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Entrevista
Um Cientista Nota 10

Pesquisador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (SP), o dr. Sérgio Henrique Ferreira, responsável por descobertas que lhe valeram o reconhecimento internacional, faz aqui um balanço da ciência brasileira e mostra o seu lado cidadão.

Por Fátima Afonso

Daniel Weinstein

PLANETA – Quando entrou na faculdade, o senhor queria ser psiquiatra, mas acabou se tornando farmacólogo e pesquisador na área da saúde. O que fez com que mudasse de idéia?
Sérgio – A convivência com alguns pesquisadores da faculdade de medicina, principalmente com Michael Rabinovitch, que posso chamar de meu mestre. Ele tinha grande capacidade de aglutinar os jovens, não só pela sua visão de ciência, mas pela visão poética do mundo e pela sua compreensão política. Nosso grupo foi se formando pouco a pouco, e o Michael tinha chegado um ano antes de nós à faculdade, por volta de 1955. Nós nos reuníamos para fazer pesquisa, ouvir música e discutir idéias. Mas a minha intenção era realmente me formar em psiquiatria, tanto que, no segundo ou terceiro ano da faculdade, eu já estava trabalhando num hospital psiquiátrico. Mas vi que aquilo que eu fazia era para uma elite; as medidas que eram para o povo não podiam ser tomadas porque implicavam a saúde pública. Assim, fui me desencantando com a psiquiatria. Tive também um período de namoro com a neurocirurgia. Estou contando isso para dizer que a minha sorte não foi ditada pelo meu talento, mas pelas pessoas que tive a oportunidade de encontrar.

PLANETA – O senhor teve a sorte de encontrar grandes mestres em todas as áreas…
Sérgio – Sim. Por volta de 1960, quando decidi abandonar a clínica e fazer pesquisa, perguntei a alguém: “Qual o melhor cientista brasileiro na área de fisiologia ou farmacologia?” Disseram: “No Brasil tem um grande cientista, que é o professor Maurício Oscar da Rocha e Silva. Ele é uma pessoa difícil, que tem opiniões fortes; é irascível de vez em quando, mas é um grande professor.” Naquela época, o departamento do Maurício ia entrar num momento importante, porque ele tinha descoberto a bradicinina, encontrada misturando-se sangue com o veneno da jararaca. Mas ela era resultado, vamos dizer, da ativação de vários componentes do sangue, que poderiam ocorrer mesmo na ausência do veneno da jararaca. Havia muita perspectiva de a bradicinina ser um hormônio importante no controle da pressão arterial. Naquele instante tinha sido feita a sua estrutura química – ela era um polipeptídio – e também a sua síntese.

Nos primeiros seis, sete meses trabalhando com o Maurício nós vimos muitas coisas novas. Em determinado momento, eu resolvi pedir um emprego para ele, que me mandou falar com o diretor da faculdade. Naquela época, o diretor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, que hoje comemora 50 anos, era o Zeferino Vaz, que tinha uma visão de faculdade para fazer ciência. Ele montou os departamentos de ciências básicas da faculdade de medicina com todas a infra-estrutura; convidou professores estrangeiros e as melhores pessoas para trabalhar ali, criando as maiores facilidades para que aqueles departamentos pudessem crescer. Quando eu pedi uma vaga para trabalhar, não havia nenhuma, mas o Zeferino prometeu que arranjaria. E, durante seis meses, no primeiro dia do mês, eu ia lá e ele abria uma gaveta, tirava 20 cruzeiros e me dava. Como ele fazia a contabilidade daquilo eu não tenho a menor idéia, mas foi o suficiente para me manter pesquisando durante algum tempo, até que, finalmente, saiu a minha nomeação.

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