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LUIS PELLEGRINI
A legião dos novos-velhos
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Quanto
è brutta la vecchiaia, “quanto é dura a velhice”, dizia minha avó Anna,
do alto dos seus quase 80 anos. Mas ela logo piscava um olho, em rápido
desmentido. Seus lamentos na verdade não se justificavam. Ela era da
cidade de Vicenza, no Vêneto, região do norte da Itália. As mulheres
do Vêneto – é coisa bem sabida – têm tanta força de vida e em geral
são, de corpo e de alma, tão altas e fortes que seus homens pensam duas
vezes antes de provocá-las. Elas reagem, e como! Minha avó arrumava
a casa, cozinhava, lavava e passava, e ainda tinha tempo e disposição
para controlar a vida de várias amigas e dos filhos – que ela chamava,
num tom ao mesmo tempo carinhoso e crítico, de “molengas”. Sem falar
que era ótimo garfo e até a última semana de vida jamais dispensou um
copo de vinho tinto no almoço e outro no jantar. Mas Anna era uma mulher
à antiga, nascida no final do século 19. Casou-se aos 14 anos e teve
16 filhos. Para ela, a vida tinha apenas duas etapas: a infância, até
os 12 ou 13, e a idade adulta, até o último suspiro.
Às vezes fico a imaginar o que minha avó Anna diria se eu comentasse
com ela a entrevista que acabei de ler com Bruce Nadler, um dos médicos
mais famosos de Manhattan. A especialidade que exerce – o “antienvelhecimento”
– fez dele um milionário da medicina norte-americana. Nadler explica
que trabalha, agora, no epicentro de um fenômeno recentíssimo: o surgimento
de uma nova categoria de “macróbios” denominada simplesmente de over
30, “com mais de 30”. É isso aí. Eles têm 30 e poucos anos e já são
velhos ou, pelo menos, se sentem velhos, o que é a mesma coisa. Têm
30 e poucos anos e já estão no fim da carreira, prestes a se aposentar,
e a viver uma crise tremenda que os faz buscar ajuda médica e psicológica
para entender como será o seu futuro daqui para a frente.
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Se correr o bicho pega
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Esses
novos-velhos já constituem legião. Trabalham em metrópoles como Nova
York ou no famoso Silicom Valley, na Califórnia, as capitais de uma
economia toda baseada nas novas tecnologias e na idéia doida de que
não há tempo a perder. Aos 30 e poucos anos você já deve estar podre
de rico, senão, será tarde demais. Mas, se você já estiver podre de
rico, seu problema não será menor: que fazer do resto da sua vida? Entre
as duas categorias, o caminhão de grana de médicos como Bruce Nadler
caminha realmente sobre rodas.
“Há cerca de um ano e meio”, explica Nadler, “chegam ao meu consultório
pacientes cada vez mais jovens, sobretudo homens. Os motivos que os
levam a buscar ajuda na medicina e na psicoterapia estão ligados mais
ao trabalho e muito menos, como acontecia antes, à esfera das relações
sociais.” Nadler conta o caso de um jovem advogado que estava para tornar-se
sócio de um dos maiores escritórios de advocacia da cidade. “Ele me
perguntou o que deveria fazer. Aos 34 anos, tinha medo de ser demasiado
velho para assumir aquela posição.”
Mais do que o temor insensato do advogado, provocou-me arrepios na espinha
o remédio que o doutor Nadler preconizou para o rapaz: uma operação
de cirurgia plástica para fazê-lo sentir-se mais jovem! “Mas não é absolutamente
certo que isso irá funcionar”, ressalvou com audácia o especialista
em “antienvelhecimento”.
Não, não é certo que irá funcionar, porque o problema é muito mais complicado.
Entre as duas grandes revoluções que aconteceram nas duas últimas décadas
– a tecnológica e a informáti- ca –, apenas uns poucos anos se passaram,
mas o abismo que existe entre essas duas eras é imenso. June Raegner,
conhecida caçadora de talentos para grandes escritórios de advocacia
nova-iorquinos, explica que até há pouco os sócios eram aqueles que
encontravam novos clientes e eram, portanto, os responsáveis diretos
pelo sucesso do escritório, enquanto os associados se ocupavam desses
clientes. “Hoje, a situação mudou completamente”, diz June. “São os
associados, em geral com 20 e poucos anos, expertos das novas tecnologias
e sobretudo aqueles que têm contatos com o mundo da Internet, a estarem
na linha de frente na guerra pelo crescimento dos escritórios. São eles
que podem chamar e recorrer aos velhos companheiros de universidade
que se tornaram administradores ou fundadores de companhias Internet
de sucesso. Por isso, a corrida dos escritórios de advocacia mais importantes
e poderosos vai na direção dos jovens recém-formados, os únicos que
conhecem realmente os grã-senhores da rede.”
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