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Entrevista
Caminhos Para a Paz

Afastada hoje do mundo jurídico, a advogada Suzete Carvalho dedica-se a escrever e dar palestras sobre temas essenciais ao desenvolvimento do ser humano. Nesta entrevista, ela faz uma análise da delicada questão da violência no Brasil.

Por Fátima Afonso

Daniel Wainstein

PLANETA – O mundo está passando por um momento de grande violência. No Brasil isso vem ficando mais evidente a partir de vários assaltos, seqüestros e mortes que, diariamente, tomam conta dos nossos noticiários. Quais as principais causas disso?
Suzete – É um pouco difícil falar em causas, porque a violência é alguma coisa muito complexa, tão complexa quanto a vida e o mundo. Se for necessário que se fale em causas, parece-me que uma delas é a diferença econômica entre as pessoas, a má distribuição de renda – isso é importantíssimo.

PLANETA – Essa seria a causa principal?
Suzete – Eu nunca pensei em termos de principal ou não, pois creio que tudo que a gente faz tem alguma importância. Às vezes, é nas pequenas coisas que se dá a grande causa. Agora, não há dúvida de que isso é importantíssimo. Mas existem muitas outras causas, como a questão do consumismo. A mídia apresenta algumas necessidades novas, que parecem básicas para todas as pessoas. Quer dizer, há uma tentativa de se igualar todo mundo, mas isso é irreal porque, na verdade, a maioria das pessoas não tem acesso àquelas coisas que estão sendo oferecidas. E isso desperta, digamos, uma inveja, uma vontade de tê-las a qualquer preço, principalmente nos jovens, que querem ser iguais àqueles da sua idade que são ricos. Quem não tem dinheiro para comprar tênis importado, pára na porta da escola para tirar os dos estudantes.

Carlos Hungria
Policial brasileiro: salário que lhe traz tantas dificuldades econômicas quanto às dos bandidos.

PLANETA – E quando se pensa numa violência como a que aconteceu com o Toninho do PT, ou com o prefeito de Santo André, Celso Daniel, que aparentemente seriam crimes políticos? Qual seria a explicação para eles, o poder?
Suzete – Basicamente, a questão do poder é uma das mais fundamentais. A necessidade de preservar o status a qualquer preço faz com que as pessoas tomem atitudes inimagináveis, violentíssimas muitas vezes. Existe também uma outra coisa que se chama violência simbólica: trabalha-se uma mentira para que a grande maioria das pessoas acredite, por exemplo, que o PT não está agindo corretamente. Pode parecer que uma facção radical do próprio PT esteja fazendo isso, quando, na verdade, o que se quer é fazer do PT um bode expiatório. A coisa é bastante complexa.

Eu acho que o jogo político é muito perigoso e tem meandros aos quais a gente nunca chega. De vez em quando se joga alguém no meio da arena, então se descobre tudo que foi feito por aquela pessoa. Mas isso é para acalmar o clamor popular. A guerra do poder é muito mais violenta do que qualquer outra, porque você não leva em consideração toda a população; não é o desrespeito a um outro indivíduo, mas, muitas vezes, a uma nação inteira.

PLANETA – O que seria, exatamente, a violência simbólica? Em um dos seus textos, você cita como exemplo o salário mínimo irrisório pago no Brasil…
Suzete – A violência é simbólica quando ela apresenta como realidade alguma coisa que está apenas encobrindo uma outra realidade, tornando consenso geral uma determinada idéia. Vou pegar outro exemplo: o dos servidores públicos. Você diz, com absoluta certeza, que os servidores públicos não gostam de trabalhar, são ineficientes e corruptos; leva à população a idéia de que eles ganham bem, que são marajás, enquanto 95% dos servidores públicos ganham R$ 300,00. Assim, você faz a população acreditar em alguma coisa que parece ser uma realidade, mas que está encobrindo, por exemplo, a incompetência maior da administração em fornecer aos servidores públicos condições de trabalho e dar-lhes realmente um salário digno.

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Serviço

Contatos com Suzete Carvalho podem ser feitos pelo e-mail suzicarvalho@uol.com.br

       


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