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No caminho do sagrado
Combatendo a picaretagem espiritual

Para não ser vítima das falsidades que envolvem a busca espiritual,
é preciso, antes de mais nada, eliminar o processo de auto-ilusão.

Por Carlos Cardoso Aveline

Ilustração: Christiane S. Messias

A vida é um grande teste para o discernimento daquele que procura viver em paz consigo e com os outros. Luz e sombra, verdade e mentira, joio e trigo se misturam a cada instante no agitado mundo humano. Em conseqüência disso, a confiança cega raramente é uma boa base para as relações humanas e sociais. A qualidade dos relacionamentos só tem a ganhar quando eles se guiam por princípios como a transparência, o controle democrático e o livre acesso à informação. A abertura ao diálogo e ao questiona- mento é um gesto preventivo que impede o surgimento da hipocrisia, das maldades açucaradas e das mentiras que parecem verdades.

Nenhum grupo ou instituição está livre de enfrentar o desafio da desonestidade. Nem sempre há um grau absoluto de sinceridade na relação de casal, entre amigos, irmãos ou colegas de trabalho. Em qualquer profissão, país ou religião, há gente honesta e boa, mas, ao mesmo tempo, há outras pessoas que se julgam muito espertas. A possibilidade de picaretagem está presente em todas as atividades humanas.

Prensa Três
Nenhum grupo ou instituição está livre de enfrentar o desafio da desonestidade.

Há, também, ilusões e falsidades que envolvem a busca de ideais, a prática espiritual e a vivência do sagrado. Elas afetam diretamente a relação da pessoa com sua alma imortal. Por isso, os líderes comunitários ou espirituais e todos os grupos voltados para o bem comum deveriam ser especialmente cuidadosos com questões como a capacidade de aprender com os próprios erros, a aceitação de opiniões divergentes, a liberdade de pensamento e a coerência entre discurso e prática.

Sempre que a ilusão envolve mais de uma pessoa, a velha lei da oferta e da demanda entra em vigor. Se alguém engana, é porque uma outra pessoa está aceitando ser enganada, ou, às vezes, até buscando isso inconscientemente. O cidadão que procura desesperadamente um alívio para os seus sofrimentos, mas prefere não assumir responsabilidade direta sobre sua vida, acaba criando uma grande oportunidade para a picaretagem. Uma tarefa dos líderes do século 21 é eliminar da cultura humana aquele messianismo pelo qual se cria a ilusão de que algum salvador providencial – político, religioso, etc. – fará, sozinho, a tarefa que é de todos e de cada um. Não há muletas no processo da libertação, seja ela política, social ou espiritual. O salvador todo-poderoso e o picareta espertalhão são, quase sempre, as duas faces da mesma moeda falsa, aceita por aquele que pretende alcançar a libertação sem esforço próprio.

Redon, O Buda/Museu do Louvre, Paris
Gautama Buda: conselho a seus discípulos para que ocultassem as grandes obras e mostrassem os seus pecados.

A escritora Helena Blavatsky conta que há cerca de 2.500 anos o grande rei Prasenajit, amigo e protetor de Gautama Buda, sugeriu ao mestre que ele fizesse milagres públicos. Assim, ele iria demonstrar a todos a força da sua sabedoria. Gautama respondeu: “Grande rei, eu não ensino a Lei aos meus discípulos dizendo-lhes que usem os seus poderes sobrenaturais para fazer, diante dos brâmanes e dos notáveis, os maiores milagres que o homem já viu. Eu lhes digo, quando ensino a Lei: ‘Vivam, ó santos, ocultando suas grandes obras e exibindo seus pecados’.”(1) Este ensinamento não é exclusividade do budismo. No Novo Testamento, Jesus Cristo dá um exemplo de completa humildade pessoal e, em momentos decisivos do Evangelho, recusa-se a fazer milagres ou demonstrar os seus poderes, mesmo sabendo que, por isso, será torturado até a morte. São Francisco de Assis sempre falou de si como de um pecador: os outros é que o reconheciam como santo. A vida dos grandes místicos das várias religiões mostra atitude semelhante, e não por acaso.


Notas:
(1) Ísis Sem Véu, de Helena P. Blavatsky, Ed. Pensamento, SP, edição em quatro volumes. Ver o volume II, p. 272.


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