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Lei do Carma
Além do Fatalismo

Segundo o budismo, longe de promover o fatalismo, a teoria do carma prega a responsabilidade de cada ser humano pelas próprias ações.

Por Traleg Kyabgon
O texto a seguir é um excerto do capítulo 4 do livro A Essência do Budismo, de Traleg Kyabgon, lançado recentemente pela Editora Mandarim. Tradução: Ivo Korytowski.

Luciana de Francesco

No budismo, a idéia de causalidade é importantíssima. O que queremos dizer com causalidade é que nada que existe possui qualquer tipo de essência duradoura. Tudo está inter-relacionado; tudo existe de maneira dependente. Nada pode existir por livre e espontânea vontade. Portanto, tudo o que existe é “causalmente” dependente, seja no plano físico ou mental.

Desse modo, temos de ver a moralidade também em termos de causalidade. A moralidade depende da noção de carma porque este corresponde à lei de causa e efeito no plano moral. Tudo o que fazemos cria certas impressões mentais, que, por sua vez, produzem resíduos cármicos; mais tarde, esses resíduos geram seus resultados quando as causas e as condições apropriadas estão presentes. Quando fazemos algo positivo, saudável e bom, certas impressões positivas são automaticamente deixadas na mente. Elas produzem disposições positivas e saudáveis em nós, de modo que nossas experiências no futuro também serão assim.

Quando olhamos para nós mesmos e para outras pessoas, o funcionamento dessa causa e efeito cármicos pode não ser imediatamente aparente. Por exemplo, pessoas boas que realizam boas ações podem, mesmo assim, estar sofrendo bastante. Elas podem estar doentes, em desvantagem ou oprimidas. E há pessoas que, mesmo sendo ruins, curtem uma boa vida. A teoria da reencarnação ou renascimento é uma extensão do conceito de carma, de modo que temos de examinar o quadro completo em termos de nossa existência anterior. (Eu não gosto de empregar a palavra encarnação porque ela pode implicar uma substância psíquica ou alma preexistente, e o budismo não aceita a existência de uma alma eterna que encarna. No entanto, o budismo acredita em um fluxo de consciência que se transfere de um nascimento para o próximo. Esse fluxo de consciência é uma instância de ocorrência mental que surge devido ao seu próprio impulso interno, bem como a estímulos externos, os quais aparentemente se perpetuam através do tempo. Assim, ele serve de base para a auto-identidade.) Ainda que uma pessoa não tenha feito nada de errado nesta vida, ela pode ter experiências terríveis e indesejáveis devido às ações em uma vida anterior.

Graciela Magnoni
Experiências saudáveis: resultado de ações positivas e das impressões deixadas por elas em nossa mente.

O renascimento não ocorre de forma aleatória, mas é regido pela lei do carma. Ao mesmo tempo, bons e maus renascimentos não são vistos como prêmios e punições, mas como resultados de nossas próprias ações. Por isso, em tibetano, a lei cármica é chamada de le gyu dree, que significa “causa e efeito cármico”. Isso mostra como é importante desenvolver atitudes positivas e saudáveis: o que fazemos está associado ao tipo de pessoa que somos e aos tipos de atitudes mentais que temos. Não podemos separar essas três coisas porque elas estão intimamente relacionadas. Se tivermos pensamentos negativos, nos tornaremos pessoas negativas, e, se nos tornarmos pessoas negativas, teremos atitudes negativas. Por exemplo, se nos entregarmos a pensamentos agressivos e abrigarmos ressentimento ou amargura em relação aos outros, nos converteremos em pessoas agressivas. Quando nos entregamos a pensamentos negativos ou agressivos, eles acabam se transformando em ação, de modo que passamos a expressá-los.

Sem algum discernimento de nós mesmos e de nossas mentes, simplesmente prestar atenção ao que fazemos não nos tornará pessoas significativamente melhores. Por isso, devemos ser mais atentos às nossas intenções e atitudes do que ao nosso comportamento e ações.

Se nos entregamos a pensamentos negativos, passamos a expressá-los.

Não há lugar nos preceitos budistas para expressões de indignação moral. As expressões de emoções negativas desenfreadas, como ódio ou aversão em relação aos oponentes ou aos que não compartilham nossa própria visão de mundo moral, são vistas como causas básicas de nossas fraquezas morais. Uma fixação excessiva no “certo” e “errado’, a crença ilusória de que estamos do lado do bem e do certo, travando uma guerra contra o que percebemos como ruim, entregando-nos a pensamentos e emoções que levariam a ações e conduta prejudiciais, tudo isso deve ser evitado. Como budistas, devemos não apenas nos entregar constante e sistematicamente a ações boas e saudáveis, mas também observar nossos estados mentais internos. O Buda declarou nos Nikayas (sutras páli do cânone budista inicial): “Ó monges, a isto chamo de carma: tendo tido a intenção, age-se pelo corpo, palavra e mente.” Assim, a intenção é mais importante do que a ação. Se nossa intenção for correta e sincera e nossa mente for pura, ainda que não prestemos muita atenção às ações propriamente ditas, conseguiremos agir de forma propícia ao bem-estar dos outros, bem como em favor de nós mesmos.

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