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Crônica
Manso, como um cordeiro de Deus

Por Reinaldo Pirani Neto
Reinaldo Pirani Neto é espírita e estudioso da vida e obra de Chico Xavier.

Lançou-se à vida pequeno e enigmático como todos os seres humanos.

Encarnou, diria ele, num local e hora, numa data qualquer, claramente definida e bem explicitada em inúmeras biografias.

Moldou seu corpo à sua imagem e semelhança, mas diria, com fervor espírita, moldou seu corpo segundo as necessidades de seu espírito.

De pai e mãe, como todos os seres da era pré-clonagem, principalmente a mãe ocupa em sua vida pouco espaço no tempo, mas extensa reverência em sua lembrança. Era por ele, profunda e saudosamente amada.

De família católica apostólica romana. É claro, então, foi batizado. Por padrinho e madrinha, principalmente madrinha, já que esta era por ele profundamente respeitada.

Cresceu, conheceu as alegrias e tristezas da vida. O encontro de seres a serem amados, a perda de entes queridos.

Viveu longamente, 92 anos, resistiu bravamente, trabalhou incansavelmente até defrontar-se, como todos os seres vivos, com o inevitável encontro da morte orgânica.

Morte, este mesmo personagem cujo indescritível poder sobre a vida orgânica o lançou às manchetes e capas de publicações ao redor do mundo.

Primeiro a morte visitou, entre tantas guerras do século 20, a humanidade a seu redor. E ele inabalavelmente afirmava: “é apenas uma passagem em nossas vidas.” Até que, por fim, mansamente esta veio vê-lo, após suas orações, ali, sozinho, no quarto ao lado, trazendo um convite irrecusável, como só ela pode fazer.

Migrou desta vida, partiu para o mundo dos espíritos, o mesmo mundo do qual era um dos mais notórios e afamados porta-vozes, rumo à espiritualidade com a qual lidava diariamente há mais de 80 anos.

Por quase a totalidade de sua vida adulta, transitou por entre esses dois mundos com a naturalidade de quem visita uma casa vizinha, bastava abrir a porta e entrar.

Afirmou sempre bater antes e sempre respeitar a casa alheia; a ser, primeiro, convidado, como asseguram os bons modos e a educação mineira.

Dedicou-se, logo no princípio da adolescência, a esclarecer a respeito do mundo espiritual e comandado a fazê-lo, por ser escriba talentoso e obediente, descrevia o que via e ouvia, como médium, incorporando centenas de repórteres do Além. E o fez fiel e ininterruptamente ao longo de mais de 400 livros e milhares de mensagens.

Por ironia, cuidadosamente planejada, segundo seus mentores, começou ainda jovem a cerrar seus olhos para a visão física, até quase a cegueira total. Remédio doloroso ao corpo, mas poderoso auxiliar na restauração do perispírito sobrecarregado de lembranças enfermiças, segundo dizia e repetia.

Assim era Chico Xavier, um ser humano que aos poucos foi ganhando incontrolável notoriedade pessoal, até se tornar famoso e reconhecido.

Por afirmar o que outros duvidam, teve sua vida dissecada.

Por afirmar existir vida eterna, foi minuciosamente analisado.

E por sua crença, tal qual milhões de seres ao longo da história da humanidade, foi continuamente julgado.

Como todo ser humano, era naturalmente complexo, cheio de receios, e afirmava com simplicidade não só ver e ouvir, mas também ter a missão de transmitir carinhosa e humildemente a palavra de seus invisíveis interlocutores.

Por maiores que fossem as dúvidas à sua volta, sorria e reafirmava o que já havia minuciosamente intermediado em seus escritos.

O tempo foi passando, novas gerações, e outras mais, e seus escritos vão se espalhando mundo afora, em diversas línguas, lidos, questionados, debatidos, muitas vezes abandonados nas prateleiras.

Discípulo e seguidor de Alan Kardec, incorporou mansamente o seu apostolado. Aquilo que tão extensamente Kardec publicara em meados do século 19, Francisco Cândido Xavier aplicou em sua vida diária. Juntou a teoria à prática.

Ao estudar o Evangelho Segundo o Espiritismo, e sob a orientação de Emmanuel, seu mentor espiritual, encontrou seu maior amor, Jesus Cristo, e a ele dedicou fielmente seus dias e atividades neste planeta, tão integralmente que viveu celibatário e com hábitos franciscanos.

Não cobrou nem recebeu dinheiro ou favores por seu trabalho, embora vários tenham cobrado em seu nome.

Falou de Deus como algo divino, conhecido, mas desejoso de ser reencontrado. No máximo, podemos dizer que o procurou em cada gesto da vida.

Prudente, não negociou com sua fama e seu nome. Antes de tudo, ao que recebeu aplicou a máxima de Kardec: “Dai de graça o que de graça recebeste.”

Não fez da idéia de Deus um servidor ou o responsável por pagar suas dívidas e realizar seus sonhos.

Recebia e distribuía alimentos com a mesma naturalidade com que sorria.

Fez-se respeitado, querido, muito amado.

Enfrentou humildemente, e sob severo tratamento médico, seus males físicos, especialmente nos últimos anos de sua vida, e ensinou aos que quiseram e puderam entendê-lo como manter a dignidade, esta tão necessária e desrespeitada dignidade humana.

Com o passar do tempo, de louco, passou a ser lido, ouvido, comentado.

Quando se deu conta, era referência e, muito a contragosto, até reverenciado.

Quem nunca ouviu falar em espiritismo, lá em Uberaba, ou em mensagem psicografada do Chico Xavier?

Afinal, se existe vida eterna, por que esperar? E por que se atormentar de saudade de filhos, pais, esposos e amigos?

Por que não arriscar uma mensagem através do Chico Xavier?

Milhares de pessoas procuraram pelo Chico, em romaria, cheios de dúvidas e fé. Acima de tudo, cheios de saudade.

A maioria afirma ter encontrado uma resposta, um consolo, uma esperança. Alguns, mais afortunados, afirmam ter encontrado sua verdadeira fé.

Cidadão honorário País afora, foi motivo de reportagens e programas especiais, recebeu a visita e a admiração de personagens famosos e eminentes, mas seu apostolado reafirmou-se cada vez que transformava lágrimas de desespero e tristeza em lágrimas de esperança e sorrisos de certeza, não importava quão anônimo fosse o visitante.

Transmigrou desta vida e provavelmente será novamente relembrado em programações especiais, até, como qualquer outra notícia, misturar-se com todas as outras informações.

Quem sabe, alguns irão procurar por seus livros, outros reencontrá-los.

Este é o livre-arbítrio de todos nós.

Fica a certeza para os que acreditam, permanece a dúvida naqueles que desacreditam.

Mas, a verdade quase inquestionável é que Chico Xavier e o espiritismo kardecista, ao lado de outras crenças espiritualistas, incorporaram-se aos costumes brasileiros.

Imprimiram a idéia de reencarnação e sobrevivência da alma, além dos tradicionais conceitos orientais, africanos e cristãos. Fala-se de vidas passadas com grande naturalidade e aceitação.

Transformaram em idéia familiar o conceito de psicografia e psicofonia, conceitos que moldaram gerações de pessoas, cuja esperança maior é a da vida eterna.

Parabéns, Chico, por ter tocado de maneira tão positiva a vida de todos nós e, para não perder o costume, se houver possibilidade mande, breve, uma notícia boa...

 

 

       


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