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Natal de 2001
E se Cristo Voltasse à Terra?
Caso Cristo voltasse a viver fisicamente entre nós, como seria
recebido pela humanidade, pelo Vaticano e pelas lideranças
mundiais? Uma coisa é certa: seu retorno certamente colocaria
em xeque nosso modo de vida, nossas instituições e estruturas
sociais.
Por
Carlos Cardoso Aveline
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Salvador Dalí, O Sacramento da Última Ceia/Galeria
Nacional de Arte de Washington |
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Se
quisermos saber quando se dará a volta de Cristo,
a resposta pode ser questionadora e surpreendente. Suponhamos,
para começar, que Jesus decida voltar ao convívio
humano aproveitando o clima de confraternização
das festas do final de 2001. Ele se tornaria visível
em Nova York, entraria na sede das Nações Unidas
e conversaria ali, a portas fechadas, com o secretário-geral
Kofi Annan? Ou surgiria curando doentes entre os povos mais
pobres e humildes da África? Talvez ele mandasse um
fax para os principais chefes de Estado. Quais as conseqüências
políticas, sociais e econômicas do seu reaparecimento?
Essas perguntas, feitas várias vezes no passado, são
incômodas. A volta de Cristo poderia colocar em xeque
nossos hábitos, nossas estruturas sociais e instituições.
Antes de investigar o que ocorreria se Jesus reaparecesse
nos dias atuais, vejamos o que teria acontecido há
alguns séculos. Fiódor Dostoiévski, um
dos maiores escritores de todos os tempos, descreveu em 1880
como teria sido a volta de Cristo em pleno século 16.
Ele narrou a aparição do homem divino entre
os habitantes de Sevilha, na Espanha. Naquela época
a Inquisição estava no auge. O Vaticano prendia,
torturava e matava em nome do Mestre. Na Espanha, o inquisidor
tinha poder absoluto. Todos os dias hereges eram queimados
vivos em fogueiras públicas, para maior glória
de Deus. Como seria, então, a volta do Cristo?
Segundo a narrativa de Dostoiévski, nessa ocasião
o Mestre decidiu voltar sem o anúncio dos sinais no
céu previstos na Bíblia:
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Quem
estaria disposto a largar seus dogmas para
viver os ensinamentos de Cristo?
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Ele
apareceu docemente, sem se fazer notar e coisa
estranha todos o reconheciam imediatamente. (...) Atraído
por uma força irresistível, o povo comprime-se
à sua passagem e segue-lhe os passos. Silencioso, ele
passa por entre a multidão com um sorriso de compaixão
infinita. Seu coração está abrasado de
amor, seus olhos desprendem uma luz, uma ciência e uma
força que irradiam e despertam o amor nos corações.
Estende-lhes os braços e abençoa-os. Uma força
curativa emana do seu contato e até mesmo de suas vestes.
Um velho, cego desde a infância, exclama no meio da
multidão: Senhor, cura-me e eu te verei.
Uma casca cai dos seus olhos e o cego vê. O povo derrama
lágrimas de alegria e beija o chão sobre as
marcas dos seus passos. As crianças lançam flores
à sua passagem.(1)
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Edouard Manet/Instituto de Arte de Chicago |
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| Cristo
aprisionado: destino que certamente se repetiria se
ele voltasse a viver sobre a Terra. |
A
população canta e grita Hosanna!
à passagem do Senhor. Os membros do povo repetem emocionados:
É Ele, é Ele. O Cristo avança
pela praça de Sevilha e ressuscita uma garota. No auge
da emoção popular, porém, surge na praça
da cidade a figura temível do grande inquisidor. É
um ancião quase nonagenário, com uma rigorosa
seriedade no rosto e a expressão de quem não
admite ser contrariado. Vestido com uma velha batina preta,
rodeado pela sua guarda pessoal, ele percebe num instante
o que está ocorrendo. Diante do seu olhar severo a
multidão emudece e se inclina até o chão,
respeitosa e atemorizada. Tão grande é
o seu poder, e o povo está de tal maneira acostumado
a submeter-se, a obedecer-lhe tremendo, que a multidão
se afasta imediatamente diante dos guardas, conta Dostoiévski.
Em meio de um silêncio mortal, Cristo é levado
para a prisão.
Horas
depois, a porta de uma masmorra se abre, rangendo, e o
inquisidor entra. Ele olha a Santa Face, como para confirmar
a identidade do seu interlocutor, e diz ao prisioneiro: És
tu? Não digas nada. Cala-te. Aliás, que poderias
dizer? Não tens o direito de acrescentar uma palavra
além do que disseste outrora. Por que vieste estorvar-nos?
Porque tu nos estorvas, bem o sabes. Mas sabes o que acontecerá
amanhã? Ignoro quem tu és e não quero
sabê-lo: tu ou apenas tua aparência. Mas amanhã
eu te condenarei e serás queimado como o pior dos heréticos,
e este mesmo povo que hoje te beijava os pés, amanhã,
a um sinal meu, irá alimentar a tua fogueira.
Enfático, o chefe da Inquisição
faz um discurso mostrando que o caminho estreito
ensinado pelo Mestre não pode ser percorrido, que é
demasiado difícil e só causa mais sofrimento.
Afirma que é impossível praticar o caminho da
luz e do amor incondicional. Só uma religião
autoritária, em que o dogma substitua a sabedoria,
pode dar felicidade ao povo. Apenas a mentira institucionalizada
pode garantir a ordem; nunca a verdade universal.
Cristo apenas escuta, fitando o seu carcereiro com
olhos serenos, enquanto nos seus lábios há um
sorriso de infinita compreensão. A mente do teólogo-carcereiro
não tem segredos para ele. Suas frases já são
conhecidas antes que as pronuncie. Ele condena a liberdade
individual pregada por Jesus. Considera absurda a idéia
de que cada homem seja senhor do seu próprio destino,
e conclui assegurando outra vez ao preso que sua heresia será
punida com a morte.
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Os
mestres divinos das grandes religiões sempre ajudaram
anonimamente a humanidade.
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Terminadas
as longas alegações, o Mestre não
diz uma palavra, mas mantém seu silêncio calmo
e cheio de paz. Depois de alguns instantes, Jesus ergue-se,
olha seu acusador nos olhos e o abraça. O poderoso
inquisidor fica surpreso, confuso, assustado. Luta para manter
o autocontrole psicológico. A força da santidade
parece vencê-lo por um momento: ele abre com força
a pesada porta da cela, aponta nervosamente para a saída
e diz ao Mestre:
Vai embora. Vai e não volta nunca mais. Nunca
mais!
O prisioneiro não responde. Com olhar iluminado
e passo calmo, ele sai da sua cela, passa pelos guardas e
desaparece na noite escura.
Esse, resumidamente, é o relato de Dostoiévski,
referente ao século 16. É certo que, se Cristo
aparecesse subitamente no momento atual cinco séculos
depois , os desafios não seriam poucos. Quem
estaria disposto a largar seus dogmas para viver o ensinamento?
O jesuíta indiano e escritor Anthony de Mello previu
essa possibilidade em um dos seus livros:
Nota
(1) Os Irmãos Karamázovi, de Fiódor
Dostoiévski, Ed. Nova Cultural, Círculo do Livro.
Veja o capítulo V do Livro V, pp. 203-217. Em alguns
detalhes, segui a tradução feita por Helena
Blavatsky diretamente do russo e publicada na revista The
Theosophist, Índia, edição de novembro
de 1881.
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