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Turismo
Viagem ao Fim do Mundo

Por Cadmo Soares Gomes

Fotos: Cadmo Soares Gomes
Vista de Fisterra, na região da Galícia: confluência de forças telúricas poderosas.

Não é só um chavão: o fim do mundo existe. Fica em um cabo no oeste da Espanha, na região da Galícia, e chama-se Fisterra (“Fim da Terra”), em galego. O nome, na verdade, vem do latim Finis Terrae, denominação que ganhou no século 1d.C.

Os antigos, que ainda não haviam descoberto as Américas ou a Oceania, acreditavam que o planeta acabava ali, no ponto de terra mais ocidental do mundo conhecido. À frente estava o Atlântico (ou Mar Tenebroso, como era chamado), povoado de monstros e seres sobrenaturais. Somente os míticos navegadores das lendas nórdicas e os heróis gregos – como Ulisses, que dizem ter chegado a Portugal, ali pertinho, e fundado Lisboa – é que se aventuravam naquelas águas incertas.

Tomada do atracadouro: calçada para se passear ao entardecer.

O Sol, que se punha no mar todas as tardes, dava ao homem a impressão de que morria, de modo tal que a última praia da Europa, naquele cabo, era e ainda é conhecida como Costa da Morte, inclusive pela ferocidade de suas ondas e as perigosas escarpas de seus rochedos. Aquela área de mar é considerada uma das mais perigosas do mundo para a navegação, e os registros de naufrágios ali são incontáveis em todas as épocas.

A gente européia sempre peregrinou até o Fim da Terra. Tomado como lugar de confluência de forças telúricas poderosas, desde os primitivos iberos, passando pelos celtas e até hoje os cristãos, ir até lá é uma espécie de rito, pelo qual se inicia simbolicamente uma nova vida. A tradição estabelece que ao chegar ao Fim da Terra, entre outros rituais, deve-se queimar as velhas roupas e calçados, despir-se, tomar um banho no oceano gelado e devolver uma concha ao mar.

Caminho para o farol: paisagem para ser saboreada com tranqüilidade.

Nos dias atuais é comum que a viagem até o Fim da Terra constitua o fecho de uma peregrinação a Santiago de Compostela. Os dois lugares são muito próximos, ficam na mesma região. Muitos intrépidos peregrinos prosseguem a pé de Santiago até lá – são mais três dias de caminhada. A maioria, porém, vai de ônibus, em três horas.

Fisterra é uma cidadezinha junto ao cabo. Tem cerca de três mil habitantes. Hospitaleiro e singelo lugar de tradição pesqueira, típica vila marinheira, a imensa mole de seu atracadouro é uma bela calçada para se passear ao entardecer, observando as revoadas de gaivotas e os barcos que chegam com a carga do dia. Não há como não se enternecer ao observar o ocaso e ver a luz do farol que marca aquele ponto ocidental, além do qual se encontra o Novo Mundo. Se se pudesse atravessar nadando, a chegada seria no Brasil.

Farol do Monte Facho: parada obrigatória para o turista.

Além dos excelentes restaurantes de frutos do mar do local, é preciso visitar a cidade para desfrutá-la por completo. Descobrir suas ruas estreitas, seus becos e escadarias. Conversar com sua gente, amabilíssima e sempre solícita com os forasteiros, escutando o som bonito da língua galega, mãe da nossa língua portuguesa e tão semelhante a ela que parece que se está aqui mesmo. Visitar a igreja de Santa Maria das Areias, de base arquitetônica românica do século 12, um magnífico cruzeiro gótico do século 15 e a talha do Cristo da Barba Dourada, do século 16. Passar uma tarde no Farol do Monte Facho, conhecer o castelo de San Carlos, edificado sobre os rochedos da costa, trilhar pela costa até as chamadas Pedras Santas, explorar as ruínas da remota capela de San Guillermo, onde símbolos celtas nas rochas compartilham espaço com um leito de pedra no qual mulheres inférteis costumavam vir passar a noite na esperança de engravidar (devidamente abençoadas pela Igreja, é bom dizer). Por fim, é obrigatório fazer uma visita à Prefeitura (Concello) para receber o carimbo do Fim da Terra no passaporte, comprovando a sua visita ao local.

Quebra-mar de Fisterra: bandeira do Brasil permanentemente hasteada.

Não consegui descobrir como nem por que, mas no quebra-mar de Fisterra há cinco bandeiras permanentemente hasteadas: Espanha, Galícia, União Européia, Alemanha e Brasil. Por que Brasil? Talvez porque muitos galegos tenham emigrado para cá. Sei que há alguma relação. Afinal, no século 19, um dos maiores nomes da literatura espanhola, Rosalía de Castro, galega de nascimento, escreveu em sua língua: “Se o mar tivesse varandas, eu iria ver-te no Brasil, mas o mar não tem varandas, amor meu, por onde hei de ir?”

 

       


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