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Neste
mês, Paulo Coelho lança O Demônio e a Srta. Prym (Editora Objetiva),
uma história que se passa na pequena vila de Viscos, nos Altos
Pirineus, e traz à tona a eterna luta entre o bem e o mal. Em
entrevista a PLANETA, ele fala do novo livro, da realização da
sua lenda pessoal e da recente viagem que fez ao Irã.
FÁTIMA
AFONSO
| Carmina
Sophia |
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| Paulo
Coelho |
PLANETA
O fio condutor de O Demônio e a Srta. Prym é
a eterna luta entre o bem e o mal. Para abordar o tema, você
diz ter feito uso de algumas lendas sobre o assunto. A que lendas
você se refere?
Paulo Coelho Essas lendas estão permeadas
em todo o texto do livro. Usei a lendária cidadezinha de
Viscos, onde se passa a história, como uma base para poder
desenvolver a caminhada dos conflitos no coração
humano. Chega um momento em que temos que decidir, e somos responsáveis
por nossos atos a partir daí, a vida nos ensina
que vamos terminar ferindo alguém, atirando contra nós
mesmos e fazendo benefícios onde não esperávamos.
Isso nos deix a, de certa forma, imersos na confusão, já
que sempre acreditamos que as conseqüências de nossos
atos são exatamente as que desejamos, mas a realidade prova
que não é assim. O duelo entre a nossa intenção
e o resultado dela é que é a luta entre o que chamamos
bem e o que acreditamos ser o mal. Todos
os povos e culturas possuem um corpo de lendas, ou escritos filosóficos,
teológicos, históricos para tentar entender esse
misterioso processo da alma humana, que se projeta no comportamento
social.
PLANETA De certa maneira, na introdução
do livro, você levanta uma dúvida sobre a questão
da existência de um Deus único. Você acredita
na possibilidade de o universo ser dirigido, digamos assim, por
Deuses e não por uma única divindade, como quer
a maioria das religiões?
Paulo Coelho Na introdução do livro,
eu procuro entender como o Deus supremo contém em si toda
a bondade e a maldade do mundo, já que ele é único.
Claro que eu acredito num Deus único, o que torna este
dilema mais interessante. Se fosse diferente os deuses
mocinhos e os bandidos a coisa ficaria muito fácil
de explicar.
| Reprodução |
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| Capa
do novo livro de Paulo Coelho: luta entre o bem o mal em cenário
dos Altos Pirineus. |
PLANETA
Assim como em Na Margem do Rio Piedra... e em Veronika
Decide Morrer, a trama de O Demônio e a Srta. Prym transcorre
no prazo de uma semana, período em que ocorrem profundas
mudanças na vida dos seus personagens e da sociedade em
que eles vivem. Você acha, de fato, que na vida real esse
tipo de transformação é possível em
tão curto espaço de tempo?
Paulo Coelho A Srta. Prym termina uma trilogia
chamada E no sétimo dia..., composta também
pelos dois outros livros citados, onde procurei justamente abordar
essas mudanças súbitas. Sim, eu acredito sobretudo
no poder da revelação, aquilo que de uma hora para
a outra você começa a enxergar com clareza, e que
leva a mudanças profundas. O outro processo chamado
academicismo, através do qual se acumula conhecimento durante
longos períodos é muito bom para passar o
tempo ou para o exercício intelectual, mas tem pouca ressonância
na vida cotidiana. Eu acredito em amor à primeira vista,
paixão, largar o emprego de uma hora para outra, deixar
que um pouco de loucura faça parte de nossas vidas.
PLANETA
As grandes transformações da sua vida
também aconteceram assim, de uma hora para outra?
Paulo Coelho Sim. Todo homem passa, no meu entender,
por um processo semelhante ao de um vulcão. A massa vai
se acumulando, e na superfície nada se transforma. O homem
se pergunta: será que minha vida será sempre assim?
Em um dado momento, começam os sintomas de erupção.
Se ele for inteligente, deixará que a lava saia do seu
interior e transforme a paisagem ao redor. Se ele for burro, irá
tentar controlar a explosão; a partir daí, toda
a sua energia será gasta em tentar manter aquele vulcão
sob controle. Eu fui pragmático o bastante para entender,
em determinados momentos de minha vida, que era preciso aceitar
um pouco da dor da explosão, para depois alegrar-me com
a nova paisagem ao redor.
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