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Entrevista
IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
O Marco Zero de Planeta
Primeiro editor de PLANETA, que este ano estará completando
30 anos, o escritor Ignácio de Loyola Brandão resgata aqui
um pouco da história da revista e fala das transformações
que passou depois de se deparar, em 1996, com um aneurisma
cerebral.
Por
Fátima Afonso
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Daniel Wainstein |
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PLANETA
Quando você foi convidado para dirigir PLANETA,
em 1972, Luís Carta, que foi um dos fundadores da Editora
Três, definiu a revista como diferente e estranha. Ele
estava correto na sua definição?
Loyola Eu diria que sim. Claro que PLANETA era
uma revista absolutamente estranha, insólita, singular.
Quando ela apareceu, de forma totalmente inesperada, o mercado
era muito diferente do que é hoje. Agora você
tem centenas de publicações. Inclusive, eu diria
que ela foi uma das primeiras revistas segmentadas. As revistas
eram todas de caráter geral, femininas, masculinas
ou de informação. E PLANETA não; ela
tinha o nicho dela, muito específico, de gente interessada
num determinado tipo de conhecimento, que não era o
usual. Então, quando ela saiu, foi um espanto.
PLANETA Na França, ela nasceu bem antes do que
no Brasil...
Loyola Muito antes. Ela já tinha pelo menos
12 anos ou mais. Quando o Luís comprou os direitos,
o Jacques Bergier, que fundou a revista com o Louis Pawels,
já tinha morrido. Quando fui para a França buscar
o material da revista, a redação já estava
meio desativada, mas eu conheci o Pawels. E foi interessante
porque ele era um homem de direita, mas para mim mostrou-se
uma pessoa sedutora, encantadora. Já Bergier era de
esquerda, foi da resistência. Esses dois se uniram e
fizeram essa revista.
Curiosamente, a revista morreu na França e renasceu
aqui, vivendo muito mais do que no lugar de origem, que era
considerado um país do espírito, da luz. Eu
acho que muita coisa do meu livro Zero talvez tenha sido feita
porque eu já fazia PLANETA.
PLANETA Zero nasceu nessa época?
Loyola Quando eu fazia PLANETA, estava acabando
o Zero ainda. Mas essa ousadia da revista, as experimentações,
essa coisa da inquietação, de não desconfiar
das coisas, tudo isso foi muito bom para mim. Acreditar que
no mundo há coisas que a gente não conhece,
que há algo oculto, isso eu aprendi. Há coisas
aí de um outro lado que a gente não sabe o que
é.
Eu sempre achei mundos paralelos um tema fabuloso essa
era uma das coisas que eu mais gostava de PLANETA. Será
que tem algum outro mundo igual a este? Parece ter. Por que
eu ouço barulhos estranhos na minha casa que não
vêm de lugar nenhum?
PLANETA O que significou, para um jornalista de raízes
marxistas, trabalhar durante cerca de cinco anos com uma publicação
que tocava diretamente em temas espiritualistas?
Loyola Na verdade, nunca fui um jornalista de raízes
marxistas; nunca li Marx, nunca fui de partido nenhum...
PLANETA Bem, para fazer essa entrevista eu fiz um levantamento
na imprensa e encontrei esse dado...
Loyola Eu imagino, mas é uma loucura! Trabalhei
num jornal, que eu diria de centro esquerda, que foi o Última
Hora, e aí eu tive uma inclinação para
os desvalidos. Nessa época, a gente cobria muito o
trabalhador ele era um jornal de trabalhadores. Eu
via como eles sofriam. Além do mais, eu sou filho de
um operário, o meu pai era ferroviário, e eu
sei como ele sofreu. Então, eu tinha naturalmente uma
consciência crítica do que era ou não
a realidade brasileira. Mas, quando eu fui fazer PLANETA,
nunca pensei nela em termos espiritualistas. Eu pensava em
uma revista muito curiosa de se fazer. Saí da Cláudia,
que era uma publicação interessante do ponto
de vista feminino, que abria um caminho para jovens e mulheres.
Ela falou de pílula, de virgindade, de camisinha, de
aborto, etc. Mas, num determinado momento, aquilo era tudo
repetitivo; PLANETA era matéria nova dentro da imprensa,
e eu sempre tive atração por coisas novas. Mas
eu nunca vi a revista como espiritualista.
PLANETA Mas ela dava espaço para temas voltados
para a espiritualidade...
Loyola Dava espaço para tudo. Estávamos
abertos a todo conhecimento não-oficial, não
carimbado. Tínhamos espíritas, maçons,
ateus, tínhamos o que se lançasse na mídia.
Ao contrário das outras, ela era uma publicação
que não tinha fórmulas e enquadramentos. Sua
base era a Planète; todos os meses, nós devíamos
usar, por contrato, o material da revista francesa. Evidentemente,
não podíamos fazer uma revista só francesa.
A Planète, inclusive, já tinha vários
artigos internacionais. Montamos então uma equipe para
levantar temas brasileiros: o Pellegrini, o Antonio Zago,
o Zezé Brandão, que hoje é publicitário,
o Edson Carneiro, grande folclorista, que depois foi um importante
assessor nosso; no primeiro número publicamos um artigo
dele. Depois veio, numa outra época, a dona Elsie Dubugras,
o Herculano de Freitas, que também era espírita,
o Edmundo Cardilo, que era um cara de Poços de Caldas
que estudava civilizações desaparecidas e Egito.
Dois meses depois que a revista saiu, chovia gente na redação;
nós ficamos assombrados com o número de pessoas
que estavam interessadas nas matérias e estudando aqueles
temas.
PLANETA Você tinha uma relação
muito próxima com os leitores. Que tipo de pessoas
lhe procuravam e, em geral, que dúvidas elas traziam?
Loyola Tudo o que você possa imaginar. Apareciam
desde os chatos, até os que se comunicavam com os mortos,
com os extraterrestres, os que viam disco voador, os que visitaram
civilizações já desaparecidas, como a
Atlântida, os que sabiam falar sumério. Apareceram
exorcistas aos montes, desde padres até leigos, e um
grande número de pessoas com casas mal-assombradas.
E, no meio disso, tinha gente séria. Eu tinha de conversar
com todo mundo.
PLANETA Você tirava um dia por semana para fazer
isso...
Loyola Sim, e às vezes, se a pessoa era
interessante, eu marcava um outro dia só para ela;
algumas delas acabaram sendo até nossas consultoras.
Algumas, por exemplo, eu encontrei depois em Bogotá,
no Primeiro Congresso Mundial da Bruxaria. Quando fiz a cobertura
desse congresso com a minha mulher, o Pellegrini e a Madalena
Schwartz, que era fotógrafa, lembro que, numa noite,
nós fomos para uma montanha e nos comunicamos com uma
tribo de índios do Colorado (EUA). Então, fizemos
desenhos e mostramos para uns índios colombianos, que
os transmitiram telepaticamente para a tribo americana. Depois
os desenhos recebidos vieram por radiofoto. Só eu podia
saber o que havia feito, que era o símbolo da Ferroviária
de Esportes nenhum índio poderia saber isso,
e ele voltou.
próxima>>
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