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Maníaco
Sou, mas quem não é?
De uma maneira ou de outra, todos nós temos pequenas manias,
que são consideradas normais por muitos psicólogos, só exigindo
maiores cuidados quando podem se tornar grandes obsessões.

Texto: Luis Pellegrini/Ilustrações: Christiane S. Messias

Teste: Você é cheio de manias?


Nos dicionários de psicologia, as definições de maníaco costumam ser implacáveis. Começam dizendo que o maníaco é vítima de uma desordem mental caracterizada por grande atividade psicomotora. Quer dizer, ele fica se agitando o tempo todo, não pára quieto e incomoda os outros. Indo em frente, afirmam que o maníaco vive excitado e se exalta com facilidade, não consegue fixar a atenção em nada durante muito tempo, é teimoso, seus desejos são imoderados, seus comportamentos superam sempre os limites do tolerável e incomodam os outros. Além disso, cultiva hábitos bizarros, repetitivos e até mesmo ridículos que provocam zombaria ou imitação e incomodam os outros.

Você conhece alguém assim? Não? Pois olhe a seu redor: o mundo está cheio de maníacos. Na verdade, tem mais gente com um pezinho nessa maloca do que fora dela.

Duvida? Examine os seus colegas do escritório, por exemplo. O Nestor. Antes, ele passava horas e horas do expediente de trabalho ao telefone, dizendo abobrinhas para amigos desocupados. Até o dia em que o gerente lhe deu um “dá ou desce” e lhe acenou com o bilhete azul se ele não parasse. Ele parou, mas só no telefone. Depois do tranco do gerente, Nestor dedica-se agora a mandar, para os mesmos amigos, silenciosos e-mails forrados com as mesmas abobrinhas. Pobre Nestor. Vai acabar perdendo o emprego. Ele não sabe que a empresa acaba de instalar uma central informática secreta que grava e controla tudo que entra e tudo que sai dos computadores usados pelos seus funcionários. Que fazer? Nestor precisa se sentir em contato permanente com gente de quem ele gosta. Seu problema – como o da maioria dos maníacos – é afetivo.

E a Martinha, recepcionista, que o tempo todo enrola no dedo uma mecha de cabelos. Ela até que melhorou. No ano passado, quando resolveu cortar os cabelos bem curtos, não havia lápis que chegasse: ela não parava de roer as pontas.

Claro, esses dois até que são maníacos mansos, suportáveis. Mas e o Zé Pedro, lembra-se? Aquele que foi demitido por “excesso de ordem”, como admitiu, irônico e maldoso, o gerente. Um dia, ele começou a organizar todos os papéis e objetos que estavam sobre sua mesa a exatos sete centímetros da borda. Assim que qualquer coisa saía fora dessa medida, ele voltava a colocá-la no lugar. Quando lhe perguntaram o que significava aquilo, ele disse que o sete era um número de sorte, enquanto o seis dava um azar terrível. A coisa não parou aí. Se no copo havia seis lápis e canetas, ele pedia mais uma emprestada para chegar aos sete. Se ninguém lhe dava, Zé Pedro jogava um lápis fora. Se a escada tinha seis degraus, ele saltava dois de uma só vez para evitar a cifra maldita. Quando, em rara distração, pisava no sexto degrau, voltava para trás e começava tudo de novo. Zé Pedro tinha virado um numeromaníaco. Sua vida se tornou uma verdadeira liturgia numerológica, que tinha de ser respeitada a qualquer preço. O preço foi a demissão. Até você, que é um pão de pessoa, ficou aliviado com a saída dele, lembra-se? A mania do Zé Pedro incomodava e dava nos nervos.

Nessa altura você, que é uma pessoa muito inteligente, pode estar pensando que, se falo de todos esses colegas maníacos, é por que, na verdade, procuro um meio para lhe dizer que você deveria controlar um pouco mais essa sua tendência de arrumar continuamente a sua casa – quando ela já está super bem-arrumada – e parar de verificar a toda hora o seu saldo bancário pela Internet. E, já que ligamos o computador, parar também de acessar, de meia em meia hora, a sua caixa postal para ver se chegou algum novo e-mail. Pode ficar tranqüilo. Só quero lhe mostrar que o cordão dos maníacos é na verdade legião, e que, de um jeito ou de outro, todos nós fazemos parte dele.

 

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