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Edição 350


 

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A Psicologia do Conflito
A Eterna Luta Entre o Bem e o Mal - continuação

Catherine Leroy/Sipa-Press
A falta de um trabalho para reabilitar os presos garante bodes expiatórios para os nossos erros.

É justamente essa cisão que nos faz torcer e vibrar com as heróicas incursões de “exércitos de um só homem”, que mostram como, através da bravura e da força de vontade, um único indivíduo é capaz de dominar e destruir o poderoso inimigo. Esse herói é o retrato do homem que se separa da divindade
existente nele.

Em nossa psique, isso se traduz no ego, que cindiu com o self. Ele deveria ser apenas o condutor dos desígnios supremos do self, mas se apropria e se autodelega o poder de reinar sobre todo o sistema.
Essa inflação egóica cria uma verdadeira megalomania, na qual se perdem os limites ditados pela condição humana. Do ponto de vista psicológico, ela representa uma involução da consciência, que perde seu mais importante atributo: a discriminação.

Paula Alzugarai/Prensa Três
Peregrinos do Caminho de Santiago: busca mística para reencontrar-se com a divindade.

As conseqüências disso são sempre desastrosas, pois, se não nos damos conta da realidade, ela dá conta de nós. E não faltam exemplos para mostrar
como a realidade está lidando conosco: as
mudanças climáticas, as doenças humanas e animais, como a da vaca louca (gerada a partir da mudança alimentar do gado), sem pensar no que advirá ainda da reengenharia genética...

Realmente o mundo, daqui pra frente, não será mais o mesmo, porém, não somente por conta do ataque terrorista ao World Trade Center, mas porque nossas esperanças de felicidade, de segurança, de “paz na Terra aos homens de boa vontade” já vêm ruindo faz algum tempo, principalmente através da perda de valores, como a ética, a honestidade e a justiça. Na verdade, há muito não existem mais caminhos retos, estradas planas, certezas absolutas; existe sim, na maioria das vezes, o andar em círculos, as incertezas e perdas.

É exatamente esse caos, porém, que pode abrir espaço para buscarmos novas verdades. O arquétipo do caminho já ilumina nossas estradas há algum tempo. Não foi à toa que a peregrinação de Paulo Coelho pelo Caminho de Santiago ganhou tanta divulgação: de certa forma, sincronicamente o escritor captou a necessidade auto-realizadora desse momento da humanidade. O caminho misticamente descrito por ele é o caminho da individuação, ou seja, da busca do centro, do self, da religação do homem com a divindade. Essa é uma senda de perdas, de provas, de confrontações com nossos monstros. Aqui o herói não destrói o inimigo, mas se reconcilia com ele; e não pode se prender às armadilhas da vaidade, pois deve conhecer sua imperfeição.

Na linguagem alquímica, é a matéria-prima (ou nigredo) em seu estado bruto que pode ser transformada em ouro. Da mesma maneira, somente quando reconhecemos nossa condição moral imperfeita, deixamos de ser possuídos por nossa sombra e podemos recuperar a própria integridade.

Como nos ensinou Jung, “se a pessoa deseja ter uma resposta para o problema do mal, precisa de autoconhecimento, ou seja, do conhecimento de sua totalidade.
Precisa saber a fundo quanto bem pode fazer e quantos crimes é capaz de cometer. Não deve encarar um como real e outro como ilusório, pois ambos são elementos
da sua natureza (...)”.(1)

“Não nos esqueçamos”, alerta ele ainda, de “que em nossas almas há mundos tão vastos que a evolução de uma nação ou de todo universo poderia ocorrer no interior de nós mesmos.” Se pensarmos assim, somos forçados a aceitar a nossa responsabilidade individual na transformação positiva do planeta. Para lidarmos com a questão do mal devemos, antes de tudo, lançar luz sobre a nossa própria sombra.

Nota
(1) C. G. Jung em Problemas Psíquicos do Mundo Atual, Monte Ávila Editores.

O que há para se ler
Retorno da Deusa, Edward C. Wititmont, Summus Editorial; Ao Encontro da Sombra, vários autores, Cultrix Editorial; O Herói Interior, Carol S. Pearson, Cultrix Editorial; O Despertar do Herói Interior, Carol S. Pearson, Pensamento.

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