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Vida, Morte e Renascimento
Os Mistérios da iniciação

Toda cerimônia de iniciação dramatiza transformações profundas
na vida do ser humano, assinalando sua morte simbólica para a
antiga vida e fazendo-o renascer para um novo estágio da alma.

Por Paulo Urban
Paulo Urban é psicoterapeuta junguiano e médico psiquiatra. E-mail: paulourban@ig.com.br

Lew Parrella

Mistério é palavra grega (mystérion) e significa “o que é secreto”. Provém do verbo myéin, usado quando devemos “calar a boca”. Daí que mystes se refere a tudo aquilo que se fecha; é o iniciado que, calado, conhece e guarda. Mesma raiz têm os termos mystikós (a designar o místico, aquele que penetra nos segredos) e myesis (referente aos ritos mediante aos quais a sabedoria é preservada).

Esclarecedora é a tradução latina: myéin = initiare; myesis = initiato; em português: “iniciar” e “iniciação”. Como diz o nome, iniciação é a senda de todo aquele que deseja retirar-se da vida profana para iniciar-se no saber sagrado. Os mistérios, antes de tudo, constituem um caminho de renascimento, regrado pelo secreto sentido da vida. Acha-se implícito aqui o tema da morte simbólica, principal etapa a ser vencida por todo candidato que se proponha a renascer na luz espiritual.

As cerimônias de iniciação compõem um fenômeno universal, comumente discutido por mitologistas e antropólogos. Resgatamos sua ocorrência desde as mais priscas eras. Já na Pré-história há evidências indiscutíveis de crenças firmadas em outra vida além desta, como nos atestam as sepulturas do homem de Neanderthal, predecessor remoto de nossa espécie Homo sapiens, que datam de 200 mil anos. Ali foram encontradas provisões, além de esqueletos de animais sacrificados, junto dos corpos enterrados em posição fetal e no sentido leste-oeste, a sugerir que a alma ou algo desse gênero tomasse a direção do Sol para renascer em algum mundo desconhecido do pós-morte.

Gravura do russa do século 19 
Para merecer o título de xamã, o indivíduo das sociedades primitivas tinha de passar por rituais iniciáticos, que dramatizavam a mudança em sua vida.

Com o evoluir da humanidade, os ritos iniciáticos tornaram-se prática constante, presentes nas mais díspares sociedades, primitivas ou não. Sob o aspecto sociológico, tais cerimônias visavam dramatizar uma mudança significativa no status de cada iniciado, quer para conferir-lhe novas aptidões transformando-o, por exemplo, num xamã, sacerdote, caçador, etc., quer para transmitir-lhe solenemente algum saber secreto próprio da cultura, geralmente capaz de perpetuá-la, fossem as leis supremas da natureza ou a prática da agricultura.

Na Antigüidade clássica, as iniciações eram processos já bem desenvolvidos, patrocinados por diferentes cidades, não mais ocorrendo somente nos campos considerados sagrados, senão em templos erigidos e dedicados às suas divindades. Antes de fundar em Crotona sua escola de filosofia e esoterismo, Pitágoras (séc. 6a.C.) migrou por 22 anos pelo Egito e Babilônia, submetendo-se a duras provas que fizeram dele um mestre.

Há exemplos inatos de iniciações entre os povos indígenas e tribos de toda a espécie, que dramatizam as grandes experiên-cias da vida por meio de ritos de maioridade, matrimônio, ritos funerários, ou ainda aqueles em que o iniciando recebe o espírito de entidades animais, capazes de lhe emprestar seus atributos, como o caráter predador necessário a todo guerreiro.

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