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Cavalcante: O Outro Brasil
Por
Cadmo Soares Gomes
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Fotos: Cadmo Soares Gomes |
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Cachoeira
Nova Brisa, no município de Cavalcante: paraíso escondido
no norte de Goiás.
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Tendo
crescido e vivido sempre em ambiente urbano, foi uma surpresa
para mim deparar-me, tão perto da Capital Federal, com parte
daquilo a que se pode perfeitamente chamar de o outro Brasil.
Não é que faltasse telefone celular ou conexão
de computador. Na verdade, ali nem há energia elétrica
e os cachorros ainda saem a perseguir aquela máquina barulhenta
e estranha que chamamos de automóvel, tão pouco estão
a ela acostumados. Era até lírico, em sua pureza,
ver as pessoas debruçarem-se às janelas simples para
ver o carro passar.
Lugar assim, paraíso para quem quer escapar do agito
das cidades por uns dias, ainda que possa parecer coisa de ficção,
existe. Fica no município de Cavalcante, no norte de Goiás,
quase divisa com o Estado do Tocantins.
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Vale
avistado do mirante da Serra da Ave-Maria: natureza deslumbrante.
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Situado
um pouco ao norte do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros,
Cavalcante está a 330 quilômetros de Brasília,
seguindo-se a BR-020 e depois a GO-118. A sede municipal é
uma cidadezinha tranqüila, bem cuidada, orgulhosa dos seus
268 anos de história, com toda a infra-estrutura de acolhimento
que um visitante pode desejar. Sua grande atração,
porém, está no interior: são mais de 250 cachoeiras
e cascatas catalogadas, sendo que menos de um terço estão
abertas ao público. Ao saber disso, meus olhos se arregalaram,
o coração deu um pulo. Curioso como sou, como daria
conta de conhecer todas? Teria de morar lá. A solução
foi confiar nas sugestões dos moradores locais e visitar
as que pudesse. Afinal, dispunha só de quatro dias.
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Cachoeiras
do rio da Prata: paisagens que lembram os cenários dos
filmes de Tarzã.
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Teria
de percorrer 60 quilômetros numa estrada de terra, o suficiente
para fazer qualquer um desistir. Mas a disposição
era maior. O dia se fazia bonito, céu azul, nenhuma nuvem,
tucanos voavam à frente do carro de vez em quando, provocando
gritos de alegria de minhas crianças, sempre fiéis
companheiras nessas empreitadas. Aqui e ali uma raposa cruzava rapidamente
a pista. De repente, deparamos com uma encosta de montanha, que
o carro subiu sem reclamar. Lá em cima, uma parada no mirante
da Serra da Ave-Maria, que se descortina para um amplo vale verde
montes ao fundo, fios prateados de riachos vistos de cima.
Não há como não se deslumbrar com esse Brasil.
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Labirinto:
conjunto de piscinas naturais escavadas em rochas de estranhas
formas.
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O
melhor ainda estava por vir: o rio da Prata nos brindaria com
uma série de cachoeiras inseridas numa grande concha de pedra,
cena saída de um filme de Tarzã. Conhecida como cachoeiras
da Prata, suas águas verde-transparentes são únicas
e formam piscinas plásticas, onde até um bebê
está seguro. As árvores se debruçam às
margens, cedendo sua sombra refrescante. Passarinhos cantam, borboletas
azuis enfeitam a folhagem. A vontade é de nunca sair dali.
Não se pode, porém, ficar. Há mais para ser
visitado.
Mais
além, o Labirinto, outra série de piscinas verdes,
escavadas na rocha. Para meus olhos de leigo, é impressionante
como a formação geológica muda tão de
repente. As rochas têm formas estranhas; poderia ser uma paisagem
lunar se a Lua tivesse água. Meu filho, de 10 anos, não
queria mais sair dali, brincando com os sapinhos e peixes, que,
pouco acostumados com a ação predadora do homem, continuavam
a nadar a seu redor como se ele próprio fizesse parte daquele
sistema. Prosseguindo na direção rio acima, mais cachoeiras
e quedas, umas formando canyons, outras corredeiras, mas todas resultando
em praias da mais absoluta tranqüilidade. Uma coisa é
certa: o ponto em comum entre todos os recantos visitados foi a
beleza. Pode até parecer banal dizê-lo, mas seria injusto
se não o fizesse: a beleza selvagem, intocada daquele pedaço
do País é de assombrar fica-se quase sem saber
para onde apontar a máquina fotográfica.
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Queda
d’água em forma de canyon: beleza ainda selvagem.
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O
caminho de volta foi completado com as explicações
do guia, que, com olhos acostumados à paisagem, sabia nos
dizer que por ali passou um lobo ou que uma anta ou capivara bebera
água no riacho ao lado. Por fim, vieram as explicações
sobre a vasta flora local, com indicações medicinais
e tudo.
Orquídeas
e bromélias enfeitavam a tarde que morria vermelha. Com
a alma tranqüila, eu ouvia a trilha sonora dos bandos de araras
que voam, de lado a lado, buscando a proteção das
palmeiras. Para minha tristeza, a noite anunciava o fim do passeio
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