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Islamismo
Uma Religião de Luz e Sombras

O islamismo é uma religião de grandes controvérsias: ao longo do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, pregações de paz e benevolência estão distribuídas ao lado de versos que incitam à guerra. Enquanto o Islã não questionar seus dogmas e preconceitos, continuará disseminando o ódio e a violência.

Por Carlos Cardoso Aveline

Kayan/Sipa-Press

Dividida entre o mundo animal e o mundo divino, a natureza humana é contraditória. Céu e terra lutam em nós a cada instante, e essa contradição se reflete nas escrituras das religiões. É o caso do islamismo. Nesta tradição cheia de contrastes, inaugurada pelo profeta Maomé no século 7 da nossa era, a mais bela espiritualidade se mistura à mais completa ignorância. A fé do Islã possui pérolas de sabedoria e beleza incomparáveis. Mas, ao lado delas, alguns pontos escuros justificam o ódio, a violência e o preconceito.

Dentro e fora do islamismo, as formas tradicionais de religiosidade estão diante de um dilema: mudar ou desaparecer. O cidadão do século 21 rejeita dogmas. Ele exige compreender tudo aquilo em que acredita, e busca uma coerência maior entre palavras e atos, com menos distância entre luz e sombra. O Islã – assim como o cristianismo, o judaísmo e outras antigas religiões – necessita reencontrar sua fonte mais profunda de inspiração e libertar-se das superstições ignorantes. Assim poderá cumprir seu papel na construção da civilização global solidária e multirreligiosa que lentamente começa a emergir.

Prensa Três
João Paulo II: autocrítica e pedido de desculpas por erros cometidos pela Igreja católica.

A capacidade de fazer autocrítica é um indicador decisivo. Ela reflete o grau de vitalidade interna de um movimento religioso. Em novembro de 2001, o papa João Paulo II, líder dos católicos, usou a Internet para pedir perdão aos povos indígenas australianos “pelas vergonhosas injustiças” cometidas por padres e outros sacerdotes na região. Desde março de 2000, João Paulo assumiu uma atitude renovadora. Ele pediu perdão aos judeus pelo anti-semitismo do Vaticano. Lamentou os erros do catolicismo cometidos contra os cristãos ortodoxos e contra a população e a cultura da China. Pediu desculpas publicamente pelos erros do Vaticano em relação às outras religiões. Fez autocríticas em relação às Cruzadas, à Inquisição e à perseguição de cientistas. O Vaticano condenou Galileu, por exemplo, pelo “crime” de afirmar que a Terra girava em torno do Sol. O papa também lamentou a cumplicidade da Igreja romana com a perseguição e o massacre de negros e de índios, e o seu apoio a ditaduras sangrentas. Na Alemanha, a Igreja católica decidiu indenizar as famílias das vítimas do seu envolvimento com o nazismo. Na época, a Igreja foi beneficiada pelo trabalho escravo de judeus perseguidos pelo regime assassino de Adolf Hitler. Na Argentina, em setembro de 2000, a Igreja católica fez uma séria autocrítica pública por seu envolvimento com a ditadura militar do século 20, que matou milhares de civis indefesos.

Giuseppe Bizzam
As injustiças sofridas ainda hoje pelas mulheres indianas destoam da sabedoria do hinduísmo.

O exemplo dado pelo Vaticano merece o respeito de todos, e deve ser seguido por outras religiões. Inclusive pelo hinduísmo. Embora a literatura hindu seja de uma profundidade e uma sabedoria extraordinárias, um costume secular, seguido pela burocracia sacerdotal até o século 19, forçava a morte das viúvas em cerimô-nias públicas chamadas de sati. Em tais rituais “sagrados” as mulheres eram queimadas vivas, junto com os corpos dos seus maridos. A palavra sati significa, literalmente, “boa esposa”. Até hoje a mulher é desrespeitada na Índia. Mas isso não é tudo. No início do budismo, o hinduísmo ortodoxo matou milhares de seguidores da nova religião, que foi reconstruída na China. E, mesmo na atualidade, amplos setores do hinduísmo justificam a violência contra os seguidores do islamismo.

Também há um fanatismo religioso judaico. Grupos extremistas do judaísmo promoveram em 1995 o assassinato do próprio primeiro-ministro israelense, Yitzhak Rabin, considerado “criminoso” pelo fato de desejar a paz com os palestinos. No budismo não parece haver erros tão graves ou tão numerosos quanto em outras religiões, em parte por se tratar de uma tradição muito filosófica, com forte tom libertário. Mesmo assim existem ritualismos em excesso, superstições e hipocrisia. Tem havido erros, assassinatos e alta traição, inclusive no Tibete budista anterior à invasão chinesa. O próprio dalai lama atual sofreu atentado envolvendo alta traição, durante sua juventude. O filme Kundun, de Martin Scorsese, que pode ser encontrado nas locadoras, mostra esse episódio específico e revela a decadência geral do alto clero budista no Tibete do início do século 20. Esse fato tem uma relação, naturalmente, com a invasão chinesa que ocorreu mais tarde.

As religiões estão diante de um dilema: mudar ou desaparecer.

É nesse contexto amplo que o Islã, longe de ser uma exceção, também necessita rever algumas das suas práticas mais sectárias. Afinal, a transparência e a aceitação honesta dos erros enobrecem qualquer instituição. Um dos pontos básicos, por exemplo, diz respeito às mulheres. O capítulo quatro do Alcorão, dedicado a elas, considera as mulheres propriedade do homem, uma vez que ele tenha dinheiro suficiente para sustentá-las. No mesmo capítulo, o Alcorão afirma:

“Os homens têm autoridade sobre as mulheres porque Deus os fez superiores a elas e porque gastam dinheiro para sustentá-las. As boas esposas são obedientes e guardam sua virtude na ausência do seu marido, conforme Deus estabeleceu. Quando vocês tiverem medo de que elas se rebelem, exortem-nas, expulsem-nas da sua cama e batam nelas.” (...)(1)

Nota
(1) O Alcorão, tradução de Mansour Challita, Edição da Associação Cultural Internacional Gibran, RJ. Sobre a mulher, ver cap. 4, versículos 34 a 36, pp. 42-32.

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