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Lições de liderança
Desenvolvendo o Autodomínio

O autodomínio é a arte de canalizar a energia daquilo que consideramos sem finalidade para o alvo desejado, trazendo a plenitude do nosso ser para o momento presente.

Por Debashis Chatterjee
Este texto é um excerto do capítulo 1 do livro Liderança Consciente, de Debashis
Chatterjee, lançado recentemente pela editora Cultrix. Tradução: Paulo Maurício Verussa e Aníbal Mari.

Riclafe/Sipa-Sport

O autodomínio é uma função da qualidade da nossa visão. Grandes mestres de civilizações antigas eram conhecidos como videntes. Esses grandes videntes não enxergaram nada de mágico. A singularidade de suas visões estava no fato de possuírem não apenas visões, mas também introvisões. Os mestres enxergaram o mundo à sua volta perceptivelmente, não passivamente. A maioria de nós olharia para uma maçã em queda e logo esqueceria. Foi preciso um lampejo intuitivo de Newton para enxergar através do evento e descobrir a força da gravidade. Nós todos enxergamos sofrimento à nossa volta. Mas é preciso a revelação de um Buda para se chegar à causa-raiz do sofrimento humano e identificá-lo como desejo.

Nós somos maltrapilhos visuais. No estado de consciência ordinário, colhemos passivamente impressões visuais fragmentadas de objetos ou eventos. Isso é uma atividade de baixa energia, como a captação mecânica de partículas e partes do nosso meio ambiente. Visões de energia elevada requerem não um acúmulo de objetos ou eventos, mas algo mais. Requerem a disciplina de se enxergar através de eventos até os processos invisíveis que moldam esses eventos.

Três mestres zen estão caminhando por um campo. O mais jovem entre eles avista uma bandeira atada a uma estaca. Ele chama a atenção de seus dois companheiros e diz: “Vejam como a flâmula se move.” O mestre de meia-idade toca as costas do mais jovem e diz: “Meu rapaz, você não pode ver que não é a flâmula que se move, é o vento que se move.” O velho mestre, que esteve ouvindo os outros dois em silêncio, diz suavemente: “Se vocês tiverem um vislumbre, verão que não é a flâmula nem o vento que se movem; é a mente que se move.”

A verdadeira visão não é meramente um relance da superfície visível da realidade objetiva. A verdadeira visão requer uma visão perceptiva do potencial invisível da realidade objetiva.

Um vendedor comum visita uma ilha onde ninguém usa sapatos e diz: “Não se pode vender sapatos aqui. Ninguém usa sapatos nesta ilha.” Essa é uma visão de baixa energia. Compare-a com a visão de elevada energia de um líder mercantil, que chega à mesma ilha e exclama: “Veja isto! Ninguém usa calçados aqui. Que mercado potencial fazer com que essas pessoas comecem a usar sapatos.”

Logo, visionários são não apenas místicos e sábios. Eles abundam em todos os segmentos da vida – nos negócios, na política, na ciência e nos esportes – tanto quanto nas instituições religiosas. Aprender a ver é a base de todas as disciplinas. Na Índia, o berço da mais duradoura civilização do mundo, a palavra usada para “ver” é darshan. A palavra sânscrita darshan tem mais de um significado. Ela também significa “visão de mundo” ou “filosofia de vida”. Darshan capta a essência do ver em seus múltiplos significados. Concede ao ato de ver passivamente uma qualidade de que necessita – uma perspectiva. Tanto a visão quanto a introvisão constituem uma perspectiva. De uma perspectiva clara nós obtemos a clarividência. É a visão que pauta nossas ações como líderes.

Ver é também saber e entender com clareza. Durante um encontro com um empregado com mau desempenho, um líder de equipe pára por um momento e diz ao empregado: “Oh, agora eu vejo o seu ponto de vista.” Nessa “visão”, o líder começa verdadeiramente a compreender o seguidor. Esse tipo de visão tem o mesmo efeito de um gentil toque humano. Visões de alta energia possibilitam que você se relacione com eventos ou pessoas com a qualidade da consciência. Nesse ato, certa energia ou vitalidade trabalha entre aquele que vê e aquele que é visto. Há uma sutil comunicação, uma comunhão entre aquele que vê e aquilo que é visto. Quando um líder estabelece essa comunhão com seus seguidores, a empatia é estabelecida. A empatia é a cola, a real substância que possibilita que líder e discípulo estejam juntos no mesmo caminho.

Enxergar não é apenas receber imagens na retina. É um ato de interpretação. Enxergar é uma reconstrução criativa do nosso universo. Os líderes não se contentam com fatos. Eles têm uma energia muito grande para reorganizar os fatos em novos ideais e em novas visões da verdade. Na vida cotidiana, nós não compreendemos a diferença entre os fatos e a verdade. Ainda dependendo da qualidade da nossa visão, os fatos e a verdade emergem como entidades diferentes. Os fatos são formas congeladas da verdade num determinado espaço e num certo tempo. Os fatos não são a verdade completa, embora eles possam conter certos elementos de verdade. Você pode tirar uma fotografia do oceano e nos transmitir fatos sobre o oceano. Mas pode esse fato abarcar toda a verdade do oceano?

Os fatos podem assemelhar-se à verdade num certo contexto, mas, quando o contexto muda, os fatos também se alteram para se acomodar à verdade. Por exemplo, a maioria das pessoas num certo tempo, na nossa civilização, acreditava que a Terra era tão plana quanto uma panqueca. Marinheiros antigos tinham medo de navegar para muito longe, porque temiam que seus barcos pudessem tombar em um submundo desconhecido. Assim era porque os fatos que enxergavam à sua volta lhes dava uma impressão de achatamento da Terra. Assim que um líder foi suficientemente corajoso para levar seu navio além do que se imaginava ser a margem da Terra, ele viu fatos novos. Esses fatos contradisseram os fatos passados, e a Terra passou a ser reconhecida como uma esfera sólida. Logo depois, novos fatos, na forma de fotografias da Terra tiradas do espaço, nos disseram que o nosso planeta não era redondo, mas que sua forma geométrica era de um esferóide oblíquo. Isso significou dizer que a Terra se assemelha menos a uma bola e mais a uma laranja – ligeiramente achatada nos pólos e levemente protuberante no equador. Mas a verdade, que tem novas maneiras de nos despertar dessa prisão dos fatos, dá-nos agora novos fatos sobre a Terra. O novo líder atual, o físico quântico, dirá a você: “Sabe, esta Terra não é realmente sólida. É uma extraordinária sopa de energia ondulando como uma bolha no espaço vazio.”

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