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Domando o Instinto
As Faces da Agressividade
A agressividade é um instinto inato. Saber canalizá-la para
objetivos construtivos é uma das chaves do sucesso pessoal;
reprimi-la significa escondê-la na penumbra do inconsciente.
Quando isso ocorre, a energia agressiva pode vir à tona nos momentos
mais impensados e nas vestes pouco recomendáveis dos atos violentos.

Por Luis Pellegrini

Luc Delamaye/Sipa-Press

Um dia de inferno. Pela manhã, indo para o trabalho de carro, parei num sinal vermelho na Rua Rego Freitas, no centro de São Paulo. Logo senti a ponta de um ferro encostar-se à minha têmpora esquerda, segurado por uma mão pequena a ponto de passar pelos poucos centímetros da fresta na minha janela. Ao mesmo tempo, uma voz quase infantil disse com impressionante clareza: “Ô, tio, me dá uma nota de dez senão eu furo a sua cabeça.” Foi o tempo de pegar a carteira no bolso do paletó, tirar uma nota e me voltar com cuidado para entregar o dinheiro. Vi então a carinha dele. Era um garoto arruivado e magricela, de uns 14 ou 15 anos. Tinha a cara que eu mesmo tive quando jovem. A cara que teria meu filho, se um filho eu tivesse daquela mesma idade.

Mostrar a carteira foi um erro primário. Ao vê-la, o garoto não se conteve e começou a gritar por mais dinheiro, ao mesmo tempo em que aumentava a pressão do espeto encostado no meu rosto. O sinal abriu e pisei no acelerador tentando escapar. Resultado: bati, poucos metros depois, na traseira da Kombi à minha frente. O garoto sumiu como que por encanto, mas da Kombi saiu um brutamontes ensandecido que nem sequer esperou por alguma explicação e já me agarrou pelo colarinho, aparentemente disposto a me reduzir a pó. Felizmente, o estrago no pára-choque dele fora mínimo. Depois de me presentear com uma porção de insultos e impropérios, ele voltou à sua Kombi e partiu, deixando atrás de si uma nuvem de fumaça de óleo mal queimado.

Van Der Velde/Sipa-Press
Tragédia em estádio de futebol: exemplo de destruição causada pela violência.

Era apenas o começo de um dia normal em uma grande metrópole nos nossos dias: um dia de violência e agressividade. Passei o resto desse dia trancado no escritório, tentando apagar da mente o sonho cada vez mais recorrente de ir morar numa praia isolada e cheia de sol lá no Ceará. Em casa, à noite, ligo a televisão para relaxar. Era um programa sobre violência no lar. “Seu marido é agressivo?”, perguntou a repórter da TV à entrevistada, uma dona-de-casa de meia-idade, moradora da periferia de São Paulo. A resposta, dita com o maior candor, obrigou a jornalista a conter o próprio riso: “Não, meu marido é um homem bom. É só um pouco nervoso. Quando não gosta da comida, joga o prato na parede, xinga e sai de casa batendo a porta. Mas não é agressivo. Em 20 anos de casamento, ele nunca me bateu.”

O marido nunca lhe batera. Já era alguma coisa, diante dos outros depoimentos bem mais escabrosos de mulheres espancadas pelos maridos que vieram a seguir no programa. Mas isso não significava que aquele homem fosse um manso cordeirinho. O equívoco de avaliação cometido pela entrevistada é, hoje, lugar-comum: ela confundia agressividade com violência.

Convém, desde já, estabelecer a diferença. Violência deriva do verbo violar e implica coação, constrangimento físico ou moral, estupro. Violência exige o uso da força bruta e é sempre destrutiva. Quando se manifesta no comportamento humano, está invariavelmente ligada a alguma forma de patologia. Portanto, todo violento é, antes de tudo, um doente. Agressividade vem do verbo agredir, cujos sentidos são múltiplos. Pode significar investir, provocar, desafiar, competir. Pode até mesmo suportar as acepções mais comedidas de dinamizar ou, simplesmente, agir. No ser humano, a agressividade é uma das funções do instinto natural de preservação. Ela não é, necessariamente, destrutiva.

Prensa Três
A prática de esportes como o tênis é um veículo para descarregar a raiva.

O garoto que me assaltou era um violento. O motorista da Kombi, um agressivo no limite da violência. Como não ter idéias confusas quando se fala de agressividade e violência? Basta abrir o jornal, como fiz agora, antes de iniciar este artigo, e ler os “destaques da semana”: em Brasília, foram libertados os cinco garotos de classe média alta que, numa noite de tédio, tocaram fogo e mataram um índio para se divertir; em Israel, o enésimo homem-bomba explodiu-se num supermercado e matou mais cinco; em Belém, foi condenado o policial militar que há alguns anos ordenou um massacre de sem-terra; no Paraná, grupo de sem-terra matou a pauladas o leão-de-chácara que o dono de uma fazenda contratara para expulsar os invasores.

Notícias como essas recheiam o cotidiano da mídia, e o espaço a elas dedicado supera largamente o das informações boas, positivas, alto-astral. Somos a tal ponto soterrados pela fartura dos informes negativos que, por instinto de defesa, cada vez mais desenvolvemos uma postura de indiferença diante deles. A mídia, porém, é apenas um espelho da nossa realidade: vivemos numa era de banalização da violência e da agressividade.

Por outro lado, se os traços fortes de uma sociedade representam um somatório das características dos indivíduos que a compõem, isso significa que somos todos, em maior ou menor medida, seres agressivos e violentos?

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