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Edição 350


 

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TURISMO

Cavalcante: O Outro Brasil

Por Cadmo Soares Gomes

Fotos: Cadmo Soares Gomes
Cachoeira Nova Brisa, no município de Cavalcante: paraíso escondido no norte de Goiás.  

Tendo crescido e vivido sempre em ambiente urbano, foi uma surpresa para mim deparar-me, tão perto da Capital Federal, com parte daquilo a que se pode perfeitamente chamar de “o outro Brasil”. Não é que faltasse telefone celular ou conexão de computador. Na verdade, ali nem há energia elétrica e os cachorros ainda saem a perseguir aquela máquina barulhenta e estranha que chamamos de automóvel, tão pouco estão a ela acostumados. Era até lírico, em sua pureza, ver as pessoas debruçarem-se às janelas simples para ver o carro passar.

Lugar assim, paraíso para quem quer escapar do agito das cidades por uns dias, ainda que possa parecer coisa de ficção, existe. Fica no município de Cavalcante, no norte de Goiás, quase divisa com o Estado do Tocantins.

Vale avistado do mirante da Serra da Ave-Maria: natureza deslumbrante.

Situado um pouco ao norte do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, Cavalcante está a 330 quilômetros de Brasília, seguindo-se a BR-020 e depois a GO-118. A sede municipal é uma cidadezinha tranqüila, bem cuidada, orgulhosa dos seus 268 anos de história, com toda a infra-estrutura de acolhimento que um visitante pode desejar. Sua grande atração, porém, está no interior: são mais de 250 cachoeiras e cascatas catalogadas, sendo que menos de um terço estão abertas ao público. Ao saber disso, meus olhos se arregalaram, o coração deu um pulo. Curioso como sou, como daria conta de conhecer todas? Teria de morar lá. A solução foi confiar nas sugestões dos moradores locais e visitar as que pudesse. Afinal, dispunha só de quatro dias.

Cachoeiras do rio da Prata: paisagens que lembram os cenários dos filmes de Tarzã.

Teria de percorrer 60 quilômetros numa estrada de terra, o suficiente para fazer qualquer um desistir. Mas a disposição era maior. O dia se fazia bonito, céu azul, nenhuma nuvem, tucanos voavam à frente do carro de vez em quando, provocando gritos de alegria de minhas crianças, sempre fiéis companheiras nessas empreitadas. Aqui e ali uma raposa cruzava rapidamente a pista. De repente, deparamos com uma encosta de montanha, que o carro subiu sem reclamar. Lá em cima, uma parada no mirante da Serra da Ave-Maria, que se descortina para um amplo vale verde – montes ao fundo, fios prateados de riachos vistos de cima. Não há como não se deslumbrar com esse Brasil.

Labirinto: conjunto de piscinas naturais escavadas em rochas de estranhas formas.

O melhor ainda estava por vir: o rio da Prata nos brindaria com uma série de cachoeiras inseridas numa grande concha de pedra, cena saída de um filme de Tarzã. Conhecida como cachoeiras da Prata, suas águas verde-transparentes são únicas e formam piscinas plásticas, onde até um bebê está seguro. As árvores se debruçam às margens, cedendo sua sombra refrescante. Passarinhos cantam, borboletas azuis enfeitam a folhagem. A vontade é de nunca sair dali. Não se pode, porém, ficar. Há mais para ser visitado.

Mais além, o Labirinto, outra série de piscinas verdes, escavadas na rocha. Para meus olhos de leigo, é impressionante como a formação geológica muda tão de repente. As rochas têm formas estranhas; poderia ser uma paisagem lunar se a Lua tivesse água. Meu filho, de 10 anos, não queria mais sair dali, brincando com os sapinhos e peixes, que, pouco acostumados com a ação predadora do homem, continuavam a nadar a seu redor como se ele próprio fizesse parte daquele sistema. Prosseguindo na direção rio acima, mais cachoeiras e quedas, umas formando canyons, outras corredeiras, mas todas resultando em praias da mais absoluta tranqüilidade. Uma coisa é certa: o ponto em comum entre todos os recantos visitados foi a beleza. Pode até parecer banal dizê-lo, mas seria injusto se não o fizesse: a beleza selvagem, intocada daquele pedaço do País é de assombrar – fica-se quase sem saber para onde apontar a máquina fotográfica.

Queda d’água em forma de canyon: beleza ainda selvagem.

O caminho de volta foi completado com as explicações do guia, que, com olhos acostumados à paisagem, sabia nos dizer que por ali passou um lobo ou que uma anta ou capivara bebera água no riacho ao lado. Por fim, vieram as explicações sobre a vasta flora local, com indicações medicinais e tudo.

Orquídeas e bromélias enfeitavam a tarde que morria vermelha. Com a alma tranqüila, eu ouvia a trilha sonora dos bandos de araras que voam, de lado a lado, buscando a proteção das palmeiras. Para minha tristeza, a noite anunciava o fim do passeio…


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