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TURISMO

Sete Cidades: Uma Obra-Prima da Natureza

Por Fátima Afonso

Fotos: Fátima Afonso
Parque Nacional de Sete Cidades, no Piauí: fantásticas esculturas resultantes de erosão natural.

Não eram ainda 8h30 e eu já estava na entrada do Parque Nacional de Sete Cidades. Em poucos minutos, o ônibus do Ibama vindo do centro de Piripiri (PI) passaria ali rumo ao local de atendimento ao turista, onde obrigatoriamente eu deveria passar. Apesar da hora, o sol já dava demonstrações de sua força, e a carona com certeza seria bem-vinda.

Embora Sete Cidades ocupe 6.221 hectares, a área aberta ao público limita-se a 490 hectares, cerca de 15 quilômetros. De maneira geral, os visitantes que ali chegam preferem percorrer o parque de carro. Optei por fazer o passeio a pé. Não, caro leitor, não fiz, ao nascer, a opção pelo sofrimento. Na verdade, agradam-me as longas caminhadas e o contato mais próximo com a natureza. O grande inconveniente, nesse caso, era o calor escaldante do Piauí. De qualquer forma, estava disposta a superá-lo.

O Elefante encontra-se na Sexta Cidade, por onde se inicia o passeio.

De carro ou a pé, em Sete Cidades o turista é obrigatoriamente acompanhado por um guia. A medida visa, sobretudo, impedir que pessoas pouco habituadas às regras da conservação ambiental subam nas rochas ou risquem o conjunto de monumentos naturais. Assim, por volta das 9 horas da manhã, Eanes – minha jovem guia – e eu saímos para explorar o parque.

Histórias fantásticas sobre a origem do lugar não faltam. Uma das hipóteses mais conhecidas foi formulada, em 1928, pelo austríaco Ludwig Schwenhagen. Segundo ele, as formações que se espalham por todo o parque seriam as ruínas de uma antiga cidade ali construída pelos fenícios. Ao que tudo indica, porém, a fascinante paisagem piauiense – “esculturas” de animais, figuras humanas, etc. – é mesmo resultado da erosão natural sobre rochas de arenito, um processo que teria começado há 200 milhões de anos.

O que, convenhamos, não deixa de ser fantástico.

Ao atravessar o Arco do Triunfo, o turista tem direito a formular três desejos.

A primeira notícia oficial sobre “as sete cidades de pedra do Piauí” foi publicada, em dezembro de 1886, pelo jornalista cearense Jácome Avelino, em um jornal de Fortaleza. A partir do artigo é que teria surgido o atual nome do lugar.

Por questões de praticidade, o passeio começa pela Sexta Cidade, onde estão o Elefante e o Cachorro. Enquanto caminhamos na direção do próximo conjunto de esculturas, Eanes conta que na região vivem várias espécies de animais, como onças, tamanduás, tatus, mocós, jibóias, cascavéis, veados-mateiros, diversas aves e répteis.

A Segunda Cidade é a maior de todas. Ali está o Arco do Triunfo (ou do Desejo), o qual, para que suas estruturas não sejam abaladas, só pode ser visitado a pé. Diz a lenda que quem atravessa o arco de pedra tem direito a três pedidos. Talvez por questões éticas, desejar ficar rico, bonito ou casar é, porém, proibido.

Vista parcial da Biblioteca e, sobre ela, a Jibóia de 12 metros de comprimento.

No Sítio Pequeno encontram-se algumas pinturas rupestres, que datam de 5 mil anos atrás. Acredita-se que a parede onde se vêem as imagens seja o fundo de uma caverna erodida. Um pouco mais adiante está o Sítio da Mão dos Seis Dedos, que, além da figura que lhe deu nome, apresenta, entre outros, o desenho de um pajé em ritual e uma cabeça que dizem ser de um E.T. Em todo o parque, na verdade, há cerca de 70 pontos de concentração de pinturas rupestres, que retratam cenas do dia-a-dia dos primitivos habitantes locais, os índios tabajaras, quiriris e genipapos.

Seguindo em frente, ainda nos limites da Segunda Cidade, encontra-se a Biblioteca. Ali, a erosão horizontal e vertical formou lâminas e placas que lembram antigos papiros. Sobre ela está a Jibóia, que mede 10 metros de comprimento.

Do Mirante, a cerca de 45 metros de altitude, se tem uma noção geral das sete cidades, que se misturam no horizonte com a vegetação ainda verde, apesar da falta de chuva na região.

Piscina natural alimentada pelo Olho D’água dos Milagres: presente dos deuses

Na Quinta Cidade está a Pedra da Inscrição, famosa por abrigar um desenho que lembra uma cadeia de DNA. Pesquisadores que defendem a passagem dos fenícios pelo local buscam argumentos para sua hipótese sobretudo nessa figura.

Depois de passar pela Furna do Índio, pelo Último dos Moicanos e pelo Imperador com Manto (ou Rei Coroado), fizemos uma parada na Gruta do Catirina. O nome é uma referência a José Ferreira do Egito, uma espécie de curandeiro que ali chegou, em 1931, com o filho doente, possível portador de epilepsia. Dizem que Catirina só deixou a pequena gruta em 1944, quando o filho morreu.

O Sol já ia alto quando Eane e eu atravessamos o pequeno arco que nos separava da Quarta Cidade, onde estão o Jacaré, o Beijo do Lagarto e o Mapa do Brasil.

Na Terceira Cidade, uma curiosidade astronômica: o Furo Solsticial. De 21 para 22 de junho, por volta de 5h30, quando o Sol passa pela linha do equador, os raios solares atravessam o pequeno buraco na rocha, que teria sido aperfeiçoado pelos fenícios.

A Cabeça de D. Pedro I, o Dedo de Deus, o Oratório, os Três Reis Magos, a Pedra do Beijo e o Mapa do Brasil e Suas Divisões completam a paisagem daquele conjunto.

Além da Pedra dos Canhões, da Máquina de Costura e da Floresta de Pedras, na Primeira Cidade está o Olho D’água dos Milagres, que abastece uma piscina natural, rodeada de vasta vegetação. Embora o parque tenha 22 nascentes, aquela é a única que não seca, mesmo durante o chamado inverno nordestino. Nunca, caro leitor, um nome me pareceu tão apropriado: em plena 1 hora da tarde, sob o calor escaldante do Piauí, água fresca para um banho é, de fato, uma dádiva dos deuses.

Reabastecidas as energias, partimos meio a contragosto, deixando pra trás a Cachoeira do Riacho, também seca naquela época.

Na sétima e última cidade, acham-se o Casario, a Toca da Raposa e a Gruta do Pajé, mais um abrigo do homem primitivo. Ali, os sítios de pinturas rupestres estão abrigados em uma área de preservação, à qual só os funcionários do Ibama têm acesso.

Já eram 3 horas da tarde quando Eanes e eu chegamos de volta ao centro de recepção, onde uma boa notícia me aguardava: em instantes um turista ia descer, rumo a Piripiri, e poderia me dar uma carona até o hotel-fazenda onde estava hospedada, ao lado da entrada do parque. A notícia vinha bem a calhar: confesso que já não tinha energia para andar mais 6 quilômetros debaixo do Sol quente, e o pessoal do Ibama só sairia às 18 horas. Quando entrei na Cherokee do visitante – que havia percorrido Sete Cidades de carro –, de imediato comparei mentalmente a nossa aparência: suas roupas branquinhas e impecáveis contrastavam de forma gritante com os meus trajes empoeirados; ele aparentava o frescor de quem acabara de sair do banho, eu transpirava por todos os poros. Mais tarde, depois de um merecido descanso, ri sozinha da cena.

O passeio havia sido realmente cansativo – não nego. Mas não trazia arrependimentos. Afinal, o corpo logo estaria em forma novamente; a alma, por sua vez, guardaria para sempre a sensação de descanso e liberdade experimetada naquele pedaço mágico do Piauí...


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