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Aprendizado Coletivo
Do Terror à Paz Mundial

Com o ataque terrorista ao gigante norte-americano, fica claro que o grande desafio da humanidade hoje é construir, com urgência, um mundo globalmente mais justo, fraterno e pacífico.

Por Carlos Cardoso Aveline

Doug Kanter/AFP

Os observadores internacionais estão certos: o mundo não será o mesmo depois da destruição do World Trade Center e de uma parte do prédio do Pentágono. Os fatos de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington abrem uma etapa diferente do processo civilizatório.

Fica clara, por exemplo, a vulnerabilidade do país mais poderoso do planeta. O fanatismo religioso chega a níveis de crueldade até aqui inéditos. Voa pelos ares o conceito de segurança militar alimentado até hoje por algumas das principais potências econômicas. Mas a mudança necessária para resolver os vários desafios atuais é complexa. São indispensáveis, para os países democráticos, novas visões de mundo, outros padrões vibratórios – e criatividade para desviar da armadilha do ódio, construindo um mundo melhor, mais justo e mais pacífico.

Toda guerra, como qualquer ação militar, é sempre cruel; porém, normalmente elas não tinham como objetivo matar o maior número possível de pessoas inocentes. Mesmo em guerras extremamente devastadoras, os adversários visavam obter objetivos militares, controlar territórios ou obter vantagens estratégicas que beneficiem os seus povos. A meta era conquistar vantagens estratégicas concretas, como território ou armas, e não assassinar inocentes apenas para gerar terror em uma guerra psicológica. Do mesmo modo, as guerras de guerrilha marxistas do século 20 promoveram ações armadas visando sempre alcançar objetivos militares com o menor número possível de mortes, tanto de civis como de soldados inimigos.

Bill Gentile/Sipa-Press
Guerras de guerrilha: lutas com o menor número de mortes possível.

Hoje, porém, não se fazem guerras como antigamente. Até o século 19, as populações foram em geral poupadas da violência e as guerras matavam quase exclusivamente os soldados. Mais de 100 milhões de pessoas foram mortas nas guerras do século 20. Na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), 95% dos mortos eram soldados. Na Segunda Guerra (1939-1945), pouco mais de 50% dos mortos foram civis desarmados. Na guerra do Líbano de 1982, por exemplo, mais de 90% dos mortos foram civis.(1) Em Hiroshima e Nagasaki, os Estados Unidos destruíram cidades inteiras, matando suas populações.

Nos últimos anos, o fanatismo religioso de algumas seitas islâmicas, generosamente financiadas com dinheiro de petróleo, vem acentuando essa transformação da antiga guerra formal em mero assassinato de inocentes indefesos. Distorcendo a sabedoria do Islã, ignorando a vocação pacífica da maioria dos povos árabes, os suicidas assassinos que se imolam em sua “guerra santa” acreditam não só nas promessas de alcançar o céu, mas também na garantia de que serão recordados como heróis e de que suas famí-lias receberão generosas pensões dos financiadores do terror.

Depois das explosões de homens-bombas em locais públicos de Israel – inclusive uma pizzaria –, a morte de milhares de pessoas nos atentados de 11 de setembro parece abrir um abismo à nossa frente. Nada pode justificar a loucura suicida e assassina. Mas a dor nos ensina a viver com mais sabedoria. Os ódios e extremismos passam e a humanidade permanece. Do ponto de vista espiritual, todos os sofrimentos humanos acabam fazendo parte do nosso aprendizado coletivo e da caminhada comum em direção à luz. A evolução humana é quase sempre acelerada pelas crises que atravessamos. O sofrimento e a insegurança coletiva provocados pelo terror em Nova York e Washington podem aprofundar a compreensão da necessidade da convivência justa e pacífica entre todos os povos, na era global que se inicia. A justiça é inseparável da paz.

Alfred/Sipa-Press
A injustiça social e a miséria são fatores que estimulam a violência.

Em algum momento, uma nova perspectiva surgirá também em relação aos nossos hábitos de pensamento. A força subconsciente das idéias que alimentamos é um dos aspectos fascinantes do funcionamento da lei do carma. Somos o que pensamos. Consciente e inconscientemente, o pensamento cria a vida. E a sociedade norte-americana pensa demasiado em violência. “Todas as coisas são precedidas pela mente, guiadas pela mente e criadas pela mente. Tudo o que somos hoje é resultado do que temos pensado. O que pensamos hoje é o que seremos amanhã; nossa vida é criação da nossa mente”, ensina o Dhammapada budista.(2)

Os filmes de Hollywood promovem um verdadeiro culto comercial não só ao sexo gratuito, mas também à violência pela violência. A indústria do entretenimento faz centenas de milhões de pessoas passarem o seu tempo livre vendo continuamente cenas de terror, violência e desespero, e essa massa confusa de pensamentos adere ao carma da nação e produz, ocultamente, seus resultados. É por isso, em grande parte, que a sociedade norte-americana é violenta. A cultura brasileira, aliás, sofre do mesmo problema de hipnose. Para superar o terrorismo e as outras formas de ação criminosa, será oportuno reexaminar as bases da cultura ocidental.

O teosofista James Perkins escreveu em um livro sobre reencarnação que a Inglaterra e os Estados Unidos podem ser uma reencarnação do império romano. Grande parte das almas individuais que viveram no antigo império podem estar reencarnando desde o século 19 no mundo anglo-saxão.(3) Seja verdadeira ou não essa hipótese, o conhecido comportamento imperial dos Estados Unidos tem uma base histórica apreciável. É interessante observar que, já nos tempos de Roma, a violência era um espetáculo com que os poderosos entretinham o povo, no teatro Coliseu, onde os gladiadores se enfrentavam. Os gladiadores de ontem foram substituídos pelos atores dos modernos filmes de violência, cheios de recursos especiais. Mas os efeitos desse tipo de pensamento, que gira em torno da morte, continuam sendo os mesmos.

Ainda que os Estados Unidos de hoje sejam, de certo modo, uma reencarnação do antigo império romano, os seus cidadãos e dirigentes podem superar as tendências do passado e criar uma situação melhor do que as das fases decadentes do mundo romano. O sábio imperador Marco Aurélio, por exemplo, criou em seu tempo um conselho de chefes de Estado comparável, sob vários aspectos, à ONU. As possibilidades de hoje são infinitas. Purificando-se os hábitos de pensamento coletivos, purifica-se toda uma civilização e plantam-se as sementes da paz duradoura.

Notas
(1) The Gaia Peace Atlas, Dr. Frank Barnaby (editor geral), PAN Books, London, 1988, 271 pp. Ver p. 98.
(2) Dhammapada, O Caminho da Lei, tradução e adaptação de Georges da Silva, Ed. Pensamento, SP, 1978, p. 19.
(3) Experiencing Reincarnation, livro de James Perkins, Quest Books, TPH, 1982, Wheaton, Illinois, EUA, 192 pp. Ver pp. 31-38.

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