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Tantra
Luz Para a Era das Trevas

Segundo a filosofia hindu, o homem avançou de uma era dourada
para períodos de progressivo declínio espiritual. Os ensinamentos
tântricos seriam uma espécie de evangelho para os que vivem na
atual era das trevas e buscam a iluminação

Por Georg Feuerstein
O texto a seguir é um excerto da introdução do livro Tantra – Sexualidade e Espiritualidade, de Georg Feuerstein, lançado recentemente pela Nova Era. Tradução: Gilson B. Soares.

Martinez

Tantra é um termo sânscrito que, como o termo ioga, tem muitos significados distintos, mas basicamente relacionados. No nível mais mundano, denota teia ou urdidura. Deriva do radical tan, no sentido de expandir. Esse radical também forma a palavra tantu (fio ou cordão). Enquanto um fio é alguma coisa extensiva, uma teia sugere expansão. Tantra pode também representar sistema, ritual, doutrina e compêndio. Segundo explicações esotéricas, tantra é o que expande o jnana, que pode significar conhecimento ou sabedoria. O falecido Agehananda Bharati, um austríaco, professor de antropologia na Syracuse University e monge da ordem dashanami, argumentava que só o conhecimento pode ser expandido, não a sabedoria imutável. Mas isso não é inteiramente correto. A sabedoria, embora co-essencial com a realidade e, portanto, perene, pode ser expandida no sentido de informar mais e mais o praticante espiritual. Esse processo é como colocar uma esponja num tanque raso de água. Ela suga aos poucos a água e se torna completamente encharcada de umidade. Assim, enquanto a sabedoria é sempre a mesma, ela pode também, paradoxalmente, crescer dentro de uma pessoa. Ou, colocando de modo diferente, uma pessoa pode crescer para refletir cada vez mais a sabedoria eterna.

Mas tantra é também a Realidade expansiva, que abrange tudo, revelada pela sabedoria. Tal como representa continuum, o todo inconsútil que compreende tanto a transcendência quanto a imanência, Realidade e realidade, Ser e tornar-se, Consciência e consciência mental, Infinidade e finitude, Espírito e matéria, transcendência e imanência, ou, na terminologia do sânscrito, nirvana e samsara, ou brahman e jagat. Aqui as palavras samsara e jagat representam o mundo familiar do fluxo que experimentamos através de nossos sentidos.

Historicamente, tantra denota um estilo particular ou gênero de ensinamentos espirituais que começou a ganhar espaço na Índia cerca de 1.500 anos atrás – ensinamentos que afirmam a continuidade entre espírito e matéria. A palavra também significa uma escritura na qual tais ensinamentos são revelados. Por extensão, o termo é freqüentemente aplicado a livros, a textos didáticos e a manuais em geral. A tradição fala de 64 Tantras, embora, juntamente com os 108 Upanishads, esta seja uma cifra ideal, que não reflete a realidade histórica. Conhecemos muitos outros Tantras, embora poucos deles tenham sobrevivido à ação do tempo.

Um praticante do tantra é chamado de sadhaka (se homem) ou de sadhika (se mulher). Outras expressões são tantrika ou tantra-yogin (se homem) e tantra-yogini (se mulher). Um iniciado na trilha tântrica é tipicamente conhecido como um siddha (ser consumado, de sidh, significando estar consumado ou alcançar) ou maha-siddha (ser grandemente consumado, ou seja, um grande iniciado). A mulher iniciada é chamada siddha-angana (de anga, significando membro ou parte. A própria filosofia tântrica é freqüentemente chamada de sadhana (do mesmo radical de siddha), e a conquista espiritual dessa trilha é chamada siddhi (tendo o significado dual de perfeição e consumação poderosa). Siddhi pode denominar tanto a obtenção espiritual da libertação, ou iluminação, quanto os extraordinários poderes ou capacidades paranormais atribuídos aos mestres tântricos como conseqüência da iluminação, ou em virtude do domínio dos estágios avançados de concentração. Um preceptor tântrico, esteja ele iluminado ou não, é chamado tanto de acarya (condutor, relacionado a acara, meio de vida) quanto de guru (ser influente).

Um Ensinamento para a Idade das Trevas – O Tantra compreende a si mesmo como um evangelho para a nova era das trevas, a kali-yuga. De acordo com a visão do mundo hindu, a história se desdobra num padrão cíclico que avança de uma era dourada para eras de progressivo declínio espiritual, e depois de volta a uma era de luz e fartura. Essas eras são chamadas yugas (cangas), presumivelmente porque elas prendem os seres à roda do tempo (kala-cakra), ao fluxo da existência condicionada. Há quatro dessas yugas, que se repetem indefinidamente, o tempo todo maturando todos os seres, mas especialmente os humanos. As escrituras falam desse processo de desenvolvimento como cozimento. As quatro eras do mundo são, nesta ordem:

1) A satya-yuga, na qual a verdade (satya) reina suprema, e que é também conhecida como krita-yuga porque tudo nela é bem-feito (krita)
2) A treta-yuga, na qual a verdade e a virtude são de alguma forma reduzidas.
3) A dvapara-yuga, na qual verdade e virtude são ainda mais reduzidas.
4) A kali-yuga, que é marcada por ignorância, fraude e cobiça.

 

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