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Mitologia Para Crianças
Os Príncipes Negros do Destino

Reginaldo Prandi lançou, recentemente, um livro para crianças que reúne várias histórias da mitologia afro-brasileira. A seguir, mostramos a lenda dos 16 odus.

Por Reginaldo Prandi
O texto aqui apresentado é a Introdução do livro Os Príncipes do Destino de Reginaldo Prandi, lançado recentemente pela Cosac & Naify Edições.

Ilustrações: Paulo Monteiro

Há muito tempo, num antigo país da África, 16 príncipes negros trabalhavam juntos numa missão da mais alta importância para seu povo, povo que chamamos de iorubá. Seu ofício era colecionar e contar histórias. O tradicional povo iorubá acreditava que tudo na vida se repete. Assim, o que acontece e acontecerá na vida de alguém já aconteceu muito antes a outra pessoa.

Saber as histórias já acontecidas, as histórias do passado, significava para eles saber o que acontece e o que vai acontecer na vida daqueles que vivem o presente. Pois eles acreditavam que tudo na vida é repetição. E as histórias tinham que ser aprendidas de cor e transmitidas de boca em boca, de geração a geração, pois, como muitos outros velhos povos do mundo, os iorubás antigos não conheciam a palavra escrita.

Ilustrações: Paulo Monteiro

Na língua iorubá dos nossos 16 príncipes havia uma palavra para se referir a eles. Eles eram chamados de odus, que poderíamos traduzir como portadores do destino. Os príncipes odus colecionavam as histórias dos que viveram em tempos passados, sendo cada um deles responsável por um determinado assunto. Assim, o odu chamado Oxé sabia todas as histórias de amor. Odi sabia as histórias que falavam de viagens, negócios e guerras. Ossá sabia tudo a respeito da vida em família e da maternidade. E assim por diante.

As histórias falavam de tudo o que acontece na vida das pessoas, de aspectos positivos e negativos, pois tudo tem o seu lado bom e o seu lado ruim.

Ilustrações: Paulo Monteiro

Quando uma criança iorubá nascia, um dos 16 odus passava a cuidar de seu destino, de modo que na vida da nova criatura se repetiriam as histórias contadas pelo príncipe que era o seu odu, o padrinho de seu destino. Sim, cada criança nascida naquele país tinha um odu protetor e esse odu a acompanhava pela vida afora, era seu destino. E tudo o que lhe acontecia estava previsto nas histórias que o príncipe protetor gostava de contar.

Não era incomum um menino dizer aos amiguinhos: “Sou afilhado do príncipe Ejiobê e por isso vou ser muito inteligente e equilibrado.”

“Meu odu é o príncipe Ocanrã e por isso sou assim esperto”, gabava-se, orgulhoso, outro moleque.

Ilustrações: Paulo Monteiro

“O odu que rege o meu destino é Odi e eu vou ser um guerreiro valente e vitorioso”, falava um terceiro menino, sonhando com um destino venturoso, já se sentindo o maioral da criançada. Por isso chamamos os odus de príncipes do destino.

Bem, formavam o time completo dos odus os príncipes Ocanrã, Ejiocô, Etaogundá e Irossum, mais Oxé, Obará, Odi e Ejiobê, além de Ossá, Ofum, Ouorim e Ejila-Xeborá e também Ejiologbom, Icá, Oturá e Oturopom. Fazendo um pequeno comentário, os tais príncipes tinham nomes bem esquisitos, não é? Mas só porque são nomes africanos e nós somos brasileiros. Sendo assim, nossos ouvidos não estão acostumados com eles. Cada povo tem sua língua e cada língua tem seus sons e suas palavras. Quem fala uma língua acha os sons de outra esquisitos. Se contássemos uma história semelhante a esta para crianças africanas e disséssemos que nossos heróis eram chamados de Francisco, Vinícius, Pedro e Joaquim, elas iam achar os nomes muito estranhos, como nós achamos fora do comum os deles.

Entre os 16 príncipes do destino, Ejila-Xeborá talvez fosse o odu mais invejado, pois aqueles que tinham a vida regida por ele estavam fadados a agir com justiça e conhecer o sucesso, desde que não fizessem nenhuma besteira, é claro. Já o odu Obará só sabia falar de coisas tristes, como as histórias dos que são roubados, dos que perdem bens materiais, dos que não conseguem realizar até o fim nada de bom, sempre envolvidos em fracasso e frustração.

Ilustrações: Paulo Monteiro

Por isso ninguém gostava de conversar com Obará, pois lá ia ele contando aquelas histórias infelizes, e por isso mesmo o chamavam de Príncipe Infeliz. E é claro que ninguém queria ter Obará, coitado, como padrinho de algum filho seu.

Acima dos 16 príncipes odus estava o Senhor do Destino, o deus que os iorubás chamavam de Ifá. Os antigos iorubás cultuavam muitos deuses, que eles chamavam de orixás, e cada orixá cuidava de um diferente aspecto do mundo. Ifá era o orixá do destino, o mestre do acontecer da vida, e os odus trabalhavam para ele.

Ifá vivia no Céu dos orixás, que era chamado de Orum. De lá ele comandava os príncipes odus. Os odus orientavam o destino dos seres humanos, mas Ifá os vigiava com muita atenção, para que tudo saísse como deveria ser, na vida de cada homem, na vida de cada mulher, fosse um velho, fosse um adulto, fosse uma criança.

 

       


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