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Teosofia e Arte
A Rota Abstrata para o espírito
Vista como resposta ao crescente materialismo da ciência no fim do século 19 e início do 20, a teosofia deixou marcas importantes em vários campos do saber humano. Entre eles está a arte abstrata, cujos pioneiros, como Kandinsky e Mondrian, tiveram contato intenso com as idéias de Helena Blavatsky.

Por Júlio César Borges

Mondrian, Planos de Cor em Oval/Museu de Arte Moderna de Nova York

Nascida em 1875, com a fundação da Sociedade Teosófica em Nova York, a teosofia foi uma prodigiosa fonte difusora de teorias ocultistas do final do século 19 e início do século passado. Mesmo apresentando um arcabouço de idéias por vezes confuso, a russa Helena Blavatsky e seus seguidores e sucessores, como Annie Besant e Charles Leadbeater, representaram inesperadamente uma forte reação ao crescente materialismo da ciência, sacudida na época pelo darwinismo e sua “ameaçadora” perspectiva de que a humanidade descendia de macacos.

Flertando com as religiões orientais e endossando a natureza espiritual do homem, a teosofia atraiu a atenção de muita gente importante da época, proveniente dos mais variados meios profissionais. Entre eles, havia militares, advogados, jornalistas, educadores e até mesmo cientistas. Mas, provavelmente, a influência mais perene da nova trilha de conhecimento se deu na arte. Na caminhada da pintura para a representação de formas abstratas, por exemplo, o sistema de pensamento elaborado por Helena Blavatsky estava relacionado a pelo menos quatro artistas famosos da primeira metade do século 20.

Nascido em 1872, o holandês Piet Mondrian foi o pioneiro da arte abstrata mais envolvido com a teosofia. Ele começou a estudar as obras de Blavatsky no início da década de 1900, e em 1909 entrou para a Sociedade Teosófica. Mondrian também comprou um livro de Rudolf Steiner (teosofista que viria a fundar a antroposofia em 1913), e guardou-o até a morte, repleto de anotações.

A influência teosófica já era visível em telas de 1908, como Devoção, na qual uma jovem medita sobre uma flor, ou O Bosque Perto de Oele, em que a noção teosófica de dualidade é manifestada pela contraposição entre símbolos masculinos (árvores) e femininos (planos horizontais). Na ainda figurativa O Crisântemo Agonizante, Mondrian tentava mostrar a aura desprendendo-se da planta no momento de sua morte.

Mondrian
A Evolução, de Mondrian, representa a transformação humana a partir do simbolismo teosófico.

O artista já recorria a formas geométricas quando se mudou para Paris em 1910, desejoso de encontrar uma forma visual para expressar os conceitos transcendentes com que entrara em contato por meio da teosofia. São dessa época as telas mais impregnadas do simbolismo teosófico, como o belo tríptico Evolução (1910-11), que representa a evolução humana a partir do corpo terreno (esquerda), passando pelo corpo astral (direita) até chegar à visão divina (centro). Flores, triângulos e círculos têm significados ocultos, e a estrela composta por triângulos unidos, visível no painel da direita, é um símbolo presente no centro do emblema da Sociedade Teosófica.

Em 1914, Mondrian voltou para Amsterdã, onde três anos mais tarde criaria, com seu compatriota, o pintor Theo van Doesburg, a revista De Stijl, publicação que serviria para a veiculação de sua teoria sobre as novas formas artísticas por ele denominadas neoplasticismo. Nas telas dessa fase notava-se uma passagem cada vez mais intensa para as formas geométricas, mas o conhecedor da teosofia poderia reconhecer imagens referentes a ela em Planos de Cor em Oval, nos quais linhas verticais, masculinas, harmonizam-se com outras horizontais, femininas, dentro de um ovo – símbolo não só na teosofia, mas também em outras religiões, da criação e da unidade. De acordo com Mondrian, os seres humanos podem ambicionar uma unidade que equilibre forças opostas como masculino e feminino, imobilidade e dinamismo, espírito e matéria.

Mondrian
Composição em Diamante com Linhas Cinzentas: o cruzamento de linhas cria triângulos e cruzes.

Composição em Diamante com Linhas Cinzentas (1918) traz um Mondrian bem abstrato, num trabalho em que o cruzamento de linhas cria triângulos e cruzes. Para os teosofistas, os triângulos – que ocupam lugar de destaque no selo da Sociedade Teosófica – simbolizam não apenas os princí- pios da unidade desdobrada no espírito e na matéria, mas também as trindades encontradas nas principais religiões da Terra e várias outras concepções ternárias. Os triângulos são eqüiláteros porque, em todas as tríades representadas, ninguém é maior ou menor do que o outro.

Inquieto, Mondrian mudou-se ainda outras três vezes – para Paris, Londres e finalmente Nova York, onde morreu em 1944. Os especialistas consideram que as obras de Mondrian nos Estados Unidos já apresentavam um relaxamento em relação aos seus princípios pictóricos anteriores, em troca da valorização de pequenas formas quadrangulares. Sua última obra completa e uma das mais famosas, Broadway Boogie Woogie (1940), busca flagrar os ritmos da frenética Manhattan recorrendo mais uma vez a traços verticais e horizontais, expressos nas cores primárias (amarelo, vermelho e azul) e no preto. Essa expressão cabal do neoplasticismo, porém, já parecia aos teosofistas muito distante das suas conceituações.

 

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