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Entrevista
Roberto
Sabatella
A
Arte de Morar Bem
Roberto Sabatella, professor de arquitetura e urbanismo da
Universidade Federal do Paraná (UFPR), mostra aos leitores
de PLANETA a nova tendência arquitetônica, que integra o homem
à natureza, e aponta soluções para se resolver os principais
problemas de grandes centros como São Paulo.
Por Fátima Afonso
| Liz
Hood |
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PLANETA
Quais as principais características de um
ecoedifício?
Roberto Sabatella Antes gostaria de fazer
um alerta. Nestes quase 15 anos de carreira (desde a faculdade
como estudante, atualmente como arquiteto, urbanista e professor
do curso de arquitetura e urbanismo da UFPR), tenho acompanhado
uma espécie de necessidade das pessoas de repetir fórmulas
e padrões estéticos e formais, uma cópia
inconseqüente de modelos. Meu livro, Princípios
do Ecoedifício (Editora Aquariana), não
é um manual de receitas, afirmando como deve ser a
arquitetura dos edifícios. O escopo da obra é
gerar consciência ecológica e autoconsciência,
e a partir daí ser incorporado como conteúdo
conceitual no léxico de arquitetos, engenheiros e projetistas,
de modo criativo. Portanto, é um compêndio conceitual
ilustrado, e não um manual de padrões a serem
repetidos.
As características do edifício ecológico,
na verdade, começam no processo de conscientização
das pessoas, pois somos o material de construção
para o qual o edifício é destinado. Então,
inicialmente, deve-se atuar de modo a internalizar os conteúdos
ecológicos nos participantes do processo de planejamento,
construção e habitação. Somos
nós que definimos a proporção de área
construída e área verde ou permeável;
somos nós quem definimos as reformas, demolições
e ampliações. Tudo isso tem conseqüências
ambientais e construtivas.
Para caracterizar um ecoedifício, eu levo em conta
primeiro a abordagem sobre paradigmas científicos e
conceitos contemporâneos sobre ecologia, consciência,
biologia, psicologia, etc. A partir dessa macrovisão
considero várias questões. O usuário,
por exemplo, deve ser compreendido como um gestor de recursos
e energias do edifício. Ele pode reciclar resíduos
orgânicos, inorgânicos e materiais de construção.
Poucas pessoas e cidades têm essa consciência
ecológica de que os recursos ambientais cumprem ciclos
e que, para transformar matéria-prima, degradamos o
meio. Reciclar é interferir nesses ciclos para gerar
menor degradação.
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Arnaldo
Bento/Prensa Três
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| Em
uma casa, o vegetal serve para refrescar, fazer sombra
e canalizar ventos. |
Quanto
às energias, existe a possibilidade de se reciclar
a água das chuvas e usar, inclusive, as águas
de esgoto, diante de processos como armazenamento e até
a compostagem do líquido, transformando-o em recursos
para residências e condomínios. As energias solar
e eólica ainda têm custos altos, mas em locais
isolados seu uso já está bem difundido. Por
outro lado, há recursos de uso paisagístico:
a água serve para umidificar o ar em locais quentes
e o vegetal para refrescar, fazer sombra e canalizar ventos.
Nesse caso, pode se fazer uso de hortas, árvores frutíferas
e plantas medicinais, por exemplo. Os elementos construtivos,
como paredes e coberturas, são decisivos para compor
espaços arquitetônicos, que conferem um microclima
edificado especial e adaptado ao clima das regiões.
Além de fornecerem intenso contato com a natureza,
jardins e espaços com qualidade de vida são
pontos de encontro das famílias e amigos.
PLANETA
A qualidade do terreno sobre o qual está a construção
é um item importante para quem deseja viver dentro
do paradigma ecológico. Como devemos fazer a escolha
do terreno?
Sabatella O terreno mais saudável
é uma consciência em paz em todos os sentidos:
construtivos, interpessoais, familiares, etc. Devemos construir
nossa morada nesse solo fértil, mas o próprio
paradigma ecológico nem sempre dá conta disso.
Falo de ciência e consciência, algo que supera
a questão do que cientificamente chama-se paradigma.
Mas vamos ao terreno: sabendo o que realmente queremos, analisamos
desde o contexto urbano de que circulação faremos
na cidade, nossa vizinhança, se desejamos um local
com ou sem comércio, escola, serviços... Tudo
influenciará em nosso viver. Devemos, portanto, perguntar
como queremos morar.
Observo as cidades muito em busca de concreto, e pouco em
busca de qualidade de vida, pouco verde, pouca sociabilidade,
pouco espaço para o ser humano. Somos resultado de
uma gestação milenar, na qual interagimos com
o Sol, com os vegetais, com o céu, com a terra... e
lentamente nos afastamos disso e de nós mesmos. Precisamos
retornar à própria casa.
PLANETA Levando-se em consideração
que a maioria das pessoas compra ou aluga um imóvel
já pronto, como é possível, para o cidadão
comum identificar qualquer problema no edifício?
Sabatella O primeiro passo é
verificar o que incomoda e o que agrada. Por que incomoda
e por que agrada? Não precisamos seguir as tendências
de revistas e copiar. Devemos afastar a escravidão
e deixar surgir a criatividade.
Para qualificar os espaços, em geral pergunto: o quanto
de nós, de nossas características pessoais e
de vida, está realmente presente em nossos espaços?
Onde verdadeiramente quero viver? É possível
até escrever um memorial, e a partir daí lançar
mão de elementos que estão à nossa disposição:
os técnicos construtores e projetistas, obras de arte,
cores, vegetação, iluminação,
fechamento e abertura de espaços, etc.
próxima>>
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