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Impulso para a libertação
O Despertar do Espírito
As experiências da vida, das comuns às excepcionais, nos impelem
para a jornada espiritual. São pequenos e grandes chamados que
reavivam em nossa memória o brilho do mundo espiritual.

Por Jack Kornfield
O texto a seguir é um excerto da primeira parte do livro Depois do Êxtase, Lave a Roupa Suja, de Jack Kornfield, lançado recentemente pela Editora Cultrix. Tradução: Carlos A. L. Salun e Ana Lucia Franco.

Modesto Wielewicki

O que leva uma pessoa à vida espiritual? Até onde a memória alcança, cada um de nós sente um certo mistério no fato de estar vivo. Diante de um bebê que acabou de nascer ou quando a morte de uma pessoa querida passa muito perto de nós, o mistério fica palpável. Lá está ele quando vemos um entardecer radiante ou quando sentimos a quietude silenciosa de um momento nos tempos fluidos de agora. Entrar em contato com o sagrado é talvez a nossa mais profunda necessidade.

O despertar nos chama de mil maneiras. Existe uma atração pela totalidade, pela vida plena, mesmo quando já esquecemos. Os hindus dizem que a criança no útero canta: “Que eu não esqueça quem sou.” Mas que logo depois de nascer sua canção é “Já esqueci.”

Mas, assim como há uma viagem de ida, há uma viagem de volta. Em todo o mundo há histórias dessa viagem; há imagens do desejo de despertar, dos passos ao longo do caminho que todos seguem, das vozes que chamam, da intensidade da iniciação por que todos passam, da coragem que é necessária. No coração de cada um há a sinceridade original do buscador, que admite que é pequeno o nosso conhecimento do universo, que é grande o desconhecido.

A honestidade que a busca espiritual exige de nós é ilustrada nos contos russos de iniciação sobre Baba Yaga. Baba Yaga é uma velha de aparência selvagem que mora no meio da floresta, está sempre mexendo o caldeirão e sabe de tudo. Ela assusta, pois quem a procura é obrigado a entrar na escuridão, a fazer perguntas perigosas, a deixar o mundo da lógica e do conforto.

Fabricius/Sipa-Press
Música: veículo poderoso para nos colocar em contato com o lado espiritual.

Quando, empenhado na busca, o primeiro jovem chegou tremendo à porta de sua cabana, Baba Yaga perguntou: “Você está aqui por conta própria ou foi mandado por alguém?” Como a família do jovem apoiava sua busca, ele respondeu: “Fui mandado pelo meu pai.” No mesmo instante, Baba Yaga o jogou no caldeirão e o cozinhou. A segunda pessoa a procurá-la, uma moça, viu o fogo crepitando e ouviu a risada de Baba Yaga. Novamente, Baba Yaga perguntou: “Você veio por conta própria ou foi mandada por alguém?” Essa jovem tinha ido para o bosque sozinha em busca do que encontrasse. “Vim por conta própria”, respondeu ela. Baba Yaga a atirou no caldeirão e a cozinhou também.

Mais tarde, um terceiro visitante, uma moça profundamente confusa diante do mundo, chegou à casa de Baba Yaga no meio da floresta. Ela viu a fumaça e percebeu o perigo. Baba Yaga a encarou: “Você veio aqui por conta própria ou foi mandada por outra pessoa?” A jovem respondeu com sinceridade: “Em parte vim por conta própria, mas em parte vim por causa de outras pessoas. Em parte vim porque você está aqui, por causa da floresta e por causa de alguma outra coisa que esqueci. E em parte nem sei por que vim.” Baba Yaga ficou olhando para ela por um momento e disse: “Você serve.” E a convidou para entrar na cabana.

Dentro do bosque – Não conhecemos todas as razões que nos impelem para a jornada espiritual, mas de alguma forma a vida nos obriga a ir. Alguma coisa em nós sabe que não estamos aqui só para dar duro no trabalho. Há uma atração misteriosa que nos dá vontade de lembrar. O que nos leva a sair de casa para entrar na escura floresta de Baba Yaga pode ser uma combinação de acontecimentos. Pode ser um anseio vindo da infância ou um encontro “acidental” com uma pessoa ou livro espiritual. Às vezes, alguma coisa dentro de nós desperta numa viagem para uma cultura estrangeira, quando o mundo exótico de ritmos, fragrâncias e cores nos catapulta para fora do sentimento corriqueiro de realidade. Às basta caminhar pelas montanhas azuis-verdes ou ouvir um coral cantando uma música tão bonita que parece inspirada pelos deuses. Às vezes é preciso, ao lado da cama de um moribundo, presenciar a misteriosa transformação da “pessoa” que desaparece da existência, deixando apenas um saco de carne sem vida à espera do funeral. Mil portões se abrem para o espírito. Seja no brilho da beleza, seja no bosque escuro da confusão e da dor, uma força real como a gravidade nos traz de volta ao coração. Isso acontece com todos nós.

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