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Profecias
Nostradamus previu a tragédia?
Após os atentados terroristas sofridos pelos Estados Unidos,
muitos foram buscar nas Profecias de Nostradamus algo que
pudesse indicar o início da Terceira Guerra Mundial. Um estudo
mais aprofundado da obra do profeta, porém, leva a crer que
ele jamais fez tal previsão.
Por Paulo Urban - Paulo Urban é médico psiquiatra
e psicoterapeuta. Há anos vem preparando um livro sobre Nostradamus,
tendo pesquisado no Instituto Histórico e Geográfico de Provence.
E-mail: paulourban@ig.com.br
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Ilustrações de Christiane S. Messias sobre fotos da
Sipa-Press
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Tão
logo o mundo assistia atônito ao maior atentado
terrorista da história, a Internet congestionava-se.
Milhões de pessoas tentavam simultaneamente informar-se
sobre o ocorrido, calculando perdas, obtendo nomes das vítimas,
aguardando pelos pronunciamentos dos governantes. Ao lado
dessa inquietação imediata, uma outra, que permanentemente
nos assola, recrudescia: haverá futuro? Como ele será?
Desde os primórdios, a humanidade cultua seus
oráculos, e pelas mesmas razões que levam cada
um de nós a refletir acerca do amanhã. Devido
ao padrão crescente de ansiedade do Ocidente, seguimos
na expectativa do porvir, cruelmente posto em xeque sempre
que tragédias e mortes se avizinham, principalmente
quando ocorrem em aterradora escala e de modo imprevisível.
Mais de cinco mil vítimas nas torres do World
Trade Center, cinco centenas de bombeiros mortos em ação,
cerca de mil feridos e 200 mortos no Pentágono, e 266
passageiros sacrificados por conta de quatro grupos terroristas
que decidiram atirar seus respectivos aviões, feito
mísseis, numa queda suicida. Os números e a
dimensão da catástrofe falam por si. O terrível
fato fez ainda com que hordas em desespero fossem buscar nas
Profecias de Nostradamus algo que assinalasse se aquelas explosões
transmitidas ao vivo por todas as redes de TV seriam mesmo
o estopim para a Terceira Guerra Mundial, em palavras mais
honestas, o começo do fim do mundo.
Uma quadra, ainda que escrita em tom vago, mas com
aparente especificidade com o ocorrido, logo ganhou os computadores
do mundo tão agilmente como os vírus que se
multiplicam em correntes:
Na Cidade de Deus haverá um grande trovão,
dois irmãos caem apartados pelo Caos, enquanto a fortaleza
resiste, o grande líder sucumbe.
A Terceira Grande Guerra começa quando a cidade está
em chamas. (Nostradamus 1654)
Nos dias seguintes ao atentado, meu endereço
eletrônico saturou-se com mensagens de amigos e leitores
perguntando-me a respeito desse texto. Antes deles, na própria
terça-feira negra, a revista IstoÉ também
me entrevistava acerca da quadra que parecia se adequar incrivelmente
à tragédia. Com todos fui tácito, tive
até de fazer clones de minha resposta: A quadra
é absolutamente espúria! Não, Nostradamus
nunca a escreveu. Além disso, a data citada nada tem
a ver com o século em que viveu o profeta, muito menos
é numeração padronizada de seus escritos.
Michel
de Notredame nasceu em 14 de dezembro de 1503, em Saint-Remy
de Provence. Veio a morrer por falência hepá-tica
em 2 de julho de 1566 em Salon, na casa hoje transformada
em museu, onde escreveu suas Profecias. Ao deixar em 1531
a Universidade de Montpellier, onde cursara medicina, valendo-se
do título de doutor, latinizou seu nome para Nostradamus.
De suas várias publicações, nenhuma repercutiu
tanto como as Profecias, cujo número de reedições
no Ocidente perde apenas para a Bíblia. Invariavelmente,
são interpretadas absurdamente por tantos quantos se
aventuram a decifrar seu conteúdo enigmático,
onde julgam estar velado o destino de toda a humanidade vislumbrado
por seu autor. As Profecias de Michel de Notredame foram inicialmente
publicadas em 1555. Nova edição ampliada surgiu
em 1557, e uma terceira, completa, em 1558, acrescida de um
prefácio dedicado ao invencível e tão
poderoso e tão cristão Henrique II, rei de França,
colocado entre a 6a e a 7a centúrias.
Cada centúria, como o nome já diz, compõe-se
de cem quadras. Estas, por sua vez, reúnem quatro versos
decassílabos rimados dois a dois. Mas, se a pretensão
de Michel fosse a poesia, posso dizer que sua produção
é um tanto medíocre; suas quadras não
só estão jogadas a esmo, quase exclusivamente
sem pistas que lhes confiram cronologia, como seus versos
mostram-se geralmente desconexos mesmo quando tomados em relação
a si próprios. Como o sábio escrevia sempre
às madrugadas e declaradamente sob efeito de alucinógenos,
seu estilo, ainda que respeite a métrica, mostra-se
desregradamente exuberante e fantástico. Deixou-nos
dez centúrias. Mas como a 6a acha-se incompleta, com
42 quadras, suas Profecias não chegam a mil como muitas
fontes, erradamente, anunciam.
próxima>>
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