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Edição 350


 

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Cláudio Pastro
Imagens do Sagrado - continuação

Painel Central na igreja paroquial de Santo Emídio/Vila Prudente, São Paulo, SP

Por outro lado, em termos de arte, eu trabalhei nos 30 piores anos da Igreja católica no Brasil. Nessa época, por causa da situação local – ditadura, pobreza, etc. –, a Igreja deu ênfase apenas à questão social, não se preocupando com o ser espiritual, com a linguagem espiritual, com a cultura cristã. Era só eu que me debatia. O que levei de pontapé de bispos e de padres que hoje me adoram... Você não pode imaginar como eu sofri. Hoje já há equipes de arquitetos e de artistas que estão sendo promovidos pela CNBB, a Conferência Na-cional dos Bispos do Brasil. Eles começam a se destacar, mas estão encontrando “a cama pronta”, como a gente diz na linguagem mais simples; eu preparei tudo.

PLANETA – Qual é, para você, a finalidade da arte sacra?
Cláudio Pastro –
A finalidade da arte sacra é permitir que o sagrado se manifeste ao homem, e não o contrário: o homem para Deus.

Igreja paroquial São José Operário/Jundiaí, SP

PLANETA – Você diria, então, que ela é uma arte de inspiração divina?
Cláudio Pastro –
Na Igreja oriental, até hoje, e no primeiro milênio do cristianismo, a arte sacra e o artista faziam parte dos sagrados mistérios da Igreja. Logo depois do bispo, do padre, do diácono, vinha o artista, como um ministério dentro da Igreja. A partir do Concílio de Verona, a Igreja católica latina rompeu com o artista; ela o tirou do seu quadro de ministérios. Então, o artista foi se desenvolvendo como auto-suficiente. E aí surgiram Humboldt, Giotto, mais tarde Michelangelo, Rubens, Rafael, etc. Esses já são artistas autônomos, dos quais a Igreja se aproveitou. O padre estava precisando fazer uma pintura na sua igreja e convidava um artista famoso, Michelangelo, por exemplo. Necessariamente ele não tinha de ter fé, não tinha de fazer parte dos sagrados ministérios, etc. Ele era simplesmente um grande artista.

Esses artistas trabalharam muito na Igreja católica latina e não passaram uma arte sacra, mas uma arte religiosa, que é muito mais humana do que divina. Ela é muito mais reflexo do próprio artista, de sua concepção do que vem a ser o sagrado, o religioso como manifestação, quer dizer, não há a universalidade da arte sacra.

Mosteiro Beneditino de Betânia/Bruges, Bélgica

PLANETA – Não há uma vivência...
Cláudio Pastro –
Sim. Toda a arte do índio e do negro numa tribo, por exemplo, é sacra. Eles não fazem arte para vender por metro, como nós no Ocidente, mas para manifestar uma festa, uma morte, sempre elementos ligados, divino-humano. Então, o artista juntamente com o cacique, com o sacerdote, sei lá com quem, faz um todo – isso é arte sacra.

PLANETA – Em que período da história você acha que os artistas melhor retrataram a arte sacra?
Cláudio Pastro –
No primeiro milênio do cristianismo. No segundo milênio, ela vem sendo retratada através dos ícones sagrados na Igreja oriental. Porque, muito embora a Igreja oriental tenha certas aberrações – como a nossa, ela ficou muito ligada ao nacionalismo da Grécia, da Armênia, etc. –, o artista vive sua expressão de fé, manifesta isso na arte; ele não cria tanto uma coisa subjetiva. O mesmo acontece com os budistas, os tibetanos, entre os quais o artista faz parte do que acontece, da cerimônia como um todo.

Mãe da Trapa, Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo/Campo do Tenente, Paraná

PLANETA – Ele vive o budismo...
Cláudio Pastro –
Sim. No nosso caso, não há necessidade. A Capela Sistina esteve fechada para restauração durante14 anos. Logo depois da reforma, o papa fez um discurso muito bonito; ele disse: “Este é o templo do corpo.” Ele não disse: “Este é um templo divino.” Michelangelo retratou muito bem o corpo humano, criado à imagem e semelhança de Deus, a beleza que vem daí – tudo bem. Mas a preocupação dele era fazer uma obra muito bonita em que os corpos humanos aparecessem no seu esplendor. Ele retratou profetas, etc., mas com uma visão subjetiva, não dentro de um esquema litúrgico, dentro de uma linguagem da Igreja.

PLANETA – Ele teria de usar símbolos próprios da Igreja, a própria base teórica...
Cláudio Pastro –
E também a liturgia. Ele teria de viver os mistérios da Igreja. Mas a própria Igreja abandonou os seus mistérios. Por exemplo, agora com a guerra, a gente houve falar que os muçulmanos rezam cinco vezes por dia. O cristão tem de rezar sete vezes por dia, mas quem faz isso e na hora certa? A coisa nos últimos séculos foi reduzindo tanto que os únicos que as rezam sete vezes são as monjas e os monges nos seus mosteiros. O cristão nem sabe mais que existe essa prática.

PLANETA – Você disse no seu livro que pinta para Jesus, e não para o povo. Estaria aí o segredo da suavidade e da harmonia que sua obra passa para a gente?
Cláudio Pastro –
Sim. Porque pintar para Jesus significa que eu pinto para a divindade, e a divindade se incumbe de passar para o povo. Então, indiretamente eu pinto para o povo, mas não tenho a preocupação do povo, que seria uma preocupação social. Aí eu criaria um novo barroco. Existem hoje também algumas pessoas metidas a artistas que pintam cenas do Cristo como o Cristo lutador, guerreiro, revolucionário, etc. Isso é simplesmente um espelho, um retratar-se. A função da arte sacra, no caso do cristianismo – mas também em toda a arte sacra –, é mostrar para o fiel que, mesmo sendo pobre, ele é nobre. Nós pertencemos a estirpe de Jesus Cristo, portanto, sendo cristãos, somos nobres por natureza.

Panô litúrgico do Tempo do Natal O Salvador: ícone sobre metal (detalhe)/coleção do artista Vitrais da capela do Colégio
Nossa Senhora do Rosário/
São Paulo, SP

Outros livros de Cláudio Pastro
Guia do Espaço Sagrado, Ed. Loyola, 1998; Arte Sacra – O Espaço Sagrado Hoje, Ed. Loyola, 1993; Natal Brasileiro, Ed. Paulinas, 1996; Parábolas, Ed. Ploger, 1999 (lançado em Frankfurt); Nikan Mopohua – Ilustração da Virgem de Guadalupe, Ed. Loyola, 1995).

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