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A “leitura” das cartas, quando contemplativa e dinâmica, bem pode
transportar-nos para um mundo psicológico mais profundo.
O
arquétipo serve, portanto, como matriz comportamental herdada
por todo ser humano, como arcabouço capaz de selecionar, nas experiências
da vida, os elementos significativos que estejam em sintonia com
o processo inato da individuação. Os arquétipos, verdadeiras potências
imateriais, surgem como entidades impalpáveis e incognoscíveis,
mas se manifestam por meio de idéias e imagens, e vestem-se com
as mais distintas roupagens de acordo com as culturas que os representam.
Nesse sentido, o tarô os simboliza amplamente, e um mergulho no
mundo dos arcanos permite espelharmos nossa alma. Por isso a “leitura”
das cartas, quando contemplativa e dinâmica, bem pode transportar-nos
para um mundo psicológico mais profundo. Percorramos juntos então,
passo a passo, essa estrada pictográfica da individuação.
Comecemos
pela figura especial do Louco, que, exceção à regra, não se mostra
numerada. O Louco, por não ter um número que lhe determine a posição,
acha-se livre para ser notado em qualquer parte da jornada, podendo
assumir diferentes valores em nossa vida; daí talvez ter sido
preservado sob a efígie do curinga nos baralhos mais comuns. Preferencialmente
o colocamos entre o tudo e o nada de Pascal, isto é, simultaneamente
ocupando o início e o fim da jornada. Feito Jano dos romanos (a
divindade de dois rostos que nunca se olham, voltados que estão
para lados opostos), é O Louco quem sabe do porvir tão bem quanto
do passado, já que se acha situado antes do primeiro arcano, O
Mago. Ao mesmo tempo ocupa a posição após o último, O Mundo. O
Louco confere assim ao conjunto um caráter rotativo e perene.
Ao assumir duplo papel de fechar e (re)abrir o ciclo, promete
a continuidade da individuação. Representa ainda uma força inconsciente,
não personificada, por isso sem número; e a figura de bobo da
corte expressa a ambivalência de sua função, já que os tais bobos
medievais, antes de idiotas, eram sábios, quiçá os únicos capazes
de falar verdades ao rei sem o risco de perder a cabeça.
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O
Louco nos prende assim em sua mágica, na paradoxal leitura de
seu sentido. Se pode ser visto como um bobo que nada sabe sobre
si, caminhando a esmo, por outro lado é ele o sábio que, tendo
mergulhado no abismo de si mesmo, ressurge renascido, disposto
a retomar sua senda. E não há monotonia nem repetição nesse processo;
embora as experiências mais fortes sejam arquetípicas, elas são
inusitadas no modo como acontecem e nos propiciam leituras sempre
novas do livro da vida. Também os passos do Louco nunca são lineares,
pois a individuação pressupõe voltas e rodeios até que nos aproximemos
do si mesmo, ou até que tropecemos em algo e caiamos dentro dele.
A
carta seguinte, O Mago, é a consciência personificada. Resulta
da transformação do impulso inconsciente do Louco, agora direcionado
conscientemente para o trabalho da individuação. Decididamente,
O Mago é o grande herói dessa jornada (ele é cada um de nós),
pois a cada passo nos transformamos, conforme desfilamos pela
“estrada real” dos arcanos. Ele está em pé, sendo portanto ativo;
e, feito aprendiz de feiticeiro, opera na mesa à sua frente. Um
de seus braços aponta para cima, o outro para baixo, como se nos
lembrasse da primeira máxima de Hermes Trismegisto, a ensinar
que o nível humano da existência apenas reproduz o plano cósmico
da vida; que somos, sim, manifestação da divindade,
mas nem por isso privilégio algum da natureza. O homem precisa
trabalhar com o que tem às suas mãos e intuir acerca do universo
à sua volta para que venha a compreender-se.
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Consoante
os preceitos básicos da magia, O Mago posiciona-se como elo entre
os planos humano e divino, surge como centro e medida de todas
as coisas. Quatro objetos, dentre outros, despertam-nos a atenção.
São eles a moeda e a baqueta que traz em suas mãos, além dos copos
e da adaga postos sobre a mesa. Aludem claramente aos quatro naipes
do baralho – ouros, paus, copas e espadas –, que representam a
inteireza do caminho ora descortinado. Isso porque o 4, assim
como o 12, é um número que, por excelência, expressa a totalidade,
haja vista serem quatro as estações do ano e 12 o número de seus
meses, como também as constelações do zodíaco. Quatro e 12 sempre
nos dão a idéia de algo completo.
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