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Edição 350


 

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Profecias
Nostradamus previu a tragédia?

Após os atentados terroristas sofridos pelos Estados Unidos, muitos foram buscar nas Profecias de Nostradamus algo que pudesse indicar o início da Terceira Guerra Mundial. Um estudo mais aprofundado da obra do profeta, porém, leva a crer que ele jamais fez tal previsão.

Por Paulo Urban - Paulo Urban é médico psiquiatra e psicoterapeuta. Há anos vem preparando um livro sobre Nostradamus, tendo pesquisado no Instituto Histórico e Geográfico de Provence. E-mail: paulourban@ig.com.br

Ilustrações de Christiane S. Messias sobre fotos da Sipa-Press

Tão logo o mundo assistia atônito ao maior atentado terrorista da história, a Internet congestionava-se. Milhões de pessoas tentavam simultaneamente informar-se sobre o ocorrido, calculando perdas, obtendo nomes das vítimas, aguardando pelos pronunciamentos dos governantes. Ao lado dessa inquietação imediata, uma outra, que permanentemente nos assola, recrudescia: haverá futuro? Como ele será?

Desde os primórdios, a humanidade cultua seus oráculos, e pelas mesmas razões que levam cada um de nós a refletir acerca do amanhã. Devido ao padrão crescente de ansiedade do Ocidente, seguimos na expectativa do porvir, cruelmente posto em xeque sempre que tragédias e mortes se avizinham, principalmente quando ocorrem em aterradora escala e de modo imprevisível.

Mais de cinco mil vítimas nas torres do World Trade Center, cinco centenas de bombeiros mortos em ação, cerca de mil feridos e 200 mortos no Pentágono, e 266 passageiros sacrificados por conta de quatro grupos terroristas que decidiram atirar seus respectivos aviões, feito mísseis, numa queda suicida. Os números e a dimensão da catástrofe falam por si. O terrível fato fez ainda com que hordas em desespero fossem buscar nas Profecias de Nostradamus algo que assinalasse se aquelas explosões transmitidas ao vivo por todas as redes de TV seriam mesmo o estopim para a Terceira Guerra Mundial, em palavras mais honestas, o começo do fim do mundo.

Uma quadra, ainda que escrita em tom vago, mas com aparente especificidade com o ocorrido, logo ganhou os computadores do mundo tão agilmente como os vírus que se multiplicam em correntes:

“Na Cidade de Deus haverá um grande trovão, dois irmãos caem apartados pelo Caos, enquanto a fortaleza resiste, o grande líder sucumbe.
A Terceira Grande Guerra começa quando a cidade está em chamas.” (Nostradamus – 1654)

Nos dias seguintes ao atentado, meu endereço eletrônico saturou-se com mensagens de amigos e leitores perguntando-me a respeito desse texto. Antes deles, na própria terça-feira negra, a revista IstoÉ também me entrevistava acerca da quadra que parecia se adequar incrivelmente à tragédia. Com todos fui tácito, tive até de fazer clones de minha resposta: “A quadra é absolutamente espúria! Não, Nostradamus nunca a escreveu. Além disso, a data citada nada tem a ver com o século em que viveu o profeta, muito menos é numeração padronizada de seus escritos.”

Michel de Notredame nasceu em 14 de dezembro de 1503, em Saint-Remy de Provence. Veio a morrer por falência hepá-tica em 2 de julho de 1566 em Salon, na casa hoje transformada em museu, onde escreveu suas Profecias. Ao deixar em 1531 a Universidade de Montpellier, onde cursara medicina, valendo-se do título de doutor, latinizou seu nome para Nostradamus. De suas várias publicações, nenhuma repercutiu tanto como as Profecias, cujo número de reedições no Ocidente perde apenas para a Bíblia. Invariavelmente, são interpretadas absurdamente por tantos quantos se aventuram a decifrar seu conteúdo enigmático, onde julgam estar velado o destino de toda a humanidade vislumbrado por seu autor. As Profecias de Michel de Notredame foram inicialmente publicadas em 1555. Nova edição ampliada surgiu em 1557, e uma terceira, completa, em 1558, acrescida de um prefácio dedicado ao “invencível e tão poderoso e tão cristão Henrique II, rei de França”, colocado entre a 6a e a 7a centúrias.

Cada centúria, como o nome já diz, compõe-se de cem quadras. Estas, por sua vez, reúnem quatro versos decassílabos rimados dois a dois. Mas, se a pretensão de Michel fosse a poesia, posso dizer que sua produção é um tanto medíocre; suas quadras não só estão jogadas a esmo, quase exclusivamente sem pistas que lhes confiram cronologia, como seus versos mostram-se geralmente desconexos mesmo quando tomados em relação a si próprios. Como o sábio escrevia sempre às madrugadas e declaradamente sob efeito de alucinógenos, seu estilo, ainda que respeite a métrica, mostra-se desregradamente exuberante e fantástico. Deixou-nos dez centúrias. Mas como a 6a acha-se incompleta, com 42 quadras, suas Profecias não chegam a mil como muitas fontes, erradamente, anunciam.

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