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Bichos de estimação
Espelho da nossa alma
Capazes de refletir as características anímicas e de personalidade
de seus donos, os animais domésticos ganham, a cada dia, um
significado maior na vida dos habitantes de grandes centros
urbanos.
Por
Luis Pellegrini
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Marcelo Min
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Ulisses,
o herói grego da Odisséia, grande poema épico
de Homero, teve um cão fiel chamado Argos. Como a rainha
Penélope, esposa de Ulisses, Argos esperou a volta
do dono por mais de dez anos. Por fim, após sua longa
e aventurosa viagem, quando o herói retorna disfarçado
de mendigo, Argos é o único a reconhecê-lo.
A cena desse reencontro inspirou a Homero alguns dos mais
belos versos de toda a obra: Esquecido agora, na ausência
do dono, diante do portal do palácio, Argos permanecia
a vigiar, quase cego, coberto de sarna e pulgas. Ele reconheceu
Ulisses no homem que chegava e, movendo o rabo, baixou as
duas orelhas: faltavam-lhe forças para correr em direção
ao dono. Ulisses o viu: ele voltou a cabeça e enxugou
uma lágrima...
Ulisses combateu na Guerra de Tróia, enfrentou o gigante
Ciclope, venceu os feitiços da maga Circe, resistiu
ao canto das sereias. Mas apenas seu velho cão foi
capaz de arrancar-lhe uma lágrima...
Quem
tem um cachorro, escreveu Colette Audry, encontrou
um abrigo mais secreto e ainda mais seguro que o coração
de sua mãe. Tenho vários amigos, donos
de cães e gatos, que assinariam essa frase sem pestanejar.
Outros, como minha mãe, dona Dirce, mãezona
italiana das boas, certamente não iriam concordar.
Ela logo diria que essa escritora francesa contemporânea
não sabe do que está falando. Para dona Dirce,
abrigo mais seguro que o coração da mamãe,
nem mesmo o divã fofo do melhor psicanalista. Feito
o devido esclarecimento, é preciso reconhecer que,
para muita gente, o bicho de estimação é
ponto de referência especial. Eu mesmo sou bom exemplo.
Quando me lembro de Tasha, a bela cachorra de raça
afegã que me acompanhou durante anos e que, um dia,
o tempo levou para o paraíso dos cachorros, ainda sinto
um ligeiro nó na garganta. Fizesse calor ou frio, chuva
ou sol, chegasse eu em casa cansado, irritado ou triste, Tasha
me recebia em festa, rabo abanando, a demonstrar sem nenhum
pudor que, para ela, nada no mundo era mais importante do
que a minha pessoa. Muitas vezes bastava essa manifestação
de amor canino incondicional para que meu humor mudasse da
água para o vinho. Tasha possuía esse poder
mágico. E pouco me importam as eventuais interpretações
que algum terapeuta abusado queira dar ao caso de amor que
tive com ela. Como não retribuir o afeto de uma criatura
dotada da rara e preciosa capacidade de nos amar exatamente
como somos? De nos querer sem nada pedir em troca, a não
ser uns poucos afagos?
A
zoologia contemporânea vai inclusive muito mais além
ao afirmar com provas , que os animais superiores
não apenas são dotados de afetividade e emoções,
mas também de inteligência. Na Universidade da
Georgia, Kanzi, chimpanzé-bonobo de 22 anos, pode acender
o fogo com um isqueiro e cozinhar sua própria comida
numa panela. Ele a enche de água, fecha a torneira,
coloca a panela sobre o gás e, com a ajuda de uma colher,
remexe a farinha de batata até transformá-la
em purê. Sem esquecer de provar, de vez em quando, para
ver se já está bem cozida. Kanzi compreende
perfeitamente o inglês. Não pode responder diretamente,
pois, como todos os sí-mios, não é dotado
da palavra. Mas pode se exprimir por intermédio de
um teclado que contém cerca de 250 vocábulos
(objetos, adjetivos, verbos, conceitos). Tocando as teclas,
os termos ingleses são enunciados por uma voz sintética
que formula as respostas do bonobo. Ele diz, por exemplo:
Eu gentil e bonito. Ou então: Quero
cafuné, Quero uma revista de quadrinhos,
já!, Vá embora, não quero
te ver. Mais que isso, é capaz de combinar palavras
para criar expressões novas. Por exemplo: Bonita
pulseira-de-dedo! Dá para eu?, para se referir
ao novo anel que sua treinadora estava usando.
próxima>>
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