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Brasil 2002
A Sabedoria Social do Tao
As próximas eleições são uma chance de trazer novos ares ao cenário político, mas mudanças substanciais só ocorrerão como reflexo da reforma interior dos cidadãos brasileiros.

Por Carlos Cardoso Aveline

Ricardo Stuckert

Quem olha o cenário político brasileiro percebe logo que a seriedade, a ética e a coerência serão, no futuro, cada vez mais exigidas dos nossos dirigentes.

É como se a luz do dia estivesse chegando. O jeito desonesto de fazer política passa por um momento de autodestruição. Uma longa sucessão de crises abre espaço, silenciosamente, para mudanças bem mais amplas e profundas do que uma mera troca de nomes pessoais ou de siglas partidárias.

É verdade que por enquanto não faltam manobras políticas sujas, partidos políticos sem idéias e candidatos teleguiados por gurus de propaganda e institutos de pesquisa. Mas essa é apenas a casca externa do processo. As eleições deste ano são, de fato, uma oportunidade para que o País mude sua visão da realidade e encontre um modo mais adequado de resolver os seus problemas. Por outro lado, a grande transformação não é eleitoral. Ela ocorre dentro da alma brasileira e só mais tarde se reflete na vida social e política.

Em meio a esta transição para algo novo e desconhecido, pode ser especialmente oportuno o lançamento brasileiro de uma obra suavemente misteriosa, escrita na China há mais de 2.000 anos. O Wen-tzu é uma escritura do taoísmo filosófico. Ele dá ao leitor um conhecimento milenar das questões sociais, que poderá ajudar a resolver a maior parte dos males da civilização atual.

Com o subtítulo A Compreensão dos Mistérios, o Wen-tzu foi escrito meio século antes da era cristã, mas sua tradução para o inglês apareceu há poucos anos nos Estados Unidos e só agora é lançado em língua portuguesa. A obra mostra com clareza e nitidez únicas a proposta de uma sociedade ideal, mas revela também como funcionam os mecanismos de decadência e destruição social.

O taoísmo pode ser definido como uma forma de mergulho no que é autêntico e natural. Para essa religião-filosofia, o Tao ou Caminho é o princípio supremo do equilíbrio e da harmonia, que está presente em todas as coisas. Usando uma linguagem sutil e simbólica, o Wen-tzu rejeita a astúcia e a manipulação:

“Uma orquídea não perde sua fragrância só pelo fato de ninguém cheirá-la, um barco não afunda só porque não há ninguém dentro dele; e uma pessoa não deixa de praticar o Caminho apenas porque ninguém tem consciência disso: a orquídea, o barco e a pessoa exemplar são assim por natureza.” (1)

Depois de ler este trecho pela primeira vez, eu disse ironicamente a alguns amigos que havia compreendido, afinal, a diferença entre uma orquídea e um hipócrita. A orquídea é sempre a mesma, esteja ou não sendo observada, enquanto o hipócrita e o incoerente só são éticos enquanto há alguém observando-os.

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Notas

(1) Wen-tzu, a Compreensão dos Mistérios, Ensinamentos de Lao-tzu, tradução do chinês de Thomas Cleary. Editora Teosófica, Brasília, 2002, 198 pp. Veja p. 98.
(2) Wen-tzu, pp. 150-151.
(3) Wen-tzu, obra citada, p. 176.
(4) Wen-tzu, capítulo 53, p. 69.
(5) Wen-tzu, capítulo 19, pp. 44-45.
(6) Wen-tzu, capítulo 7, p. 31.
(7) Wen-tzu, capítulo 153, p. 165.

 

       


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