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Domando o Instinto
As Faces da Agressividade - continuação
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Cristiano Laruffa |
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| No
homem, a agressividade é uma das funções do instinto
de preservação. |
Sobre
essa pergunta armou-se, há duas ou três décadas,
uma colossal polêmica científica que se arrasta
até hoje. Ela não diz respeito à violência
todos a condenam como patologia pura. O que se discute
é a natureza da agressividade. De um lado, há
um grupo de humanistas seguidores do pensamento do biólogo
e antropólogo inglês Ashley Montagu, que afirma
não ser a agressividade um componente inato no ser
humano, mas apenas uma anomalia comportamental produzida pelo
condicionamento cultural. Do outro lado, há um grupo
de etólogos (cientistas do comportamento animal), herdeiro
das idéias de um Prêmio Nobel, o austríaco
Konrad Lorenz, que afirma o contrário: a agressividade
não apenas é inata em todos nós, mas
é inclusive necessária para a nossa sobrevivência
e para a nossa realização pessoal na sociedade
e no mundo.
Cada um desses grupos apresenta montanhas de argumentos
para justificar suas posições. Mas os etologistas
da linha de Lorenz parecem levar a melhor. A maior parte das
vertentes modernas da psicologia pende claramente para o lado
deles.
Nada
de bom se pode esperar da agressividade é
opinião quase geral. Mas muitos etólogos e psicólogos
discordam disso: tudo de bom se pode esperar da agressividade,
desde que ela seja canalizada de maneira justa.
O êxito na vida profissional, familiar, afetiva ou
sexual depende, em grande parte, da capacidade de orientar
os ímpetos agressivos de forma criativa, e nunca destrutiva.
Um soco na mesa, dado na hora e no lugar certos, às
vezes é necessário, e é sempre menos
prejudicial do que um soco na cara de um interlocutor irritante.
Da mesma forma, buscar alívio numa discoteca, numa
partida de tênis ou de futebol ou numa corrida a pé
levará a resultados bem mais saudáveis do que
pressionar o acelerador de um carro em movimento. Melhor ainda:
quantas pessoas não descarregam sua raiva lançando-se
obstinadamente ao trabalho? O rendimento, nessas circunstâncias,
poderá não ser dos mais altos e a energia desperdiçada
poderá ser muito maior, mas essa forma de compensação
certamente superará em qualidade qualquer outro tipo
de agressão direta.
O que não se deve fazer em absoluto é
reprimir a agressividade. Ela é instintiva. Sufocá-la
traz conseqüências tão desastrosas quanto
as observadas nas pessoas que tentam eliminar o instinto sexual
de suas vidas. A atitude correta, nesses casos, é a
de buscar meios de canalizar essa energia para fins construtivos.
Como fazem os sacerdotes com o voto de castidade, quando direcionam
o seu potencial afetivo que poderia ser dirigido a
uma pessoa ou à própria família
para os objetivos espirituais e humanitários da religião
a que pertencem.
A
moderna psicologia diz que devemos à agressividade
sabiamente conduzida as sinfonias de Beethoven, os dramas
de Shakespeare, as pinturas de Michelangelo todos eles
bons exemplos de personalidades agressivas. Para Lorenz, tanto
nos humanos quanto nos animais, a própria comunicação
deriva em geral desse instinto. Trata-se de uma opinião
corajosa e de longo alcance, pois sem comunicação
não haveria família, nem sociedade, nem cultura.
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Michelangelo, Conversione di Saulo (detalhe), Capela Paulina,
Vaticano |
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| Pintura
de Michelangelo: personalidade agressiva encaminhada
para a arte. |
Lorenz
aprendeu com os bichos mais especificamente com
seus gansos cinzentos sobre como a agressividade pode
se transformar numa fonte de benefícios para a comunidade.
Convivendo com os animais desde a sua infância, Lorenz
procurou neles as explicações para muitos comportamentos
humanos. Foi provavelmente influenciado por um velho provérbio
chinês: Todo animal está contido no homem,
mas nem todo homem está contido no animal.
Os gansos forneceram a Lorenz elementos importantes
de aprendizado. O estridente grasnar dessas aves era interpretado
apenas como um desafio para a luta. Lorenz descobriu que ele
é também um convite ao amor. O instinto de sobrevivência
da espécie a levou, nos momentos certos, a sublimar
a sua agressividade, e seu grito de guerra transformou-se
num ruidoso prelúdio de procriação. A
misteriosa sabedoria da natureza ensinou aos gansos que mais
vale respeitar seus semelhantes do que tentar eliminá-los.
Na linguagem de Lorenz, os gansos transformaram sua
agressividade, através dos tempos, num ritual.
Ritualizar a agressividade é o que fazemos,
por exemplo, quando nos empenhamos numa atividade esportiva
sadia. Os jogadores são adversários, não
necessariamente inimigos. O espírito cavalheiresco
dominante nessas ocasiões é altamente benéfico
e a agressividade se torna um espírito de entusiasmada
competição.
Para a etologia, a agressividade é uma forma
de autoproteção das espécies. Assim,
deveria se voltar sempre contra qualquer inimigo que viesse
ameaçar a sobrevivência dessa espécie,
e nunca contra seus próprios membros. Mas, tanto entre
os animais como entre os humanos, os recursos naturais (espaço
e comida) são limitados. Como distribuí-los
sem gerar mútuos extermínios?
Os animais resolvem o problema de modo relativamente
simples: cada um determina o seu território
e qualquer ameaça de invasão por outro, da mesma
espécie ou de espécie diferente, encontra uma
resposta agressiva. A agressividade do dono do terreiro,
no entanto, dura apenas enquanto o inimigo está próximo
e diminui ou desaparece quando ele se afasta. Se o intruso
for da mesma espécie e houver luta, dificilmente ocorrerá
a morte de um dos contendores. Os animais possuem um mecanismo
natural, inibidor da agressividade, que entra em ação
quando ela se torna uma ameaça à espécie.
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