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Médium nota dez
Com uma capacidade mediúnica altamente aflorada, Chico Xavier
vivia entre dois mundos: o dos homens e o dos espíritos. As informações transmitidas por seus guias espirituais trouxeram, pela primeira vez,
imagens palpáveis da vida em outras dimensões.

Vicente Greco

Todos somos médiuns? Dizem os espíritas que sim. Mas, enquanto para alguns essa característica se manifesta de forma discreta, quase imperceptível, para outros ela vem escancarada, à mostra desde tenra idade – e não cuidar ou fazer mau uso dela pode reservar desagradáveis surpresas ao seu possuidor ao longo da vida. Por isso mesmo, dizem ainda os espíritas, a mediunidade não deve ser encarada especificamente como uma benesse e motivo de orgulho, mas como uma dura prova que desafia seu detentor a crescer interiormente.

No balanço de sua vida, não há nenhuma dúvida de que Chico Xavier superou com louvor esse desafio. Para vencê-lo, ele nunca deixou de seguir as diretrizes estabelecidas por seu mentor, Emmanuel: disciplina e obediência às palavras de Jesus e Allan Kardec. A consistência e qualidade do trabalho desenvolvido a partir daí granjearam-lhe o respeito e a admiração não apenas dos adeptos do espiritismo, mas também de seguidores de outros credos e até mesmo de ateus.

Embora muitas pessoas liguem de imediato Chico à psicografia, seu espectro de atividades mediúnicas era bem mais amplo. As visões e vozes, por exemplo, já estavam presentes desde a infância. Chico também participou, no início de sua carreira mediúnica, de sessões de efeitos físicos, hoje quase inexistentes. Como essa atividade desgasta muito o médium, Emmanuel só permitiu que seu pupilo – cuja saúde nunca foi boa – participasse desse tipo de trabalho durante alguns anos. Mas o que pôde ser registrado até então já era muito chamativo.

Prensa Três
Emmanuel: responsabilidade pelas atividades de Chico Xavier.

Em algumas sessões, por exemplo, Chico perfumou a água trazida pelos assistentes ou o ar do recinto. Numa ocasião, pétalas de rosa caíram do teto enquanto ele rezava perto do leito de uma paciente terminal. Nas aparições de um espírito feminino chamado Scheilla, o cheiro de éter tomava conta do ambiente. Ela se materializou várias vezes e chegou a mostrar aos espectadores um aparelho usado pelos espíritos para examinar o interior do corpo dos pacientes. Chico foi pesado em algumas dessas sessões e descobriu-se que ele perdia de três a quatro quilos em cada uma delas.

O médium também atuou em curas. O espírito que atendia por seu intermédio era ninguém menos do que Bezerra de Menezes, médico cearense que foi um dos mais importantes nomes do espiritismo brasileiro. Alopata quando de sua passagem pela Terra, Bezerra só prescrevia tratamentos homeopáticos por meio de Chico. Os visitantes apenas escreviam seu nome e endereço numa ficha; no final da sessão, vinham as receitas passadas pelo médico, com indicações dos remédios homeopáticos a tomar.

Mas nenhum desses feitos se compara aos obtidos graças à psicografia – uma tarefa para a qual ele foi preparado desde a infância. O médium contou que, na escola, sentia uma vigorosa mão conduzindo a sua escrita. Em outras ocasiões, ele descobria o que iria escrever vendo o texto como numa tela mental ou ouvindo o ditado de um espírito.

De 1928 a 1931, já trabalhando no centro espírita de Pedro Leopoldo, Chico psicografou centenas de mensagens, mas seus orientadores espirituais lhe ordenaram posteriormente que as destruísse, pois, de acordo com eles, tratava-se apenas de esboços e exercícios do que estava por vir. Foi no final dessa fase que Emmanuel se apresentou ao médium e anunciou que assumiria a responsabilidade por suas atividades dali para a frente.

Logo no primeiro ano da associação, Chico lançou Parnaso do Além-Túmulo, uma coletânea de 56 poemas assinados por 14 nomes famosos da literatura brasileira, como Olavo Bilac, Artur de Azevedo e Alphonsus Guimarães. (Com o passar do tempo, essa obra ganhou mais 203 poesias e, em sua versão final, tinha 56 autores espirituais.) Na época do lançamento, houve muitas discussões sobre o estilo dos poemas, e alguns críticos atacaram violentamente a queda de qualidade de alguns autores após sua morte. Mas era visível que todo o livro estava bem acima da capacidade de um rapaz que pouco conhecia de literatura e só concluíra o ensino fundamental.

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