| |
A
Religião da Grande Mãe: O Retorno das Bruxas
Religião
pré-cristã identificada com a natureza, a wicca foi perseguida
a partir da idade Média. Resgatar seu significado real é tarefa
de seus praticantes atuais, entre os quais se acham numerosos
brasileiros.
Romeo Graziano Filho
 |
Orgulho
de ser uma bruxa: a sacerdotisa
Denise de Santi |
A
bruxaria moderna está lutando por seus direitos e pela mudança
da imagem dos seus seguidores, confiante na abertura de consciência
favorecida pelo movimento da Nova Era. Os praticantes da "Arte"
acreditam que já é tempo de começar a eliminar os preconceitos
seculares e as discriminações perpetuadas por ignorância e incompreensão.
Isso se torna mais urgente quando ocorrências criminosas acabam
envolvendo o nome da bruxaria.
"Fizemos contato, via Internet, com uma associação pagã
européia para troca de informações, e buscamos uma postura unificada
das bruxas e bruxos brasileiros para regulamentar a religião
wicca no país", diz a sacerdotisa Denise De Santi. Ela dirige
um coven (grupo de bruxas) em São Paulo, onde se relaciona com
outros do gênero, além de promover palestras e reuniões de estudo
sobre o assunto.
O termo "wicca" deriva de witch (bruxa) e tem a vantagem
de ser mais bem aceito pelo leigo. Mas não são poucas as mulheres
que se orgulham de serem chamadas de bruxas, e Denise é uma
delas. Sua atitude é outra forma de mudar mentalidades, demonstrando
com naturalidade e sem receios a sua verdadeira condição. Os
wiccanianos representam uma religião pré-cristã, pagã e profundamente
identificada com a natureza, que não faz sacrifícios nem tem
a finalidade de disseminar o mal, muito menos acreditar na existência
do demônio ou realizar cultos satânicos. Ao rastrear as origens
do termo "bruxa", se encontra a palavra latina pluscios (plus
= mais; cios = saber), denominando "pessoa que sabe muito".
E se "a verdade sempre teve inimigos", é natural que saber mais
do que o aceito e estabelecido sempre resultou em problemas
à ordem comum, principalmente a religiosa.
Embora a arte da bruxaria seja universal e atemporal,
expressando-se por diversas formas em diferentes culturas, a
visão distorcida que se tem dela é o resultado do seu histórico
de perseguições e hor rores desencadeados durante a idade média.
Logo, a bruxa foi transformada em sinônimo de mulher má e temida
por seus poderes adquiridos do demônio, que pode agir desastrosamente
no destino das pessoas e assumir incríveis disfarces na sua
missão de espalhar o mal pelo mundo. A pesar da incoerência
de se fazer afirmações generalizadas acerca de todos os tipos
de bruxas em atividade, o fato é que nas últimas décadas vem
crescendo a quantidade de covens comprometidos em divulgar a
bruxaria como um caminho espiritual e uma forma de vida particular,
essencialmente dirigida ao desenvolvimento do ser, à luz da
consciência. Esse processo constitui o resgate e a valorização
das práticas e filosofia da bruxaria no contexto da preparação
do terceiro milênio, colaborando para libertá-la da reputação
negativa que a persegue ainda na atualidade.
Enquanto
religião arcaica e telúrica, a tradição wicca é herdeira direta
do culto à Grande Mãe - a Grande Deusa fecunda, amorosa, provedora
e protetora, também representada pela Lua em três das suas fases:
na crescente é a mulher virgem, na cheia é a mãe e na minguante
é a anciã (a sábia). Aqui nos remetemos ao período paleolítico,
época de adoração das deidades da natureza, de nomadismo e igualitarismo.
A doutrina da Grande Mãe compôs uma etapa fundamental na evolução
do homem como indivíduo e grupo social, influenciando a totalidade
do mundo antigo. Porém, quando esse homem entendeu que poderia
acumular propriedades comunitárias cultivadas pelas mulheres,
deu-se o início da ascensão do poder masculino e da sociedade
patriarcal. Daí em diante, o culto à lua passou a ser substituído
pelo culto ao sol, ressaltando o poder masculino encarnado na
imagem de um deus guerreiro, portador da luz e da razão suprema.
Nessa nova estrutura de poder, a sensibilidade, o sentimento,
a imaginação e a intuição - qualidades do universo feminino
- perderam importância para o raciocínio lógico, a técnica e
as leis.
Merece especial atenção a realidade de muitas deusas lunares,
entre elas Diana, Hécate, Lilith ou Kali, que, por pertencerem
ao sistema matriarcal, não têm qualquer associação com algum
deus que a esposou ou expresse a sua parte complementar. A Grande
Mãe ancestral, portanto, reina soberana e exerce sua própria
vontade com total independência. Os covens que trabalham exclusivamente
com o aspecto da Deusa estão em sintonia com essa tradição,
e podem recusar a admissão de seguidores homens. Há quem justifique
tal postura dizendo que um homem consegue no máximo ser um bruxo,
mas nunca uma bruxa, inclusiva porque ele não tem a experiência
de estar num corpo de mulher.
Não é o caso do coven da minha entrevistada, onde a Deusa
e o Deus são cultuados com a mesma importância a associados
aos ciclos da natureza. Vamos então lembrar o homem da idade
do matriarcado, que ignorava a sua participação na fertilização
da mulher (atribuída à Lua) e sentia a presença do sagrado em
todas as coisas. Em sua religiosidade alimentada pelo mundo
natural, esse homem arcaico, ao identificar seu Deus, colocou-lhe
aquilo que, na sua condição de caçador, lhe pareceu os símbolos
de poder mais significativos: os chifres, pois são instrumentos
de defesa e luta na vida animal. O Deus chifrudo da bruxaria
(o Galhudo mencionado no romance As Brumas de Avalon), que é
uma deidade fálica da fertilidade e da criatividade intelectual,
é a contraparte masculina da Deusa, e com ela representa o equilíbrio
dos opostos complementares, reproduzido na alternância dia e
noite, luz e treva, yin e yang, macho e fêmea.
próxima>>
|
| |
 |
|
|

Encantamentos
Bruxas,
anjos, elementais, xamãs, druídas, alquimistas:
as criaturas e realidades das outras dimensões

|
|
Links
relacionados
|
|

|
|
Na Planeta na Web:
Uma
Revoada de Vassouras. O 2º Encontro Brasileiro
de Bruxas em Brasília.
Incomodada
ficava a sua avó - o patriarcado, a grande
Deusa e a menstruação.
No
site da Abrawicca, informações
sobre eventos, cursos, dicas de livros e a maior lista
de e-mails sobre wicca no Brasil.
Tudo
sobre paganismo. Em inglês.
The
Wiccan and Pagan Times. Em inglês.
Templo
da Deusa, de Mavesper Ceridwen, organizadora do
2º BBB. Informações sobre as atividades
celebradas por seu grupo em Brasília.
Além de informações sobre a religião,
a página de Claudiney Prieto, presidente
da Abrawicca e escritor, traz receitas de feitiços,
sortilégios e talismãs.
|
|

|
|
|