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Teosofia e Arte
A Rota Abstrata para o espírito
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Kandinsky |
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| A
Dama em Moscou: influência das idéias sobre formas-pensamento. |
Outro
destaque na pintura da primeira metade do século passado
a ter seu nome associado à teosofia foi o russo Wassily
Kandinsky. Nascido em Moscou em 1866, ele vinha de família
abastada e desfrutou de educação esmerada, à
qual não faltaram várias viagens. Kandinsky
manifestou cedo pendores para a pintura e a música,
mas encaminhou-se para uma carreira acadêmica e legal
até 1895, quando, perto dos 30 anos de idade, largou
a profissão e viajou para Munique, onde entrou em contato
com o impressionismo e a art nouveau.
No início do século passado, o artista mudou-se
para Paris. Na capital francesa, envolveu-se com a literatura
teosófica, consumindo avidamente obras de Blavatsky,
Steiner, Charles Leadbeater e Annie Besant. Essa influência
no abstracionismo adotado por Kandinsky está exposta
no livro Do Espiritual na Arte, de 1910. Entre as idéias
apresentadas sobressai a da obra de arte como resultante da
moldagem das vibrações do pensamento do artista,
as quais são transmitidas pela obra para o espectador.
Professor da escola alemã Bauhaus entre 1922 e 1933,
Kandinsky morreu em 1944.
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Kandinsky |
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| Mancha
Negra I: tela para iniciados em mistérios espirituais.
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As
representações de formas-pensamento publicadas
por Besant e Leadbeater encantaram o artista russo e seus
ecos podem ser encontrados em numerosas telas. Dois exemplos
disso são A Dama em Moscou, de 1912, e a imediatamente
posterior Mancha Negra I. A primeira tela mescla uma cena
no plano concreto na qual uma mulher aparece ladeada
por uma mesinha sobre a qual está deitado um cão
com um painel composto por pensamentos ou sentimentos,
da mulher ou de outra pessoa. A figura solar no alto parece
ameaçada pela mancha escura, que, por seu lado, é
contrabalançada pelo círculo cor-de-rosa
um símbolo de amor e boa vontade, na codificação
estabelecida por Leadbeater.
Mancha Negra I seria, segundo alguns especialistas, uma versão
de A Dama em Moscou para iniciados nos mistérios espirituais.
As referências à mulher e à carruagem
que passa por trás dela na primeira tela são
muito mais abstratas; por outro lado, a mancha escura reaparece
no mesmo canto direito superior, encimado por outra fonte
de luz.
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Museu Stedelijk, Amsterdã |
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| Pintura
suprematista de Malevitch: reflexo dos escritos de
Ouspensky. |
Outra
obra de Kandinsky em que é visível a influência
teosófica é Tensão em Vermelho, de 1926.
Nela o artista abre espaço para o conceito ocultista
de sinestesia, segundo o qual a superposição
de sentidos permite ao espectador tatear sons
ou saborear cores. O vermelho predominante na
tela seria, assim, uma forma de transmitir a sensação
física de tensão ao observador.
Menos
famoso que seu conterrâneo Kandinsky, Kazimir Malevitch,
nascido em 1878, também foi um dos expoentes do abstracionismo
na pintura. A fonte dos conhecimentos ocultos de Malevitch
não era tanto a teosofia de Blavatsky e Annie Besant;
o pintor interessava-se mais pela ioga e pelos escritos de
P. D. Ouspensky, famoso como discípulo do célebre
ocultista Georges I. Gurdjieff, mas que também nutrira
antes interesse pela teosofia.
Seduzido pela idéia de que a humanidade chegaria um
dia a entender-se por uma linguagem única, Malevitch
tentou transpor para as telas essa evolução,
representando-a como o movimento de figuras bidimensionais
ou tridimensionais rumo a uma quarta dimensão mística.
À escola que desenvolveu, ele deu o nome de suprematismo
um veículo para o ser humano alcançar
a consciência cósmica. Várias de suas
telas, elaboradas após 1915, exemplificam essa tentativa.
Malevitch morreu em 1935, época em que o empobrecedor
realismo socialista já dificultava propostas artísticas
como a dele.
Nascido na Tchecoslováquia em 1871, Frank Kupka recebeu
sua primeira influência ocultista de um seleiro do qual
era aprendiz. Rumando para Viena, ele matriculou-se numa escola
de arte e pagou seu primeiro semestre de estudos com o dinheiro
que arrecadara como médium. O ambiente na capital austríaca
favoreceu sua avidez por idéias espiritualistas, que
foram lapidadas por um colega, Karl Diefenbach. A fim de desenvolver
os poderes espirituais de Kupka, Diefenbach recomendou-lhe
que praticasse, despido, exercícios diários
ao ar livre, adotasse uma dieta vegetariana, meditasse e pintasse
com acompanhamento musical. Dessas sugestões, a nudez
era sem dúvida a mais complicada, e certa vez levou
Kupka à prisão em Munique, por atentado ao pudor.
Mas isso não o impediu de seguir as recomendações
até sua morte, em 1957.
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Kupka, O Começo da Vida |
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| Frank
Kupka usou o lótus como representação do despertar
espiritual. |
A
pintura de Kupka progrediu para o abstracionismo a partir
do fim da primeira década do século 20, mas
nunca deixou de apresentar um forte conteúdo ocultista.
Ainda de sua fase figurativa, O Caminho do Silêncio
(cerca de 1900), por exemplo, é marcado por duas fileiras
de esfinges símbolo teosófico tanto da
matéria inferior quanto do desejo de um mundo espiritual
superior, que as estátuas contemplam. O Começo
da Vida (1909) recorre ao lótus como representação
do despertar espiritual ou nascimento cósmico
uma idéia em consonância com o que pensavam os
antigos egípcios, hindus e outros povos do Oriente.
Com suas raízes na água e flor vicejando ao
sol, o lótus simboliza ainda a dualidade da água
e do fogo.
Posteriormente, o abstracionismo se manifestaria de forma
mais progressiva na pintura do tcheco, incentivando, por exemplo,
o recurso ao dualismo vertical-horizontal. Ele está
presente em Teclas de Piano Lago (1909), no qual as
teclas tocadas, representadas na vertical, parecem impulsionar
o observador/ouvinte dessa melodia à ascensão
espiritual, das águas escuras ao brilho do céu.
Outra idéia recorrente é o ovo primordial, tema
central de Oval Animado (Nascimento), de 1912. Foi dessa época
também a tentativa de Kupka de criar uma forma de pintar
que, tal como a busca de Kandinsky pela sinestesia nas telas,
trouxesse ao observador sensações além
da simples visão. Denominada orfismo pelo tcheco, ela
tencionava recriar as emoções produzidas pelos
músicos com o som algo entre a visão
e a audição. Talvez o objetivo não
tenha sido atingido em sua plenitude, mas não há
dúvidas do sopro libertador que Kupka e seus colegas
pioneiros do abstracionismo trouxeram para a arte do século
20.
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