|

O
tarô é considerado o mais complexo de todos os inúmeros sistemas
divinatórios de que se tem conhecimento. E representa, sem dúvida,
um inigualável exercício de imaginação, suscetível de infinitas
aplicações.
 |
No
livro O Tarô ou a Máquina de Imaginar,
Alberto Cousté considera que, de maneira geral, as disciplinas
mânticas (do grego mantéia, oráculo,
adivinhação) podem ser divididas entre as que utilizam
um intermediário e as que não o utilizam. As mancias
sem intermediário são as mais remotas e compreendem
todos os tipos de videntes e médiuns. As que incluem um
intermediário subdividem-se em dois tipos: aquelas cujo
intermediário não escapa ao âmbito do próprio
corpo humano e as que recorrem a um objeto alheio ou referencial.
Ao primeiro tipo pertencem, por exemplo, a quiromancia
(leitura das linhas das mãos, conhecida universalmente)
e a partenomancia (estudo da nuca das mulheres para verificar
a perda ou não da virgindade). Entre as que utilizam um
intermediário referencial está a cartomancia,
da qual o tarô é o grau mais especializado.
Mais do que qualquer outra mancia, o tarô oferece uma situação
adivinhatória no seu mais alto grau de complexidade, que
se compõe de: a) o adivinho em total liberdade imaginativa
para selecionar um entre os múltiplos estímulos
que a leitura lhe oferece; b) o consulente em disponibilidade
para orientar suas perguntas segundo o desenvolvimento dessa leitura;
c) o intermediário (as cartas) com uma capacidade sugestiva
inesgotável; d) a sessão de leitura irrepetível;
e) a falta de um código de referências estável,
que torna o tarô um exercício imaginativo de primeira
ordem, pois requer uma grande concentração do adivinho
diante da pluralidade de níveis que existe em cada leitura.
A
constituição do tarô: exercício combinatório
Dentre as inúmeras versões de tarô,
o conhecido Tarô de Marselha, usado nesta obra, é
a melhor de todas, na opinião dos estudiosos, por ter maior
semelhança com o jogo primitivo. Compõe-se de 78
cartas divididas em dois grupos: um de 22 cartas, denominadas
arcanos maiores, e outro de 56 cartas, denominadas arcanos
menores ou simplesmente naipes.
Os 22 arcanos maiores são tradicionalmente numerados de
1 a 21, mais o número 0, atribuído ao arcano denominado
O Louco, que tanto pode aparecer no começo como
no fim da seqüência. Por superstição,
em alguns jogos a carta 13 não aparece numerada. Esse conjunto
de cartas representa, de maneira geral, a evolução
de todas as criações humanas, interiores e exteriores,
sobre as quais o consultante interrogará, e constitui,
por assim dizer, a alma do tarô.
As 56 cartas denominadas arcanos menores são divididas
em quatro grandes subgrupos paus, copas, espadas e ouros
, correspondentes aos naipes propriamente ditos. Cada naipe
apresenta 14 cartas: um rei, uma rainha, um cavaleiro, um valete
e os números de 1 a 10, em ordem crescente. Como não
simbolizam acontecimentos, servindo apenas para fornecer informações
secundárias, essas cartas têm importância bem
relativa dentro do jogo.
Na utilização do tarô são consideradas:
a carta e seu simbolismo isoladamente, as relações
que cada uma mantém com as vizinhas e a posição
que ocupa dentro das tiragens. Normalmente, para responder a uma
pergunta ou a uma série delas, utilizam-se apenas os 22
arcanos maiores. Os simbolismos dessas cartas, originários
do inconsciente, encontram ressonâncias na psique de todos
os homens, podendo responder a qualquer tipo de questão
que o consultante não saiba conscientemente resolver. Além
disso, são elas que, ao exigirem complicados exercícios
combinatórios para a sua interpretação, tornam
o tarô um livro inacabado, compondo, a cada leitura, um
novo livro. Ou, como diz Oswald Wirth, é próprio
do simbolismo sugerir indefinidamente: cada um verá o que
o seu olhar permita perceber.
|