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Entrevista
LÉO PESSINI
A Ética da Vida

Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Bioética do Centro Universitário São Camilo, em São Paulo, o padre Léo Pessini fala aqui de temas que devem, cada vez mais, ocupar espaço no nosso cotidiano: bioética, clonagem, distanásia e morte social.

Por Fátima Afonso

Arquivo Léo Pessini

PLANETA – A bioética é uma “ciência” ainda nova (tem, oficialmente, cerca de 30 anos) e seu campo de ação transpõe os limites da medicina. Como o senhor a definiria?
Léo Pessini – Entendo a bioética como sendo um brado pela dignidade humana e por mais qualidade de vida. Trata-se de um grande lance de esperança para a humanidade na perspectiva de defender a vida no sentido mais amplo possível, para além do âmbito humano, abrangendo o nível cósmico e ecológico. Aqui não podemos esquecer da intuição pioneira de quem cunhou esse neologismo, Van Rensselaer Potter, um oncologista norte-americano, pesquisador da Universidade de Wisconsin, falecido recentemente (6/9/2001). Potter escreveu o primeiro livro de bioética em 1971, Bioethics: Bridge to the Future (“Bioética: Uma Ponte Para o Futuro”), definindo-a como sendo a “ciência da sobrevivência humana”. Num de seus últimos escritos sobre “bioética global e sobrevivência humana”, Potter fala da necessidade de se pensar a bioética como uma “nova ciência ética que combina humildade, responsabilidade e uma competência interdisciplinar, intercultural, e que potencializa o senso de humanidade”.

Hoje as discussões bioéticas são acaloradas no que tange a seu estatuto epistemológico, à sua abrangência temática, a seus paradigmas, à sua fundamentação teórico-filosófica. Enfim, quer seja considerada como disciplina, quer como ciência ou mero desdobramento da filosofia moral no capítulo da “ética aplicada”, ou ainda como um novo movimento cultural, não há dúvida de que se trata de um novo capítulo da reflexão ética/moral que revela uma nova sensibilidade para a promoção e cuidado da vida no sentido mais amplo possível e do ser humano em particular. Isso num momento crucial da história humana em termos de possibilidades de intervenções e manipulações que podem comprometer o futuro da humanidade na face da Terra.

Não estamos reinventando a roda, e muito menos se trata de um novo modismo. Na sua essência, trata-se da discussão dos valores éticos frente aos fantásticos progressos técnico-científicos que estão mudando completamente a vida na Terra. A ética existe desde que o ser humano se pergunta a respeito do sentido de sua ação e relação com os outros.

PLANETA – Até que ponto a bioética sofreu a influência da moral filosófica e religiosa?
Léo Pessini – Gostaria de lembrar duas afirmações. Uma de Albert Einstein, que disse: “A ciência sem religião é paralítica; a religião sem a ciência é cega”, e do papa João Paulo II ao afirmar que “a ciência pode purificar a religião do erro e da superstição. A religião pode purificar a ciência da idolatria e do falso absolutismo”. É preciso registrar que a bioética nasceu no contexto tecnocientífico, numa sociedade abastada, que é a norte-americana, em meio aos pesquisadores e cientistas, em centros de pesquisa de alta tecnologia, que se perguntaram e se questionaram a respeito da utilização ou não de determinadas tecnologias que interferem profundamente na vida do ser humano. Esses cientistas perceberam que a tecnociência sem ética torna-se grande risco para a humanidade. Frente ao imperativo tecnológico, temos de contrapor o imperativo ético.


A bioética, portanto, não nasceu na Igreja, na sacristia ou no convento. Ela vai além da discussão da teologia moral, que procura refletir sobre a vivência dos valores cristãos no cotidiano da vida. Claro que entre os primeiros pioneiros da bioética temos inúmeros filósofos e teológos, por exemplo, Daniel Callahan (filósofo do Hastings Center), Joseph Fletcher (episcopaliano), Paul Ramsey (metodista), Richard McCormik (católico) e Alber Jonsen (católico), só para citar alguns pioneiros.

No contexto pluralista que vivemos hoje, em inúmeros âmbitos da vida humana, uma das principais características da bioética é a busca da verdade ou do consenso mínimo frente a determinadas questões polêmicas que dizem respeito a toda a humanidade, mediante o diálogo aberto e respeitoso frente ao que é diferente, em suma, plural. E isso não é nada fácil num momento histórico em que a humanidade sofre a agressão de ideologias fundamentalistas de cunho religioso, que proclamam possuir a verdade dos céus e querem impô-la à humanidade.

Claro que a bioética que não levasse em conta os valores culturais e religiosos do povo seria algo fictício e não ajudaria em nada. Acredito que a ética teológica tem uma contribuição importante a dar no sentido de resgatar, nesse cenário, os valores antropológicos cristãos que construíram a civilização ocidental, e que dão sentido à existência humana e à convivência social. Falamos assim de duas concepções de bioética: uma de cunho laico/secular e outra de cunho religioso, que a meu ver não se excluem, cujo diálogo é um dos grandes desafios que precisamos aprofundar.

 

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