|
Normalidade contestável Quando
li o texto sobre normalidade patológica, de Pierre Weil, veio-me à mente
uma frase dita, muitos anos atrás, por uma professora de filosofia dos
meus tempos de colégio: “Normal é ser anormal; anormal é ser normal.”
Na época, jovem demais, creio não ter alcançado a dimensão exata do
que ela queria dizer com aquilo. Guardei a definição na memória mais
pelo jogo de palavras do que pelo seu sentido propriamente dito. Apenas
agora, refletindo sobre o tema, percebo aonde a professora Heloísa queria,
de fato, chegar.
A verdade
é que muitos dos costumes e comportamentos aceitos como normais pela
sociedade em geral são extremamente prejudiciais ao ser humano. Só há
pouco tempo, fumar, por exemplo, passou a ser considerada uma prática
nociva à saúde. Mesmo assim, o fumante convicto prefere ignorar o parecer
científico, que associa o fumo a determinadas doenças, e considera “anormal”
o colega ao lado, que reclama os seus direitos de não-fumante. O mesmo
acontece em relação à bebida e aos hábitos alimentares. Segundo a drª
Jocelem Mastrodi Salgado, professora-titular da Esalq/USP, pesquisas
na área de nutrição humana mostram que muitas doenças podem ser evitadas
com a ajuda de uma dieta balanceada, rica em verduras, legumes, frutas
e complementada com carne branca. Risque, porém, a carne vermelha do
seu cardápio e, no primeiro almoço com os amigos, quando demonstrar
na prática a sua preferência, é provável que seja silenciosamente rotulado
de anormal ou, no mínimo, de chato. -
Fátima Afonso, redatora-chefe |
||||




