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A arte da cura
Hipócrates e a medicina chinesa
Centrada no homem e voltada à observação da natureza, a ciência
de Hipócrates – pai da medicina ocidental – guarda muitos
pontos em comum com o pensamento chinês. O distanciamento
entre essas duas vertentes só se deu, na verdade, com Galeno,
médico grego que nunca compreendeu a doutrina hipocrática.
Por
Paulo Urban
Médico
psiquiatra, psicoterapeuta
e acupunturista. E-mail: paulourban@ig.com.br
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Hipócrates vestido de médico/Biblioteca Nacional de
Paris, séc. 15
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Passa
despercebido por quase a totalidade dos médicos e historiadores
que o grego Hipócrates (460-370 a.C.), pai da medicina
ocidental, tenha professado sua arte e fundamentado seu conhecimento
científico em axiomas que guardam profunda semelhança
com a filosofia oriental, mais especificamente o taoísmo,
base do pensamento médico chinês.
A medicina tem raízes perdidas num passado longínquo.
Evidências de práticas ritualísticas combinando
o pensamento mágico a técnicas primitivas de
cura datam de meio milhão de anos, e o instinto de
medicar pode ser encontrado mesmo nas espécies inferiores.
Animais silvestres, por exemplo, chegam a viajar grandes distâncias
em busca de plantas que contenham princípios ativos
capazes de tratar suas afecções; as corujas
livram suas penas dos piolhos tomando banhos de areia; e o
ato de lamber as próprias feridas, promovendo assepsia
local pelas propriedades germicidas da saliva, é traço
comum do comportamento animal, encontrado também entre
as crianças.
Desde o alvorecer das civilizações, a preocupação
com a saúde é inerente à condição
humana, que, testemunha do próprio sofrimento, procura
prevenir-se das doenças e curar seus males. Universalmente
presente nas culturas primitivas está a figura do xamã,
ou sacerdote-feiticeiro, dotado de poderes mágicos
endossados pelo mundo espiritual, que o orienta em sua prática
de cura. Seu saber ancestral perpetua-se ao longo das gerações
por meio da tradição oral e pelos ritos de iniciação
destinados a sele-cionar esses raros indivíduos.
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Pormenor do papiro de Hent-Taui/Museu Britânico, Londres |
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| O
deus egípcio Thot (aqui em sua forma de macaco) foi
assimilado pelos gregos com o nome de Asclépio. |
Crânios
pré-históricos coletados em várias regiões
do mundo, incluindo o Peru, revelam a prática da trepanação,
cirurgia pela qual se chega ao cérebro através
de aberturas feitas na calota craniana por instrumento cortante
de pedra. Espanta-nos saber que tais intervenções
eram praticadas em pacientes vivos. Mais incrível é
a evidência de que ao menos parte deles sobrevivia,
como nos mostram achados arqueológicos de crânios
trepanados nos quais há margens arredondadas de calcificação
óssea, crescidas após a cirurgia. Impressionante
também é a imagem rupestre do feiticeiro-cervo
gravada a cinco metros do chão na câmara subterrânea
da caverna de Trois Frères, sul da França, datada
do Paleolítico Superior (30.000 a 10.000 a.C.). É
o retrato do mais antigo médico até hoje revelado.
O xamã de Trois Frères tem barba e pernas de
homem, patas dianteiras de urso e, cobrindo-lhe o rosto, uma
máscara de veado com chifres. Ele está dançando,
como se executasse um ritual misto de caça e cura.
Escavações realizadas pelo inglês Sir
Leonard Wooley em tumbas reais na Mesopotâmia, em 1929,
revelaram que os sumérios, por volta de 5000 a.C.,
valiam-se de bebidas depressoras do sistema respiratório,
com as quais sacerdotes de ambos os sexos sacrificavam voluntariamente
suas vidas. Uma vez dormentes, eram enterrados vivos ao lado
dos corpos de seus reis mortos. Além disso, instrumental
de cobre, de 4200 a.C., escavado nas cidades de Ur, Kish e
Lagash, sugere que os sumérios dominavam ainda a técnica
do escalpo.
Também os egípcios detinham uma pródiga
medicina. O que dela sabemos provém de dois grandes
fragmentos de escrita hierática, os papiros Ebers e
Smith. Ambos são datados de 1600 a.C., mas o segundo,
descoberto em Tebas, em 1862, copia textos médicos
que datam de 2500 a.C. O papiro Ebers traz desde fórmulas
mágicas para debelar pestes e curar doenças
até imprecações para o rejuvenescimento.
O papiro Smith, por outro lado, inclui condutas cirúrgicas
até hoje válidas, como o uso de compressas nas
hemorragias; apresenta seções dedicadas à
oftalmologia e aos órgãos internos, comentando
casos clínicos, prognósticos e tratamentos.
Um dos maiores médicos da antigüidade egípcia
foi Imhotep, sacerdote e arquiteto que serviu ao faráo
Djoser (2630 a.C.) da terceira dinastia e construtor da primeira
pirâmide em degraus, em Saqara. Imhotep devido a seus
extraordinários dotes, foi divinizado após a
sua morte. Sua figura mesclou-se à imagem de Thot,
deus da sabedoria que seria ainda assimilado pelos gregos
sob o nome de Asclépio.
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