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Esporte e Espiritualidade
Desenvolvendo o Atleta Interior

Ao se deparar com obstáculos como falta de concentração, nervosismo, medo e insegurança, o atleta é levado a disputar um jogo interior que lhe permite também o desenvolvimento mental e espiritual.

Por Júlio César Borges

Sipa-Sport

As câmeras de TV mostraram: um dia depois de o Talibã, a milícia fundamentalista islâmica que governava o Afeganistão, abandonar Cabul, a capital do país já exibia sinais inequívocos de que atividades cotidianas banidas havia anos ressurgiam. A música jorrava de aparelhos de som, mulheres saíam às ruas sozinhas, homens faziam a barba, fotos de astros do cinema eram publicamente expostas. No estádio de futebol – antes palco de execuções, e com cartuchos vazios ainda espalhados pelo que restou do gramado –, jogadores voltavam a correr atrás de uma bola, enquanto uma prova ciclística acontecia nos arredores da cidade.

Futebol e ciclismo logo após o caos da guerra? Pois é: nem mesmo a repressão talibânica, seguidora extremada da máxima do aiatolá Khomeini de que o Islã não tem diversão, foi capaz de exterminar o anseio humano pelo esporte. Com suas características lúdicas, de desafios a superar com o corpo e a mente, o esporte serve até mesmo como metáfora de nossa aventura terrestre. Tradições esotéricas lembram que, a partir de um ponto de vista cósmico, todos somos atletas atuando no jogo da vida – aquele jogado na Terra, cuja duração é igual à da nossa vida (ou mais, se pensarmos em termos reencarnatórios) e cujo objetivo é a iluminação, a consciência, o amor ou o que quer que concebamos como nossa meta mais elevada.

O poder do esporte é tamanho que, durante a civilização grega, guerras foram interrompidas por ocasião das Olimpíadas. O respeito à competição e aos seus participantes ultrapassava a relevância das ações bélicas, e aos vencedores era reservado o tratamento de heróis. Hoje em dia, essa imagem – submetida a pressões comerciais, a dirigentes adeptos da corrupção ou do “ganhar a qualquer preço” (mesmo que tal preço implique burlar regras) – anda um pouco chamuscada. Mas basta ver o envolvimento mundial a cada Olimpíada ou Copa do Mundo e os números fabulosos do comércio de artigos esportivos para perceber que essas nódoas não são capazes de empanar a importância desse fenômeno.

Juca Rodrigues
Futebol: esporte que desenvolve o espírito de camaradagem e humildade.

Com suas características de versão mais simples do jogo da vida, o esporte é reconhecido como um notável veículo de desenvolvimento não apenas físico, como também mental e até espiritual. Por meio dele, tanto um atleta de competição como um praticante de fim de semana podem assimilar conceitos como autoconfiança, disciplina, concentração e capacidade de superação. Fica impossível não reconhecer a lapidação dessas qualidades, por exemplo, em Gustavo Kuerten ou Daniele Hypólito – dois atletas de um país sem tradição no tênis e na ginástica que conquistaram resultados notáveis em competições internacionais.

Quando se trata de um esporte coletivo, como o futebol ou o basquete, outras noções vêm agregar-se às anteriores, como camaradagem, humildade, cooperação e trabalho em equipe. A história está repleta de casos em que times modestos, mas coesos e equilibrados interiormente, desbancaram rivais repletos de estrelas, egos exacerbados e rixas internas. Os dois finalistas do último Campeonato Brasileiro de futebol, São Caetano e Atlético Paranaense, são apenas os testemunhos mais recentes disso.

Com seu gosto pela importância das partes em detrimento do todo, os dogmas cartesianos retardaram o quanto puderam no Ocidente a noção de que o indivíduo pode usar a atividade física para chegar à mente e ao espírito. O preparador físico Nuno Cobra (famoso por treinar astros como os pilotos Ayrton Senna e Rubens Barrichello) desenvolve uma proposta nesse sentido desde a década de 60 – mas pouca gente por aqui conseguia ver esse ângulo holístico de seu trabalho, só recentemente sistematizado no livro A Semente da Vitória. Seus colegas estrangeiros, como o americano George Leonard, receberam reconhecimento bem antes. Na obra The Ultimate Athlete, ele já dizia: “Descobrimos que os esportes e a educação física, reformulados e renovados, podem nos proporcionar o melhor caminho possível para a iluminação pessoal e a transformação social nesta época.”

Michael Murphy, o fundador do célebre Instituto Esalen, na Califórnia, tanto concorda com isso que chegou a escrever um ensaio denominado Esporte Como Ioga. Em parceria com Rhea White, ele redigiu The Psychic Side of Sports, documentando “o subterrâneo oculto do esporte” – uma coletânea de relatos de sensações místicas, percepções alteradas e feitos extraordinários comparáveis a antigas lendas sobre santos, iogues e magos. Num capítulo da obra sobre esporte e misticismo, Murphy apresenta as similaridades entre esses dois campos:

“Os jogos freqüentemente criam uma ordem que tem semelhança com a vida cadenciada dos ashrams e mosteiros, e de certa forma as expedições esportivas são como as peregrinações religiosas. Os atos que eles abrangem estão investidos de um sentido especial e buscam a perfeição. Os atletas sentem os efeitos de um campo de jogo. Um estádio de Olimpíada ou um campo de golfe famoso como St. Andrews pode trazer uma aceleração do espírito, uma concentração de ener-gias, uma conexão com heróis passados ou futuros cujo desempenho ali atingiu uma qualidade elevada.”

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