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O
Chamado da Deusa
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| As
organizadoras do encontro: a deusa chama |
Algumas
bruxas sentem o chamado logo que entram na adolescência:
se trancam no quarto e traçam o círculo mágico
para louvá-la. Outras são conduzidas à
Deusa pelo desconforto com as religiões tradicionais.
Muitas topam com um livro e reconhecem uma identificação
imediata. Daí para frente, essas mulheres descobrem
em si o que muitas vezes sentiram ou pressentiram: o Poder
da Bruxa e a Grande Deusa.
Ao
contrário da imagem corrente, uma bruxa não
é uma mulher que faz pacto com o diabo, tem a ponta
do nariz enrugada, é velha e encarquilhada. De fato
elas se vestem preferencialmente de preto, porque essa é
a cor sagrada para a religião, mas a contar pelas representantes
presentes no encontro, muitas são atraentes, jovens
e todas aparentam ter em boa conta sua auto-estima.
Maximira
Carlota, 28, engenheira de telecomunicações
e bruxa há oito anos, conta que recebeu o chamado da
deusa quando topou com o livro O Poder da Bruxa,
de Laurie Cabot, em uma livraria científica, cuja dona
não sabia explicar como aquele livro tinha ido parar
ali. Foi como se até então eu vivesse
como um peixe fora da água e de repente a tivesse achado,
conta ela, que diz sempre ter sentido Deus como sendo uma
grande mãe do mundo.
Maximira
se iniciou sozinha na bruxaria e, além de estudar bastante,
descobriu que sua avó, que se diz cristã e benze
em nome dos santos, é na verdade uma bruxa, tratando
de aprender tudo o que podia com ela.
A
professora de espanhol, conhecida como Tábata na bruxaria,
conta que sentia essa vocação desde pequena.
Quando eu era pequena, minha mãe comprou um móbile
com 24 bruxinhas e colocou em cima do meu berço. Acho
que elas ficaram cochichando no meu ouvido, diverte-se
ela. Hoje, aos 26, ela ainda não se iniciou e não
participa de nenhum coven, o grupo de 13 bruxos que celebram
juntos as datas festivas. Meu caminho é solitário,
explica ela.
Gaia,
ou melhor, Andréa Pizzato, 29, encontrou a bruxaria
depois de muito tempo como kardecista. Desde os três
anos eu via muitas coisas, já era muito intuitiva.
Hoje, taróloga e mestra em magia pela Ordem do Golden
Dawn, ela trabalha como terapeuta na Casa do Conhecimento.
Casada e mãe de duas filhas, Gaia conta que o marido
a apóia e chega a ser uma vassoura, levando-a
para todos os lugares que ela precisa ir. Todo mundo
fica espantado quando sabe que a bruxa é casada e tem
filhos, mas o caminho dela é solitário. É
uma busca interior, explica.
A
Wicca é uma das poucas religiões em que é
possível o caminho individual, ou seja, uma pessoa
pode se dedicar, se auto-iniciar e continuar toda sua vida
celebrando sozinha. É uma religião pessoal.
Portanto você pode fazer basicamente o que você
quiser, mas tem que fazer sentido para você, não
importa o que os outros digam, diz Maximira.
Outra
característica da Wicca é que ela é totalmente
sem hierarquia. Todos os iniciados tornam-se sacerdotes e,
embora alguns apareçam mais publicamente, não
há escala de importância entre eles.
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| Mavesper
coordena o ritual |
Além
de compartilhar o hábito de celebrar os rituais da
lua cheia, das quatro estações do ano, todas
as bruxas possuem um altar com alguns materiais básicos,
onde realizam seus feitiços, poções,
ou se conectam a alguma deusa em especial, invocando seus
poderes.
No
centro do altar não pode faltar o caldeirão,
que representa o ventre da Deusa, o Espírito. O elemento
Terra e a direção norte são representados
pelo pentáculo, a estrela de cinco pontas que fica
dentro de um círculo. O cálice representa o
elemento Água e a direção Oeste. O Fogo
é representado por um bastão, ou uma colher
de pau, e está vinculado à direção
Sul. O Ar é representado por um punhal de duas lâminas,
que depois de consagrado à magia passa a ser chamado
de athame. Segundo Maximira, se esses exatos objetos não
estiverem disponíveis, é possível adotar
outros que a pessoa sinta que simbolizem esses elementos e
direções. Mas não pode faltar uma vela
para a Deusa e outra para o Deus. Para acompanhar esses objetos
básicos, uma bruxa também pode associar os elementos
que precisar ou achar convenientes, como cristais ou pedras
específicas, desde que sejam deixados à parte.
Nenhum dos objetos do altar devem ser utilizados para outra
coisa, a não ser o caldeirão, que pode ser usado
para cozinhar algo que se queira carregar magicamente,
como, por exemplo, uma sopa para alguém que está
doente.
Outro
objeto sempre presente no altar de uma bruxa é a vassoura;
evidentemente não aquela que você usa para varrer
a casa. Em geral a vassoura da bruxaria deve ser a mais rústica
possível. Ela simboliza a limpeza e tem como função
purificar o ambiente.
As
bruxas wiccanianas praticam o que é chamado de magia
natural. Todos os suprimentos usados em seus feitiços
são elementos naturais como pedras, velas e ervas,
e todos os iniciados se submetem a uma única e grande
lei. Faça o que você desejar sem a ninguém
prejudicar. Além de fazer o voto de que não
usará esses conhecimentos para prejudicar ou ir contra
a vontade de uma pessoa, um wiccaniano se submete à
lei do tríplice retorno: tudo o que ele fizer volta
para ele triplicado. Isso vale tanto para o bem, como
para o mal, conta Maximira.
Para
Gaia, que foi de Porto Alegre a Brasília para participar
do evento, a maior magia está no pensamento.
Se pensares que vais conseguir as coisas, tu consegues,
diz. E isso, associado a uma fórmula, a um ritual,
à luz ideal, completa a mágica, completa
Tábata.
Com
a magia, você aprende que é você quem controla
o seu destino, e pode fazer da sua vida o que você quiser
que seja, explica Maximira. A gente usa magia
para melhorar, crescer, atrair coisas boas na nossa vida.
Mas ela alerta: Em magia você nunca pode criar
algo que não esteja lá, assim como você
também nunca pode destruir totalmente algo que existe.
O que você faz é amplificar o que já existe
ou simplesmente mandar embora alguma coisa.
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| Claudinei
Prieto, bruxo e escritor |
Desde
que começou na bruxaria, Maximira sempre conseguiu
realizar tudo o que desejava para si. Hoje ela trabalha exatamente
no que quer, no local em que desejava, e há algum tempo,
logo após fazer um feitiço da prosperidade,
recebeu um aumento salarial. Morando há sete anos com
o namorado, ela diz que com ele não fez feitiço.
Eu batalhei muito para conquistá-lo, mas nunca
com a magia. Pensa bem, eu ia passar o resto da vida sem saber
se ele estava comigo porque gosta de mim ou porque eu fiz
um feitiço para ele vir, diz Maximira. Se
eu colocar na balança a minha vida, os meus sete anos
de iniciada foram certamente os mais felizes, diz ela
sem pestanejar.
Embora
seja uma religião voltada para a mulher, muitos homens,
como Claudiney Prieto, que é o Presidente da Abrawicca,
se encontram nela.
Eu
era do candomblé e nunca concordei com a hierarquia,
com aquela noção de que algumas pessoas são
mais importantes do que as outras. A Wicca é uma religião
libertária, não dogmática, não
tem hierarquia, visa única e exclusivamente colocar
o homem em contato com a natureza, explica. Tive
a sensação de retornar ao lar, e essa é
uma sensação que todas as pessoas sentem.
Ele conta que na Wicca o homem tem papel coadjuvante, mas
é muito importante. A deusa é o princípio
da fertilidade e o deus é o princípio fertilizador.
O
astrólogo Luiz Lessa, casado e pai de uma garota de
13 anos, explica que, justamente pelo fato de ser uma religião
feminista e ligada ao matriarcado, a Wicca lhe atrai. O
patriarcado impõe muitas coisas ao homem. Ele tem que
aceitar e fingir que é corajoso, forte, que não
sente dor, que não tem vontade de pedir socorro para
a mulher. Para ele, outro aspecto positivo da Wicca
é a sua visão mais alegre da vida.
O deus das religiões canônicas é
muito severo. O grande Jeová, pensando bem, é
um deus terrível.
Se
para os homens o encontro com a Wicca tem sabor de libertação,
para as mulheres a transformação é ainda
mais radical. Só saber da existência da
cultura da Deusa já é o suficiente para acordar
as mulheres, explica Mavesper, que pratica a bruxaria
há oito anos.
Um
dos primeiros trabalhos da bruxaria com as mulheres é
conscientizá-las de que existe uma coisa chamada o
poder do ventre. Quando a mulher está desconectada
do próprio ventre, ferida pelo masculino, quando o
divino feminino é desprezado, surgem todas as disfunções:
a submissão, a frigidez, a ninfomania. Todas as mulheres
que vivem no patriarcado são feridas.
Segundo
ela, o segundo passo é estimulá-la a conhecer
seu próprio poder, que vem do ciclo menstrual que é
diretamente conectado os ciclos da lua.
Advogada
e consultora legislativa na Câmara dos Deputados, Mavesper
conta que por sofrer de ovário polissístico
teve que tomar hormônios por muitos anos. Eu tomava
para sangrar e para parar de sangrar. Quando eu conheci a
Wicca e comecei a conectar o meu corpo com as fases da lua,
joguei fora todos os hormônios e passei a menstruar
com a lua.
Perguntada
se agora ela se sente mais poderosa, Mavesper sintetiza: Me
sinto mais poderosa na exata medida que eu tenho mais poder
sobre mim mesma. O poder da Bruxa é o poder da auto-determinação,
porque isso significa uma coisa só: eu agora sou livre.
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