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Terapia do Encantamento
Explorando a mitologia pessoal

Através da psicologia analítica, de técnicas de RPG e exercícios respiratórios, a terapia do encantamento leva o paciente a sondar seu universo mítico e a lidar melhor com seus conflitos.

Texto Paulo Urban - Ilustrações: Christiane S. Messias
Paulo Urban é médico psiquiatra e psicoterapeuta. E-mail: paulourban@ig.com.br

Podemos definir os mitos como relatos fantásticos que encontram lugar fora do tempo definido. São histórias de caráter simbólico, dotadas de lógica própria, via de regra irracional, originalmente criadas e preservadas pela tradição oral. Seus protagonistas, geralmente, são divindades que encarnam forças primordiais da natureza ou aspectos fundamentais da condição humana.

O termo provém do grego mûthos, que significa fábula ou relato e deriva do verbo muthéin, o qual expressa o ato de inventar histórias. Etimologicamente, está ligado a míthos, que se traduz por fio de teia ou filamento. De fato, é fácil constatar o quanto os mitos têm o poder de nos enredar em suas tramas alegóricas, prendendo-nos ao imaginário coletivo, que os transfere de geração em geração, ao longo dos milênios, perpetuando assim as verdades e os costumes das civilizações que os criam.

Curiosamente, o estudo comparativo das mitologias nos leva a perceber a ocorrência de padrões temáticos universais que se disfarçam aqui e ali sob as mais distintas roupagens, conforme as diferentes culturas que os representam. Histórias do dilúvio, a crença no mundo dos mortos, a lenda do roubo do fogo sagrado, os mitos que personificam a Grande Mãe, ou a figura do bebê predestinado, achado numa cesta à deriva num rio, a imagem do herói que nasce da virgem, a existência de ilhas utópicas, etc. são apenas alguns dos incontáveis grandes temas que se repetem e estão por toda parte. Como entender esse fenômeno? As respostas possíveis não são simples.

Thomas Mann (1875-1955), alemão Prêmio Nobel de Literatura de 1929, em seu quarteto José e Seus Irmãos, escreveu: “Muito fundo é o abismo do passado. Não poderíamos dizê-lo sem fundo? Quanto mais fundo mergulhamos (...), mais descobrimos que as origens da humanidade, sua história e cultura, se revelam insondáveis.”

O mitólogo Joseph Campbell (1904-1987), em sua obra As Máscaras de Deus, aceita o desafio e propõe-se a questionar essa assertiva. Segundo o estudioso, debaixo do tapete arqueológico deixado pelas civilizações primitivas, que constituem um primeiro plano da pré-história de nossa raça, encontramos uma segunda camada referente às centenas de milênios nos quais viveram nossos antepassados remotos, os mais primitivos coletores de raízes e insetos que habitaram o planeta há aproximadamente meio milhão de anos.

Desse período data, por exemplo, o Pithecantropus erectus, nome científico que significa “homem-macaco que anda em pé”, cujos vestígios foram achados pelo arqueólogo francês Eugène Dubois, em 1891, na Java central, Indonésia. Contemporâneo do homem de Java é o de Pequim, Sinanthropus pekinensis, que igualmente apresentava um cérebro de 900cm3, meio caminho entre o gorila mais inteligente (600cm3) e o homem moderno, já que temos em média 1.450cm3 de massa pensante. Desenterrado entre 1921 e 1939 na caverna Choukoutien, o homem de Pequim surpreendeu o mundo; junto dele, além de uma impressionante coleção de utensílios de pedra, ossos e crânios rachados, foram encontradas lareiras! Poderíamos chamá-lo de o primeiro Prometeu, já que nenhuma outra escavação de restos proto-humanos mais antigos revelou que o fogo já tivesse sido dominado. Ademais, vários crânios encontrados estavam furados, haviam sido trepanados com uma técnica precisa a fim de que seu conteúdo fosse sugado em algum estranho ritual. Que crenças teriam esses pré-humanos? Como operava o rudimentar psiquismo desse nosso antepassado?

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