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Edição 350


 

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Sexo Zen
A Doce Entrega Amorosa

Baseado na tradicional cerimônia do chá e na filosofia zen, o Caminho da Entrega ensina a fazer do sexo um momento de profunda dedicação, generosidade e respeito em relação ao ser amado.

Por Philip Toshio Sudo - O texto a seguir é um capítulo do livro Sexo Zen – O Caminho da Plenitude, de Philip Toshio Sudo, publicado no Brasil pela Editora Sextante. Tradução: Heloisa Lanari.

Murilo Martins

O sexo zen é simplesmente isso: amantes fazendo amor, entregando-se um ao outro, querendo entregar-se ao outro. Não retirando, não precisando, não sendo egoísta, mas com generosidade e devoção no momento do sexo. O desafio é manter esse espírito em todos os momentos de um relacionamento.

O Caminho da Entrega é baseado nas técnicas da cerimônia japonesa do chá, chado (“o Caminho do Chá”). Cada encontro para o chá é uma chance para que anfitrião e convidado estabeleçam uma comunhão na singularidade do momento. O anfitrião mostra ao convidado toda a sua consideração e o convidado retribui com gratidão. Dessa maneira singela, os dois criam uma harmonia entre si e, portanto, com o mundo.

Prensa Três
Cerimônia japonesa do chá: anfitriões e convidados vivem um singular momento de comunhão.

Um dos princípios fundamentais do chado se aplica diretamente à entrega. Chama-se kokoro ire, ou “inclusão do espírito do coração”. Simplesmente ponha seu coração em tudo o que fizer, dizem os mestres do chá. Não sirva o chá querendo impressionar os outros ou esperando algo em troca. Sirva seus convidados porque você quer servir, com um coração humilde e sincero. No chado, o chá mais requintado não é o servido pelo anfitrião em sua sala de chá cheia de ouro e brocados. O ingrediente mais importante, como em qualquer refeição, é a dedicação amorosa de quem a prepara.

Uma história envolvendo o mais famoso mestre japonês do chá, Sem Rikyu (1522-1591), ilustra bem o tema. É sobre um plantador de chá que certa vez convidou o grande mestre para tomar chá:

“Tomado de alegria por Rikyu ter aceito o convite, o plantador de chá levou-o à sala de chá e lhe serviu a bebida. No entanto, devido à sua emoção, suas mãos tremeram e seu desempenho foi desastroso, deixando cair o coador e espalhando seu conteúdo. Os outros convidados, discípulos de Rikyu, disfarçaram o riso diante do desempenho do homem ao servir o chá, mas Rikyu disse, comovido: ‘Esplêndido’.

“No caminho de volta para casa, um dos discípulos perguntou a Rikyu: ‘Por que você ficou tão impressionado com um desempenho tão vergonhoso?’ Rikyu respondeu: ‘Esse homem não me convidou querendo exibir suas habilidades. Ele simplesmente queria me servir chá de todo o seu coração. Ele preparou um chá para mim com enorme dedicação, sem se preocupar com imperfeições. Fiquei comovido com sua sinceridade.’”

Klint, O Beijo/Österreichische, Viena
Relacionamentos harmoniosos: inclusão do “espírito do coração”.

Este é o caminho para uma realização mais elevada no zen: dar pelo simples prazer de dar. Às vezes, pensamos que um relacionamento requer muito dinheiro, uma bela casa, ou presentes caros. Mas o espírito de kokoro ire – a inclusão de todo o seu coração – nos faz lembrar que nada é mais importante do que o amor que dedicamos às pessoas com quem estamos. Toda pessoa é uma manifestação do espírito divino. Assim, para nos dedicarmos totalmente a alguém, devemos mostrar respeito não somente a essa pessoa, mas também à grande força divina presente em todas as coisas.

Às vezes, as pessoas fazem sexo por obrigação ou manifestando insegurança. O sexo não deve ser uma tarefa. Se você está fazendo amor enquanto pensa na roupa suja ou no que terá de fazer no trabalho amanhã, sua mente e seu corpo não estão unidos. Com uma atitude indiferente não vale a pena fazer amor. Não se arraste pelo caminho. Se é necessário arrastar seus pés, você está no caminho errado.

Além disso, não ceda a um desejo egocêntrico de provar alguma coisa na cama. Grande parte dos conselhos para aprimorarmos nossas vidas sexuais dizem respeito à técnica. São coisas do tipo posições sexuais para contorcionistas, como atingir o ponto G, cento e uma maneiras de se beijar. Não importa se um amante tem uma técnica fantástica. Se ele não entregar seu coração, o sexo logo ficará vazio, como uma peça encenada por atores. O espírito do sexo deve estar presente, o espírito da entrega. A técnica é acessório que pode ajudar, mas não substitui.

Moroshige/século 17
O sexo zen pede a entrega total e sincera dos amantes.

Da mesma maneira, evite se entregar com uma determinação excessiva. O bom sexo não resulta de tentativa exagerada. Relaxe e não se apresse. Como Rikyu diz do chado, “é bom que o anfitrião e o convidado se empenhem e conseqüentemente satisfaçam um ao outro. No entanto, não é bom que eles visem ao objetivo da satisfação desde o início”.

Tudo o que é preciso para ser um bom amante é um coração generoso. Se não houver muita técnica, ensinem um ao outro. Vocês irão aprendendo juntos e encontrarão o maior encanto nesse aprendizado.

Também não faça estardalhaço sobre sua entrega, pois isso suscita sentimentos de obrigação ou reciprocidade. “Realize um bom trabalho em segredo”, dizem os mestres. Esse é o conceito japonês de toku, cuja tradução é “virtude”, mas na prática significa “boa ação sem retribuição”. Toku é como o amor que dedicamos a um recém-nascido. Enquanto o bebê cresce, ele desconhece nossos sacrifícios. Ele só sabe que é feliz, e nossa recompensa se encontra aí.

Dê seu amor às pessoas de uma maneira que elas jamais saberão e você elevará o espírito coletivo da humanidade.

Não é preciso se preocupar em ganhar algo em troca, porque, quando dois amantes fazem sexo, dar e receber se tornam a mesma coisa. Um amante está dentro do outro. A diferença entre dar e receber é insignificante. Nas palavras do filósofo romântico Kahlil Gibran (1883-1931), “o prazer da abelha é recolher o néctar da flor, mas é também o prazer da flor dar seu néctar à abelha. Pois, para a abelha, a flor é a fonte da vida e, para a flor, a abelha é uma mensageira do amor. Para ambas, abelha e flor, dar e receber prazer são necessidades e fontes de êxtase”.

Quando você está verdadeiramente em comunhão com tudo, pode dar qualquer coisa, porque ainda terá tudo. Você pode abrir seu coração livremente e dar o melhor de si, porque o que há dentro de você é inesgotável. Os mestres zen dizem: “Havendo profundidade bastante, a fonte suprirá amplamente o riacho.” Não importa o que dermos, sempre nos sentiremos recompensados, pois a fonte de nossa doação é ilimitada.

É a fonte do amor.

 

       


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