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Ébrias de Deus
Santas e guerreiras
Embora
a Igreja tenha ressaltado a imagem das santas meigas e resignadas,
muitas das mulheres santificadas foram, na verdade, destemidas
e insurgiram-se contra os poderosos de sua época em nome dos
mais desfavorecidos.
Por
Luis Pellegrini
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D.G. Rossetti, A Infância da Virgem/Tate Gallery, Londres
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Santa:
mulher virtuosa, bondosa, inocente. Ao definir o verbete,
o dicionário Aurélio não deixa margem
a dúvidas. Santa é aquela mulher que só
tem qualidades e nenhum defeito, que é capaz de se
despojar de tudo em benefício do próximo, que
não tem máculas. Se a essa descrição
juntarmos aquela visual, dada pela iconografia tradicional
dos santinhos, das pinturas e estátuas sobre os altares
onde as santas são sempre representadas com
as mãos juntas sobre o peito, o olhar voltado para
o alto, numa expressão de piedade e compaixão
, nosso condicionamento estará completo. Iremos
sempre confundir beatitude com santidade.
Embora beatitude não exclua necessariamente santidade,
e vice-versa, um exame atento e sem preconceito da história
das santas católicas mostrará que as coisas
nem sempre foram assim. Muitas das santas mais importantes
pouco ou nada têm de beatas convencionais: ao contrário,
mostram-se aguerridas, combativas, destemidas, apaixonadas.
À parte o exemplo célebre de Joana DArc,
que empunhou armas e fez a guerra em defesa da França
e por seu empenho extremo foi levada à fogueira
, várias outras santas foram capazes de enfrentar
os poderosos do seu tempo, quando isso se fazia necessário
para a defesa dos valores em que elas acreditavam. Teresa
de Ávila, a primeira doutora da Igreja (1515-1582),
Catarina de Siena (1347-1380) e Hildegarde de Bingen (1098-1179)
são bons exemplos. Usando o dom da palavra inteligente
e com freqüência mordaz, elas enfrentaram reis
e políticos, altos prelados e inclusive papas. Santas,
sim. Mas, ao mesmo tempo, mulheres de personalidade forte.
Doces e terríveis. Possuídas pelo amor a Deus,
mas capazes de desafiar a lei dos homens.
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| A
francesa Joana d‘Arc: sua fé e empenho levaram-na
a empunhar armas para combater os ingleses, que a condenaram
a morrer na fogueira. |
Casamento?
Só para as mais fracas
A lei dos homens, até o passado relativamente recente,
excluía as mulheres da vida pública e política,
restringindo o seu papel social à simples função
procriadora ou às orações intermináveis
na clausura dos conventos. Na história da sociedade
cristã, essas restrições e preconceitos
vêm de longe. Remontam aos primórdios do cristianismo,
quando as mulheres que nos tempos pré-cristãos
viviam em pé de igualdade com os homens passaram
a ser consideradas seres frágeis e complicados e, por
natureza, inferiores aos homens. Isso quando não eram
vistas com desconfiança, consideradas presas fáceis
das forças do mal e, por isso, perigosas para os homens.
Foi nessa fase que os Pais da Igreja elaboraram para elas
uma graduação de mérito entre as escolhas
de vida possíveis. Estabeleceu-se que, com vistas ao
crescimento espiritual que conduz ao paraíso, a virgindade
frutifica 100%; a castidade depois da viuvez, 60%; e, em último
lugar, o casamento, que rende apenas 30%. Parece incrível,
mas é verdade: o casamento era apresentado como opção
de vida adequada apenas às mais fracas. O status matrimonial
merecia maior atenção quando podia ser evitado,
ou quando deixava de existir pela morte do cônjuge ou
pela decisão de viver em castidade, renunciando aos
prazeres da carne. O tempo se encarregou de rever e corrigir
esses parâmetros ao longo dos séculos. Mas traços
deles sobrevivem até hoje nas sociedades cristãs.
próxima>>
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