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De olho no futuro
As Previsões em Xeque

Todo início de ano, não faltam videntes e afins fazendo previsões
na imprensa em geral sobre os meses que virão. Mas, se, tempos
depois, resolvermos conferir os erros e acertos, descobriremos que
muito pouco do previsto se concretizou.

Por Júlio César Borges

Wesley Rodrigues
Instrumentos de previsão: trabalho, na maioria das vezes, insatisfatório.

É inevitável: a cada virada de ano, parte da imprensa convoca astrólogos, tarólogos, leitores de búzios, cartomantes e o que mais conseguir reunir no terreno das artes divinatórias para anunciar previsões para os 12 meses seguintes. A lista de “novidades” provavelmente inclui aviões que vão cair, enchentes e seca que causarão turbulências, terremotos que assolarão outros países, artistas e políticos que vão namorar, casar, separar-se, ficar doentes ou morrer. Muita gente aprecia esse tipo de “notícia”, mas lhe atribui um grau de atenção semelhante ao dedicado às fofocas semanais: é artigo descartável, que já estará esquecido na edição seguinte. Ainda bem para os autores das previsões: em geral, o material que divulgam oscila entre obviedades, ambigüidades e erros crassos.

No balanço geral, esse tipo de trabalho é prato cheio para quem não acredita que o futuro possa ser previsto. Hoje em dia, porém, sabe-se que, em certa medida, isso é possível. Até mesmo o mais ardoroso defensor do livre-arbítrio e do indeterminismo pode reconhecer, na vasta bibliografia disponível sobre o assunto, a existência de casos bem pesquisados nos quais algumas ocor- rências foram antecipadas – em sonhos, visões espontâneas ou induzidas por algum sistema divinatório. No campo da ciência ortodoxa, a própria física aceita, em tese, que o tempo é relativo e podemos ter acesso ao futuro e ao passado.

Luciano Andrade
Seca no Nordeste: “novidade” óbvia e freqüente nas predições dos falsos profetas.

O ser humano tem seu livre-arbítrio, mas certos fatos surgem como inevitáveis, irrompendo como se já estivessem mesmo programados. No livro Time and Space (Time-Life Books), é citado um caso curioso que serve como exemplo dessa inexorabilidade. Uma jovem que trabalhava como doméstica no País de Gales contou ter visto, com riqueza de detalhes, um acidente durante a hora do lanche: a governanta da casa tentava passar a um menino uma jarra com chocolate quente quando esta lhe escapou das mãos, espatifando-se no assoalho, e o líquido formou no chão uma mancha semelhante a uma ameba. A moça observava a jarra quebrada quando, de súbito, a cena foi interrompida e recomeçou, como se uma fita de vídeo fosse rapidamente rebobinada e reexibida. Dessa vez, ela tentou evitar o acidente, gritando para a governanta não pegar a jarra. Mesmo assim, ela a pegou e a cena se repetiu como na primeira vez. A doméstica observou: “Disseram que, se eu não tivesse gritado, a coisa toda não teria acontecido...”

Se o futuro é, então, acessível a certas pessoas, o que ocorre com essas previsões anuais? Excluindo as fraudes explícitas, o problema parece residir nas previsões em série, feitas em esquema industrial. Os vários exemplos de antevisões do futuro documentadas e bem-sucedidas referem-se a predições esparsas, nas quais o vidente passava por tais experiências raramente ou (na maioria dos casos) uma única vez. Já quando a pesquisa busca alto índice de eficiência no currículo de profetas profis- sionais, não encontra praticamente ninguém. Durante boa parte da década de 80, o engenheiro de minas e astrólogo Adonis Saliba fez previsões anuais sobre o Brasil e o mundo a pedido de PLANETA. Reconhecido por seu trabalho sério na astrologia, ele disse, numa entrevista a esta revista, que considerava elevadíssimo um índice de 70% de acerto nesse tipo de previsão e dava-se por satisfeito quando essa porcentagem ultrapassava os 50%.

Número baixo? Pois é muito difícil alcançá-lo nesse meio. Até mesmo personalidades que ganharam fama com profecias não conseguiram chegar a ele.

Tome-se, por exemplo, Nostradamus, o célebre médico francês do século 16. Não parece haver dúvida de que ele era bem-intencionado: conquistou credibilidade ao tratar com êxito de pacientes acometidos pela peste nas cidades da região de Mont- pellier, na Provença, e não fazia sangrias indiscriminadamente, como seus colegas de época. O início da divulgação de seus dons proféticos, ocorrido após uma dura crise interior – a perda da mulher e dos filhos, vitimados pela doença que ele curara em tantas outras pessoas –, teve como ponto alto o reconhecimento, num jovem monge franciscano com quem cruzou na estrada, do futuro papa Sisto V.

Regis Filho
Adonis Saliba: satisfação quando suas previsões astrológicas ultrapassam 50% de acertos.

Depois de seis anos de viagem, Nostradamus voltou a estabelecer-se como médico na Provença em 1544. Casou-se de novo e passou gradativamente a dedicar mais tempo às profecias, baseado em seus conhecimentos de astrologia e magia. O primeiro de seus calendários – panfletos em que ele fazia previsões para o ano seguinte – surgiu em 1550. Não demorou para ele concentrar esforços numa obra mais ambiciosa: as Centúrias, cujo alcance profético se estenderia até o ano 3797 e lhe garantiria o renome através dos séculos.

Compostas num francês arcaico para a época e deliberadamente herméticas, as 942 estrofes das Centúrias são um desafio para qualquer pessoa que se proponha a decifrá-las. Esse emaranhado obscuro originou um próspero negócio editorial (pelo menos até o final do século passado): a interpretação dos versos. Um mesmo trecho pode, dependendo do autor escolhido, falar de um fato ocorrido tanto no século 16 como no 20. É praticamente impossível extrair uma leitura fluida e convincente dessa obra.

Nem mesmo uma das estrofes que obtiveram mais consenso escapou da polêmica. Ela se referiria ao rei francês Henrique II, marido de Catarina de Médici (ambos contemporâ-neos de Nostradamus): “O jovem leão superará o velho/ no campo de batalha em um combate;/ Numa gaiola de ouro, perfurará seu olho./ Esta é a primeira de duas ceifas, então ele morre de cruel morte”, diz o texto. Segundo os intérpretes, os versos fazem menção à morte do monarca após ser ferido no olho, em 1559, numa competição no palácio, e ao assassinato de seu filho Henrique III, 30 anos depois (a “segunda ceifa”). Mas os críticos reuniram argumentos fortes contra a precisão dessas predições; segundo eles, os 40 anos de Henrique II e os 34 de seu oponente não configurariam uma luta entre um jovem e um velho; o elmo do rei não era dourado; e o local da contenda – um campo de torneio – não corresponderia ao “campo de batalha” do verso.

 

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