter. Hoje em
dia, está bastante difundida a massagem nas plantas dos
pés (reflexologia) como forma de beneficiar a totalidade
do corpo, o que reafirma o significado dos pés enquanto
rudimento do ser, sua causa e semente. Eles representam não
só o suporte da postura ereta, como também a força
da alma, e podem designar a pessoa ou o seu caráter.
Referindo-se à cerimônia do lava-pés, Evaristo
de Miranda observa que, por seu intermédio, lava-se
o passado e inaugura-se a presença no seio de um novo acolhimento.
Os pés só encontram razão de ser quando associados
às pernas, responsáveis pelo nosso incansável
caminhar sobre a terra. Andando sobre suas próprias pernas,
o ser reconhece sua necessidade de obter crescimento interior,
de exercer sua marcha com autonomia e autodomínio. (Não
imites o cavalo ou a mula estúpidos, cujo impulso se domina
com freio e cabresto; e nada te acontecerá Salm 32,9.)
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