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Edição 350


 

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A Psicologia do Conflito
A Eterna Luta Entre o Bem e o Mal

O conflito no Afeganistão coloca em evidência o óbvio: se queremos um mundo melhor, precisamos antes reconhecer a nossa própria sombra.

Vera Lúcia Franco - Contatos com a autora podem ser feitos através do telefone (11) 5549-4742.

Artilharia, Roger de La Fresnaye, Museu Metropolitano de Nova York.

A escalada do terrorismo traz à tona uma questão tão velha quanto a própria humanidade: a eterna luta entre o bem e o mal. Em 11 de setembro de 2001, o mal irrompeu com violência implacável, deixando atrás de si um rastro de sangue, dor e desespero. O mundo assistia, atônito, ao pior ataque terrorista da história, que mais parecia ficção do que realidade.

Juntamente com um dos seus maiores símbolos econômicos – o World Trade Center –, o americano sentiu ruir seu senso de identidade, formado a partir de seu poder de defender a ordem, de sua capacidade de conquistar, possuir e assimilar os objetos e adversários que lhes oponham resistência. Pior ainda: dessa vez o inimigo não tem nome, não tem rosto, não deixou pegadas. Como achá-lo?

Tribunal da Inquisição: projeção
da sombra católica sobre
feiticeiros e bruxas.

Diante de tão duro golpe, os americanos só
poderiam mesmo promover uma cruzada santa em direção aos que eles julgam serem os causadores do mal, para tentar subjugá-los, trancafiá-los ou, quem sabe, até exterminá-los.

Os Estados Unidos convocaram o mundo para a guerra como se, através de armas, pudessem eliminar o mal da face da Terra. Eles esquecem que o mal é tão inerente à espécie humana quanto o bem e acompanha a humanidade desde o seu alvorecer, não podendo, portanto, ser destruído.

Sipa-Press
Desastres climáticos: desequilíbrios sentidos na natureza.

Não podemos ignorar o que a história já registrou: as Cruzadas, a Inquisição, Hiroshima, Hitler, o fascismo... Todas as “guerras santas” estavam plenas de mal – que nada mais é do que a percepção do senso de inferioridade e animalidade humanos –, uma vez que as sombras de nações inteiras se projetavam sobre os chamados inimigos ou “bodes expiatórios”: as bruxas, os judeus, etc.

O episódio da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética ilustra bem o que esse interjogo de projeções da sombra pode provocar. Um país via o sistema político e social do outro como a causa de todos os males da humanidade e, por conta disso, legalizaram o uso da violência para ali eliminar os sistemas “inimigos”, onde quer que eles existissem.

Não é somente aí, porém, que constatamos a existência do mal. Nós o vemos diariamente estampado, por exemplo, na maioria de nossos políticos, que empurram o povo a sonhos impossíveis; só após o cumprimento de seus mandatos, percebemos a verdadeira intenção de seus atos – em geral, assaltar os cofres públicos. Muitos líderes, travestidos de salvadores da pátria, arrastam multidões atrás de si e nada mais são do que lobos em pele de cordeiros.

Em um artigo para o jornal Inroads, J. Fjerkenstand mostra como a cultura faz com que os criminosos carreguem suas partes indignas e escuras. Segundo ele, a sociedade não tenta realmente reabilitá-los, simplesmente os transforma em bodes expiatórios para o sacrifício. “Precisamos de bandidos para que alguém, que não nós, seja pego”, afirma ele.

Necessitamos de alguém que seja o depositário de nossas imperfeições sobretudo porque, ao acusarmos o inimigo, encontramos uma falsa paz interior. Afinal, com isso, não somos mais nós a causa do mal, mas o outro. O que se pode entender, a partir daí, é que, por não conseguir aceitar seus atributos negativos, a humanidade vive uma cisão, que sempre nos faz caminhar para a guerra.

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