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Arqueologia Fantástica
O mito dos continentes perdidos
Ao que tudo indica, a Atlântida e outros continentes perdidos, que teriam abrigado civilizações bastante desenvolvidas, estão localizados apenas na mente sonhadora de seus proponentes.

Por Júlio César Borges

A. Pena/Sipa-Press

No início havia um supercontinente, a Pangéia, que começou a se fracionar há 200 milhões de anos. A primeira divisão deixou uma massa de terra ao norte, a Laurásia, e outra ao sul, chamada Gondwana. Depois, outras separações e choques de placas foram dando contornos aos atuais continentes. A derivação dessas terras na crosta terrestre ao longo do tempo responde pelo mapa-múndi atual.

Essa teoria, esboçada no início do século passado pelo geólogo Alfred Wegener, é a adotada hoje pela ciência e explica a contento o perfil da su-perfície terrestre. Aceitá-la, porém, implica no mínimo ver com muitas reservas os relatos sobre continentes desaparecidos. Onde haveria espaço, por exemplo, para a Atlântida? Ela não passaria de um mito, sem lastro no mundo real – mas um mito tão resistente que atravessou milênios e ainda é mencionado nos dias de hoje.

A primeira informação concreta sobre a Atlântida vem de fonte ilustre: o filósofo grego Platão, que viveu no século 4 a.C. Nos seus diálogos Timeu e Crítias, o filósofo citava a história atlante – originária de “antigas tradi-ções”, repassadas por um sacerdote egípcio ao estadista ateniense Sólon, do século 7 a.C.

De acordo com Platão, os atlantes viviam em uma esplêndida cidade circular numa ilha-continente logo além das Colunas de Hércules (nome grego do Estreito de Gibraltar). Muito inteligentes, eles construíram palácios finamente decorados, à beira de canais circulares que davam acesso a excelentes portos. Outro sistema de canais irrigava os campos.

O filósofo ficou fascinado pela constituição atlante, segundo a qual leis outorgadas pelos deuses definiam que uma reunião anual de cidadãos da ilha servia para resolver todas as disputas de forma equilibrada. Essa harmonia, porém, não permaneceu para sempre: a ambição e o desejo de poder causaram a fúria dos deuses, os quais cumularam a Atlântida de terremotos, tempestades e enchentes, até o desaparecimento daquelas terras.

Rafael, Escola de Atenas
Platão trouxe a público a primeira informação concreta sobre os atlantes.

O tema não despertou maior atenção até a Renascença, época em que as navegações oceânicas e referências enigmáticas sobre outros povos nas tradições de culturas nativas americanas deram novo fôlego às especulações. Até mesmo Francis Bacon, filósofo do século 17 que lançou as bases do método científico, considerava perfeitamente plausível uma ligação do Novo Mundo com a Atlântida.

Dois sacerdotes católicos, o bispo espanhol Diego de Landa e o abade francês Charles de Bounbourg, ajudaram a reforçar o mito atlante. O primeiro, famoso por estudar as tradições mesoamericanas no fim da vida, após ter queimado praticamente todos os códices maias (poupou apenas três), observou num relatório que os habitantes do Yucatán diziam ter ouvido de seus ancestrais que sua península fora ocupada por um povo originário do leste, “ao qual Deus salvara, abrindo 12 passagens através do oceano”. Os estudos de Landa sobre a escrita maia – cuidadosos para a época, mas não comparáveis aos trabalhos contemporâneos – serviram de base para Bounbourg tentar traduzir os códices em 1864. Resultado: um deles narrava uma catástrofe que levara ao afundamento de uma ilha chamada Mu, tal qual Platão descrevera no caso da Atlântida.

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