| |
Libertação Interior
Por que perdoar - continuação
 |
| Ao
observar duas pessoas discutindo, não temos idéia
do que está em jogo para cada uma delas. |
É
importante entender que, quando nos relacionamos seja
com o marido, a mulher, os filhos, os vizinhos ou os amigos
, muitas coisas ocorrem em nosso interior e nem sempre
o motivo aparente de uma briga tem um papel tão fundamental.
Quando muito, ele é o estopim de uma situação
mais ampla. Em geral, transmitimos ao outro a boa imagem que
temos de nós mesmos, e esperamos que ele não
só a reconheça como também a aprove.
Assim, uma discussão acaba representando muito mais
do que uma luta de poder em que ambos buscam sobrepor sua
razão à do outro. O que está em jogo,
na verdade, é a nossa identidade, sensação
de existência própria, cujo alimento fundamental
é o reconhecimento alheio. Se o outro aprova, sentimos-nos
vivos e confiantes, mas, se ocorrer o inverso, podemos cair
em mortal depressão. É, portanto, uma luta de
vida ou morte.
Em
contrapartida, também esperamos que o outro tenha determinadas
atitudes e comportamentos em relação a nós.
E, quando isso não acontece, sobrevém inevitável
decepção, pois percebemos que aquela pessoa
não nos pertence e que não podemos controlá-la.
Sentimos isso como traição, uma vez que, geralmente,
mesmo sem perceber, o outro alimenta em nós a imagem
que fazemos dele. Via de regra, o resultado disso é
a mágoa, provocada pela dor da desilusão e pela
quebra da confiança que tínhamos nele. É
essa mágoa que pode se transformar no desejo de também
magoar, na vingança, na necessidade de fazer justiça
com as próprias mãos. Na verdade, queremos que
o outro sinta a mesma dor, como se isso pudesse reparar o
dano causado.
O que ocorre internamente, então, por ocasião
de um crime? Ele priva a vítima de sua relação
com um objeto ao qual atribuímos determinados valores,
no caso de um roubo, ou de um ente querido, no caso de um
homicídio. Na verdade, o homicídio destrói
todo um potencial de relações afetivas com a
pessoa assassinada. Além disso, ele traz para muito
próximo de nós a morte e, principalmente, a
possibilidade de que isso também possa nos acontecer,
ferindo o direito à única coisa que temos de
realmente nossa a própria existência.
Ao exterminar alguém que elegemos para viver conosco,
o criminoso fragmenta parte da história que construímos.
Ao nos arrancar a ilusão de permanência que temos
das coisas, destrói nossa estabilidade. A violência
não é só física, ela é
simbólica também.
Os casos de violência ferem não somente uma pessoa,
mas toda uma sociedade, uma vez que atingem profundamente
valores sociais básicos. Cabe então à
Justiça, devidamente togada, julgar o crime, tentando
restabelecer a condição humana perdida a ambas
as partes: criminoso e vítima. Ela vai avaliar os prejuízos
causados à vítima e, através de uma sentença,
possibilitar alguma reparação. Por outro lado,
permitirá a retratação do criminoso,
que precisa aderir novamente aos valores dirigentes da conduta
social.
Mesmo
que a justiça seja feita, havendo o reconhecimento
coletivo da dor da vítima, podem restar ainda a ira
e o desejo de vingança. Tais sentimentos atenuam nossa
dor por descarregarem a tensão, mas, na verdade, acabam
nos enclausurando na mágoa, que, a partir daí,
servirá de base para os pensamentos que dirigirão
nosso comportamento para novas relações.
<<anterior
|
próxima>>
|
|
|
O
que há
para se ler
|
|
Por Que Perdoar, Johann Christoph
Arnold, Editora José Olympio.
Perdão Modo de Usar,
Jacques Laffitt, Edições Loyola.
|
|
|